Após nove assassinatos em 2010, MP suspeita de grupo de extermínio de moradores de rua em Maceió

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

Uma série de assassinatos de moradores de rua em Maceió está preocupando as autoridades em Alagoas. Em 2010 já foram registrados nove assassinatos e três tentativas de homicídio. Das mortes, quatro foram registradas entre junho e julho.

O último dos crimes aconteceu na noite da última segunda-feira (19), quando um morador de rua foi morto no Mercado da Produção, no centro da capital alagoana.

Todos os crimes aconteceram durante a noite ou a madrugada. Apenas três das nove mortes registradas foram por disparos de arma de fogo. As demais morte foram pedradas, facadas ou mesmo incêndio.

Entre as mortes registradas este ano, duas tiveram grande repercussão no Estado pelos requintes de crueldade. A primeira vítima, no dia 1º de março, foi uma jovem grávida de sete meses, que foi assassinada enquanto dormia no jardim de uma associação de aposentados. Quinze dias depois, um morador de rua de 58 anos foi queimado vivo também enquanto dormia na praça Centenário, uma das principais da cidade, no bairro do Farol. Ele ainda foi socorrido com vida, mas morreu dois dias após tratamento no Hospital Geral do Estado.

O promotor do núcleo de Direitos Humanos do MInistério Público Estadual, Flavio Gomes, vê com "estranheza" os crimes. "Isso nunca aconteceu antes em Alagoas. Podemos estar diante de um grupo de extermínio porque essas mortes são muito estranhas. Quem quer se vingar ou executar uma pessoa com dívida por drogas não mata a pedradas. Nada pode ser descartado neste momento, porque precisamos saber se o modus operandi é o mesmo nos crimes", explicou.

Para ele, a Polícia Civil deveria concentrar a investigação dos crimes em uma única delegacia. "Poderia ser tudo na mão de um delegado, pois como há suspeita de existir um grupo de extermínio, facilitaria a investigação", disse Gomes.

Apesar da suspeita de extermínio em massa, os crimes ainda são tratados como homicídios isolados e sem relação entre si. Os casos são investigados pelas delegacias distritais das áreas onde os crimes acontecem. Até o momento, a Polícia Civil não apontou nenhum acusado dos atentados.

O UOL Notícias tentou entrar em contato com o diretor-geral da Polícia Civil, Marcílio Barenco, e com o diretor adjunto, José Edson, para saber como estão as investigações, mas nenhum deles atendeu ou retornou as ligações.

Situação “epidêmica”

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Alagoas, Gilberto Irineu, disse que o crescimento no número de crimes contra moradores de rua em Maceió é “muito preocupante” e, na opinião dele, revela um descasso com os mais pobres, que não têm casa.

“Vivemos um sintoma epidêmico de apedrejar e matar moradores de rua na cidade. Já fizemos três ofícios pedindo soluções de crimes à Polícia Civil, mas há uma falta de informação sobre elucidações sobre esses casos. Esta semana vamos fazer uma cobrança desses resultados”, assegurou.

Segundo ele, as mortes ainda não podem ser atribuídas a um grupo de extermínio. Ele analisa que a situação de abandono dos moradores de rua em Maceió facilita os crimes. “Existe uma ausência do poder público, tanto estadual como municipal. Faltam abrigos e políticas de assistência social”, afirmou Irineu, citando também o uso de drogas como um fator agravante na situação de quem mora na rua.

Em novembro do ano passado, uma pesquisa feita pela Prefeitura de Maceió, a pedido do MP e da vice-governadoria, apontou que 97% dos moradores de rua consomem algum tipo de droga. Segundo o levantamento, a maior fonte financiadora é a esmola dada pelas pessoas.

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