Para contornar violência, IBGE usa recenseadores de áreas de risco no RJ

Daniel Milazzo

Especial para o UOL Notícias
No Rio de Janeiro

Para contornar deficiências de segurança pública em grandes cidades com áreas de risco no Estado do Rio de Janeiro – comumente controladas por traficantes ou facções criminosas – e realizar o trabalho, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) selecionou pessoas das próprias comunidades para a tarefa. O instituto divulgou nesta segunda-feira (16) o primeiro balanço parcial do Censo 2010.

Romualdo Rezende, chefe da unidade estadual fluminense do IBGE conta que o trabalho de cadastramento dos endereços nas comunidades e preparação para o recenseamento em áreas de risco começou em fevereiro deste ano. Ele diz ter havido a necessidade de contato prévio com representantes de certas comunidades, através de associações de moradores ou conselhos regionais, a fim de viabilizar a operação.

Nestas áreas os recenseadores não trabalham com nenhum tipo de proteção especial e, segundo Rezende, são as regiões onde as pessoas tendem a ser mais receptivas. “Claro, quando está havendo conflito entre a polícia e bandidos, ou entre facções rivais, o trabalho é interrompido e retomado noutro dia”, ressalva Rezende.

33 milhões já recenseados
Desde o dia 1º de agosto, o órgão já coletou informações em 16,5% dos domicílios brasileiros, recenseando 17% da população, isto é, mais de 33 milhões de brasileiros. Eduardo Pereira Nunes, presidente do IBGE, atribui a agilidade com que o trabalho está sendo feito ao treinamento feito com os recenseadores e à “mão-de-obra de excepcional qualidade”. A meta do instituto é coletar informações em mais de 58 milhões de domicílios em todos os 5.565 municípios brasileiros. O trabalho deve ser concluído até 31 de outubro. O Censo ocorre a cada 10 anos.

Até agora, o Estado onde a proporção de domicílios abrangidos é mais alta é Rondônia (28,2%), seguido de Sergipe (27,2%) e Ceará (25,5%). Os Estados que, por enquanto, possuem os índices mais baixos, isto é, onde o número de domicílios recenseados até 13 de agosto ainda não tinha alcançado 15% são: Distrito Federal (14,6%), Maranhão (13,5%), Acre (9,5%), Pará (13,8%), Santa Catarina (10,4%), São Paulo (11%), Pernambuco (11,8%) e Rio Grande do Sul (8,2%).

Falta de coletes

O Rio Grande do Sul é o único que não superou a meta nacional estipulada pelo IBGE de 9,1% domicílios visitados nas duas primeiras semanas de recenseamento. Nunes explica que houve um problema na entrega de coletes em alguns Estados, afetando principalmente o RS.

Uma empresa sediada em Londrina era a responsável pela confecção e distribuição de cerca de 250 mil coletes por todo o país. Como informa Maria Vilma Salles Garcia, da Coordenação Operacional de Censos, a empresa tinha de entregar todos os coletes até o início do mês de julho. Porém, em alguns Estados, o prazo não foi cumprido e o recenseamento foi iniciado no dia 1º de agosto com um déficit nacional de 40 mil coletes.

O presidente do IBGE admite que o atraso prejudicou o trabalho em alguns Estados, mas assegura que o problema já foi superado e que agora todos os 185 mil recenseadores estão devidamente identificados.

Também houve falta de coletes no Rio de Janeiro. Em parte, devido a um acidente com um dos caminhões durante o transporte do material, mas, sobretudo, porque uma parcela dos uniformes foi transportada para São Paulo, onde o déficit era maior.

Segundo Nunes, a operação em São Paulo também sofreu atrasos devido à falta de pessoal. Enquanto a média nacional da relação candidato/vaga no concurso organizado para a seleção dos recenseadores foi de sete, em SP ela esteve em torno de quatro. Em todo o país, 210 mil pessoas foram chamadas para treinamento. Alguns milhares desistiram, por motivos diversos, o que Nunes garante já ser esperado. O IBGE abriu novas vagas para mais 2.000 recenseadores, visando compensar as desistências. A maioria destes servirá para suprir a carência constatada em São Paulo.

Domicílios fechados
Para o presidente do IBGE, as principais dificuldades do Censo 2010 são: as grandes distâncias e os domicílios fechados. Por domicílio fechado, entende-se o local com evidência de morador – por exemplo, segundo informações de vizinhos – mas onde ninguém foi encontrado e domicílios cujos moradores se recusam a fornecer informações.

Nestes casos, o recenseador está instruído para explicar o que é o Censo e sua importância. Caso, ainda assim, haja resistência, um supervisor – a cada oito recenseadores existe um supervisor – dirige-se até o domicílio e tenta convencer a pessoa. Nos casos onde o morador não é encontrado, o recenseador possui a prerrogativa de retornar ao endereço à noite ou em finais de semana para fazer a coleta de informações. Nunes diz ainda não haver estatísticas sobre o número de domicílios fechados, mas que até a conclusão do Censo esta taxa deve ser muito pequena.

O outro lado da moeda são os condomínios de luxo. Geralmente, é nestes ambientes onde há maior resistência e onde os domicílios geralmente estão vazios durante o horário comercial. “Essa questão [entrada em condomínios de luxo] é sempre um desafio para todos os órgãos de estatística, não só no Brasil”, afirma Nunes. “Para a pessoa abastada que se recusa, aquelas informações não vão fazer falta. Mas ela tem que saber que elas vão fazer falta quando forem pensados programas de saneamento, de saúde, de educação”, salienta o presidente do IBGE.

Quartéis, presídios, moradores de rua
A meta do Censo 2010 é visitar os mais de 58 milhões de domicílios e abranger toda a população, embora não seja necessário entrevistar todos os cidadãos, como frisa o presidente do instituto. Quem responde por um domicílio está respondendo por todos que moram ali. Marco Antônio Alexandre, gerente técnico do censo demográfico, explica que aquelas pessoas sem um domicílio propriamente dito também são contempladas pelo Censo. As populações que moram em quartéis ou estão em presídios, por exemplo, respondem igualmente às questões.

Alexandre esclarece que o recenseamento de moradores de rua é uma questão delicada. Segundo o gerente técnico, há o risco do duplo recenseamento, já que existem pessoas que passam a semana dormindo na rua, mas voltam para casa aos finais de semana, além dos que mudam frequentemente de localização. Já aqueles moradores de rua que possuem um itinerário fixo, estes serão entrevistados. Alexandre admite, no entanto, haver uma margem de desabrigados que provavelmente não serão contemplados.

Comunidades indígenas
Nunes esclarece que o IBGE conta com o apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para realizar o trabalho junto às comunidades indígenas. Além do empecilho do deslocamento, os órgãos federais colaboram no que diz respeito ao contato com as tribos, bem como na tradução das informações.

Para o Censo 2010, o Brasil foi dividido em 314 mil setores. Cada tribo – assim como presídios e quartéis, por exemplo – representa um setor. De acordo com o presidente do IBGE, 134 mil já estão com dados em coleta e 5.742 já tiveram o trabalho concluído. Até esta segunda-feira, pelo menos 1.700 questionários já foram preenchidos totalmente pela internet. A partir de 29 de agosto, a coleta por cada município poderá ser monitorada através do site do instituto.

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