Existe uma cultura de impunidade e conivência com a propina no Rio, dizem especialistas

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

  • Marcelo Piu/Agência O Globo

    Rafael Bussamra (e) e seu advogado, Spencer Levy, chegam para depoimento na polícia do Rio

    Rafael Bussamra (e) e seu advogado, Spencer Levy, chegam para depoimento na polícia do Rio

As denúncias de que dois policias militares teriam pedido R$ 10 mil de propina para liberar o carro do homem que atropelou o filho da atriz Cissa Guimarães expôs uma prática de suborno que está disseminada no Rio de Janeiro e, segundo especialistas ouvidos pelo UOL Notícias, é reflexo de uma cultura de impunidade e conivência.

Rafael Bussamra admitiu ter atropelado Rafael Mascarenhas, 18, em um túnel do Rio de Janeiro, no dia 20. Em depoimento à polícia, o pai de Bussanra afirmou que os PMS Marcello José Leal Martins e Marcelo de Souza Bigon liberaram o carro de seu filho após pagamento da propina.

“Existe propina de R$ 10. É difícil explicar isso só pela questão dos baixos salários pago aos policiais. É uma questão cultural. O policial se sente no direito de receber propina por qualquer coisa, e a sociedade, particularmente o segmento de mais alta renda, exige a corrupção policial para não ser punida”, analisou o sociólogo José Augusto Rodrigues, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência.

Para ele, existe uma cultura de conivência com o desrespeito à lei muito forte no Rio de Janeiro, que “provavelmente deriva da ideologia da malandragem e do antioficialismo, em sua face mais bárbara e de desordem”. “Evidentemente que a corrupção tem dois lados. No Rio, existe uma cultura de que tudo é possível desde que se pague uma cerveja para o policial”, resumiu.

O sociólogo e coordenador da ONG Viva Rio, Fabiano Monteiro, concorda. “Existe, sim, uma prática bem difundida de suborno e uma forte cultura do assédio. No Rio, as pessoas saem com o carro em situação irregular, já contando com o suborno”, disse.

Segundo ele, a mudança passaria pela revisão dos salários dos policiais do Rio, que têm o segundo pior vencimento do Brasil, e por novas modalidades de formação de agentes, com provas focadas em perfis psicológicos, e não apenas em testes de conhecimento e provas físicas.

Polícia faz reconstituição do atropelamento

“Policial mal pago é mais fácil de seduzir. E o tráfico tem um volume de dinheiro que é capaz de assediar os policiais e provocar a corrupção. Acho que em nenhuma outra metrópole existe isso desta maneira”, explicou.

Além disso, ressaltou, é preciso que exista indignação, tanto da corporação quanto da população. Para mudar a mentalidade dos agentes, Monteiro coordena um curso de treinamento e aprimoramento para policiais na Viva Rio, que desde 2008 já formou 2.500 agentes indicados pelos batalhões.

“Depois de estudar casos concretos, analisar a ação policial, abordar a ética policial, a prevenção à criminalidade, a mediação de conflitos, enfim, meter o dedo na ferida, a gente percebe que existe uma mudança de mentalidade”, afirmou.

E para mudar a mentalidade da sociedade? “A socidade pode ser mudada por campanhas educativas”, acredita o professor da UERJ. “Nunca se tentou um tipo de campanha educativa contra a corrupção. O fumo é um exemplo de que isso pode dar certo. Há dez, quinze anos todo mundo fumava em todos os lugares. Um misto de políticas restritivas e políticas de conscientização tornaram o fumo um fenômeno em regressão”, analisou.

Para Rodrigues, outra forma de coibir a propina é incrementar a investigação dentro das corporações e, ao mesmo tempo, valorizar e aumentar a autoestima do policial. “Se houvesse uma corregedoria mais ativa dentro da polícia, a prática seria coibida. Checar o padrão de vida do policial também é uma forma de fazer com que ele saiba que está sendo controlado”, disse.

Câmara aprovou piso salarial de policiais
A Câmara dos Deputados aprovou no primeiro semestre a criação de um piso salarial para policiais civis e militares e bombeiros. O valor ainda será definido em lei federal, e a proposta precisa ser votada em segundo turno pelos deputados. Mas, pelo texto, os agentes passariam a receber na forma de subsídio.

A lei criará e disciplinará o funcionamento de um fundo para ajudar os Estados a cumprirem o novo piso, definindo os recursos que serão destinados para o pagamento, e estipulará o prazo de duração desse fundo.

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