Dez dias após ataques contra a Rota, polícia de SP não tem informação sobre criminosos

Arthur Guimarães
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Histórico

A sede da Rota (Rondas Tobias de Aguiar), espécie de tropa de elite da Polícia Militar paulista, no bairro da Luz, foi alvo de um atentado a tiros às 3h30 de domingo (1). O autor dos disparos foi morto a tiros por policiais. Menos de 17 horas antes, por volta das 11h de sábado, o chefe da corporação, o tenente-coronel Paulo Adriano Lopes Telhada, 48, escapou de outro atentado. Ele saía da garagem de sua casa, na região da Freguesia do Ó (zona norte de SP), quando o passageiro de um Corsa abriu o vidro do carro e disparou 11 vezes. Ele se abaixou e saiu ileso. Inicialmente, especulou-se que os ataques poderiam ter sido comandados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), mas as autoridades do Estado e até especialistas rechaçam tal afirmação.

Mais de dez dias após o registro de dois atentados contra a Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar, grupo de elite da Polícia Militar de São Paulo) –um contra o comandante do grupo e outro contra sua sede–, as autoridades paulistas não têm informações sobre os autores das ações.

Responsável por investigar a tentativa de homicídio contra o tenente-coronel Paulo Adriano Telhada, a delegada Ana Lúcia Junqueira, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), afirmou ontem “ainda não ter nada determinante” para desvendar o caso.

Segundo ela, que preferiu se pronunciar via Secretaria de Segurança Pública, ainda são esperados resultados de laudos e outras investigações para determinar o contexto dos ataques ao comandante.

Telhada prefere não falar em atraso nas investigações. Em entrevista ao UOL Notícias, ele afirma que as “coisas estão caminhando no tempo certo” e que “tem esperança que as coisas vão aparecer”. Segundo ele, seja em “uma semana, um mês ou um ano” os responsáveis serão encontrados e presos. “Temos que ter paciência. Estou tranquilo”, disse ele, que deve adiantar suas férias para as próximas semanas.

No comando-geral da PM igualmente não há clareza sobre a relação do atentado ao comandante, à sede da Rota e os incêndios criminosos registrados na periferia da capital.

“Não existe na investigação um ponto que diga que é determinada coisa”, assumiu ontem o coronel Marco Antônio Augusto, porta-voz da PM, que acompanha as apurações. Como ele explica na entrevista exclusiva a seguir, ainda há incerteza sobre as motivações dos episódios. Veja abaixo os principais trechos.

Atentado ou coincidência?
"Alguém que está saindo de sua casa no sábado cedo, em uma rua tranquila da Vila Penteado [na zona norte], sofre a ação de doze tiros. Esses doze tiros pegam do limpador de pára-brisa para baixo, em uma Pajero, que é um veículo portentoso, que tem um capô grande. Eu posso chamar isso de um atentado? Pode ser que não. Pode ter sido que foi uma ocorrência em que dois assaltantes estavam passando por aquela rua e viram alguém saindo com um carro que chamava atenção, de uma casa que se destaca na rua, com o portão totalmente fechado que, de repente, se abre."

A placa do carro dos atiradores
"Ele [Telhada] mesmo depois disse que não viu [a placa do veículo; inicialmente, o tenente-coronel afirmou ter anotado o número]. Acredito até que seja uma forma de persuasão, sendo comandante. Movido pela emoção, quis dizer aos criminosos que eles estavam identificados e que, por isso, deveriam ter medo. Mas ele mesmo assumiu posteriormente não ter visto."

Amadorismo
"Quem quisesse atentar contra a vida do comandante da Rota ficaria ali parado naquela rua em um sábado de manhã, com crianças na rua? Teria sido de uma imaturidade total. E quem atentou é totalmente inexperiente no uso de arma de fogo. Primeiro, que quem vai atentar contra a vida de uma autoridade desse porte não vai com uma pistola .40. Iria com algo muito mais sofisticado, mais pesado. Aí que a gente começa a descaracterizar o ataque para, hipoteticamente, o campo de uma ocorrência policial."

Motivações
"Pode ter sido um desafeto, desafeto dele. Ele deve ter inúmeros desafetos. Desafeto presente ou passado. Alguém que guardou ira, mágoa, bronca, e decidiu naquele sábado ir à forra. Descartamos essa hipótese? De forma alguma. Todas as hipóteses são estudadas. E o investigador, quem está nesse campo, tem que analisar todas as hipóteses. Também poderíamos dizer que foram dados tiros de advertência? Mas foram doze? Quem dá tiro de advertência na direção do advertido? (...) Estamos no caminho de retaliação? Estamos trabalhando também com a retaliação. Contra o comandante da Rota? Contra a unidade Rota? Sim, pela ação que a Rota vem fazendo ao longo do tempo. Pode ser."

Ataque ao quartel da Rota
"Se aquilo é um atentado, é uma brincadeira de mau gosto, que resultou em algo muito negativo para quem causou a brincadeira. Nós estamos também indo para o campo da investigação que foi de um amadorismo impressionante, quem fez aquilo lá. Ele [o irmão do atirador morto durante o ataque era ex-PM e foi ouvido no inquérito] falou que é um ex-sargento, chegou a terceiro sargento e pediu exoneração para ir atrás de uma colocação melhor. Ele é formado, tem ensino superior, não tinha contato com esse irmão [o atirador] há seis anos. Havia riscado o irmão da relação dele."

Veículos queimados
"Paralelamente a isso, houve uma série de veículos queimados. Eram carros velhos, alguns sem pneu, outros carcaças, e foi indo. No sábado (31), alguns. De domingo (1) para segunda (2), outros. Daí vem na terça-feira (3) um ônibus queimado em Santo André. Um ônibus onde um indivíduo manda os passageiros descer, manda o motorista descer, pega um combustível e toca fogo. Esse tem característica de ação de que um grupo criminoso. Então foi? Pode ser que sim, mas teria deflagrado outros. Se é que fosse uma ação orquestrada, não ficaria em um ônibus só. No dia seguinte, ele é preso, e são encontrados vários coquetéis molotov. Preso, ele diz que é da facção, mas não há ligação com isso que aconteceu. Depois disso, parou."

Investigações
"O campo da nossa investigação parte para três ocorrências distintas. Tiros contra a casa de um cidadão chamado Paulo Telhada, a ocorrência na Rota feita por um amador –que não se sabe se estava drogado, se fez aquilo porque achou que estava passando ali, não se sabe– e os carros queimados. É esse o caminho. Temos cada vez mais certeza que não foi uma ação do crime organizado. Tivemos três ocorrências distintas. E o que ratifica isso? O indulto do Dia dos Pais. Ficou aquela situação: o que vai acontecer? Foi um Dia dos Pais dos mais calmos, não tivemos problemas nenhum. Tivemos 17 ocorrências com indultados, mas previsíveis, como furtos, roubos. E todos foram presos."

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