Sem barracas, baianos usam "kit básico" para ir às praias

Especial para o UOL Notícias

Em Salvador

No primeiro final de semana sem barracas, poucos baianos e turistas aproveitaram o calor de 31º para tomar banho e praticar esportes nos 51 km da orla de Salvador. Quem foi à praia neste sábado (28) encontrou restos de entulho e teve que transportar um “kit básico” para sobreviver sem o conforto proporcionado pelas barracas: cadeira, sombreiro, caixa de isopor com bebidas, lanches, gelo e até papel higiênico.

“Nunca frequentei uma praia tão tranquila e vazia”, disse a estudante universitária Luciene Alves da Silva, 22. Acompanhada do namorado, a estudante chegou à praia de Patamares, uma das mais frequentadas de Salvador, por volta das 9h deste sábado, com oito cervejas, dois litros de água mineral, lanche e duas cadeiras.

Por determinação da Justiça Federal, 349 barracas de praia da capital baiana foram demolidas, com exceção de 63 localizadas entre Salvador e Lauro de Freitas (região metropolitana), que tiveram a derrubada suspensa pelo TRF (Tribunal Regional Federal).

A determinação para derrubar os empreendimentos partiu do juiz Carlos D’Ávila, da 13ª Vara da Justiça Federal. De acordo com ele, as barracas foram construídas ilegalmente porque ocupavam uma faixa de areia que pertence à União. Segundo a Associação dos Barraqueiros, a ação deixou 3.000 pessoas desempregadas.

O economista Sílvio Araújo, 36, classificou como “desolador” o cenário das praias que tiveram as barracas demolidas. “É uma vergonha uma cidade turística como Salvador ter tanto entulho e resto de material de construção na praia. A prefeitura deveria ser mais ágil e nos trabalhos de limpeza.”

Acostumado a jogar futebol com os colegas de trabalho todos os sábados na praia de Itapuã, Araújo recorreu aos vendedores ambulantes para comprar água e cerveja. “Antes (da demolição) tudo era mais fácil. Mesmo com a precariedade de algumas barracas, havia conforto. Agora é bem diferente.” Sem as barracas, os ambulantes aproveitaram para aumentar o seu faturamento.

Em sua primeira visita a Salvador, a turista alagoana Roberta Matos, 26, lamentou o abandono das praias. “Jamais poderia imaginar que as praias de Salvador estivessem tão sujas. Isso depõe contra a vocação turística da cidade.”

Neste sábado, entre as praias da Boca do Rio e Itapuã, cerca de 30 ambulantes permaneceram nos calçadões atender os banhistas. “Somente pela manhã vendi pelo menos 60 cervejas”, disse André Santana, 25. Ao perceber que o estoque estava acabando, Santana pediu para um amigo comprar mais cervejas. “O meu lucro na venda de qualquer bebida é de 100%. Para mim, praia sem barraca é um excelente negócio.”

Para amenizar o prejuízo dos barraqueiros, o prefeito João Henrique Carneiro (PMDB) disse que, enquanto o projeto definitivo da nova orla de Salvador não for aprovado, os comerciantes poderão utilizar estruturas provisórias de tendas em alumínio, kit de isopor, cadeiras flexíveis e sombreiros. A Secretaria Municipal de Serviços Públicos informou que vai instalar banheiros químicos para atender os frequentadores das estruturas alternativas.

O advogado da Associação dos Barraqueiros, João Maia Filho, disse que as propostas da prefeitura são insuficientes. “Os proprietários das grandes barracas chegavam a faturar, em média, R$ 30 mil por mês, enquanto os donos dos estabelecimentos menores ganhavam aproximadamente R$ 3 mil. Ao aceitar passivamente a derrubada das barracas, a prefeitura cometeu um crime”, afirmou.
 

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