Em três anos e meio, Polícia Militar do Rio expulsou 767 agentes por má conduta

Daniel Milazzo
Especial para o UOL Notícias

No Rio de Janeiro

Dados da Polícia Militar do Rio de Janeiro revelam que desde 2007, 767 policiais foram expulsos da corporação por desvio de conduta. Apenas em 2009, foram 300 os militares desligados. Até 10 de junho deste ano, 48 foram punidos com a expulsão. Em 2007 e 2008, foram expulsos 201 e 218 servidores, respectivamente.

PM usa teatro contra desvio de conduta

De acordo com a assessoria de imprensa da PM, não existe um levantamento especificando as causas de cada expulsão. A assessoria alega não ser possível saber, por exemplo, quantos policiais foram banidos da PM por pedir suborno. “Cada caso é particular”, diz uma das assessoras.

Na semana passada, o comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte, declarou que não se descarta a possibilidade de expulsão dos dois policias militares acusados de pedir suborno para acobertar o atropelamento que causou a morte de Rafael Mascarenhas, 18, filho da atriz Cissa Guimarães.

“Quando temos que cortar na nossa própria carne, nós fazemos”, afirmou o coronel após reunião convocada com 41 comandantes da PM, último dia 22. Os PMs já prestaram depoimento na Corregedoria da PM e negam a propina. Eles estão presos.

Segundo o sociólogo José Augusto Rodrigues, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência, a corrupção no Rio deriva provavelmente da “ideologia da malandragem e do antioficialismo”.

“Existe propina de R$ 10. É difícil explicar isso só pela questão dos baixos salários pago aos policiais. É uma questão cultural. O policial se sente no direito de receber propina por qualquer coisa, e a sociedade, particularmente o segmento de mais alta renda, exige a corrupção policial para não ser punida”, avalia o pesquisador.

Já Fabiano Monteiro, sociólogo e coordenador da ONG Viva Rio, acredita que a baixa remuneração é uma das raízes do problema. “Policial mal pago é mais fácil de seduzir. E o tráfico tem um volume de dinheiro que é capaz de assediar os policiais e provocar a corrupção”, considera o sociólogo, lembrando que os policiais do Rio são os que recebem o segundo pior salário do país.

Formação deficiente
Diretor do Instituto Sou da Paz, Denis Mizne aponta deficiências na formação dos policiais como outra causa de posteriores desvios de conduta. “Estão treinando o policial para quê? Ainda tem muito pouca coisa focada na prevenção do crime. Todas as polícias dizem que o grosso do atendimento são pequenos conflitos, mas não há formação nesse sentido. Poucos aprendem a ser articuladores, mediadores, capazes de lidar com situações corriqueiras tensas que começam pequenas e acabam virando problemões”, diz.

Por outro lado, o comandante-geral da PM ressalva que o ensino e o ingresso de novos policiais à corporação estão em constante reformulação. “Nós tínhamos uma maneira de acesso, de ingresso, já há 50 anos, em que o policial fazia uma prova de português e matemática. Nós tiramos a matemática e agora estamos exigindo conhecimento na área de humanidades. O policial já tem que chegar com uma prontidão em sociologia, em antropologia, em história, em geografia. Entendemos que essas abstrações lógico-matemáticas não são aquelas que vão permitir as melhores inferências para quem trabalha no espaço social”, disse Mário Sérgio Duarte.

Mas o comandante-geral reconhece que o trabalho é falho. “Ocorre que o homem trabalha com aquilo que ele aprendeu na sua plasticidade, na sua hipótese de aprendizagem, mas ele também trabalha com suas pulsões, com suas idiossincrasias, que a gente tenta eliminar na formação e na educação. Mas nem sempre é possível. O exemplo, é o que a gente vê aí”, declarou.

Uma das ações postas em prática pela PM a partir deste ano foi a criação de um Programa de Prevenção do Desvio de Conduta. Ele existe desde abril e, desde então, é obrigatório para todos os servidores. O programa consiste na apresentação de uma peça de teatro sobre a corrupção policial e a exibição de vídeos nos quais ex-policiais arrependidos de sua má conduta dão seu depoimento.

*Com informações de Fabiana Uchinaka e Arthur Guimarães, do UOL Notícias, em São Paulo

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