Fotógrafos em situação de rua em São Paulo expõem arte para a elite

Breno Castro Alves

Especial para o UOL Notícias
Em São Paulo

Famosa por suas lojas caríssimas e público abastado, a rua Oscar Freire acaba de inaugurar um espaço para expor contradição social. O espaço da loja Op Art recebeu nesta segunda-feira (18) a primeira exposição do projeto Trecho 2.8, apresentando 50 fotografias de arte de dez cidadãos em situação de rua, moradores do centro de São Paulo. As imagens ficarão por ali até o próximo dia 23 de outubro, em exposição preparatória para o leilão que acontecerá dois dias depois disso na ainda mais pomposa Villa Daslu. Ambas terão portas abertas e entrada franca.

As 50 fotos foram produzidas ao longo dos últimos cinco meses. Foram utilizadas câmeras semiprofissionais digitais.

Primeira iniciativa do Instituto Brasis, o Trecho 2.8 propõe construir deslocamentos sociais. O grupo inicia conta com dez pessoas em situação de rua que demonstraram o interesse de aguçar o olhar para buscar o novo em uma realidade saturada. Os coordenadores entrevistaram cerca de 20 possíveis candidatos, sem revelar que os participantes ganhariam também uma bolsa de meio salário mínimo. Buscavam formar um grupo pequeno, reunindo pessoas com genuíno interesse por desenvolver subjetividade e arte.

Selecionaram 11 -apenas uma participante desistiu. Os encontros do Trecho reúnem fotógrafos, os dois coordenadores do projeto e dois diretores do Brasis. O número reduzido permitiu um aprofundamento da experiência individual em um grupo onde, nos últimos cinco meses, se discutiu e exercitou fotografia. Os fotógrafos lidaram com seu extremo oposto na pirâmide social. Os dez participantes foram os convidados de honra da abertura da exposição ontem à noite e estarão também na abertura do evento na Villa Daslu.

O Brasis foi criado pelo empresário Marcos Amaro, instigado a promover ações para diminuir a desigualdade social e expor contradições dentro da elite. O jovem de 26 anos tem a consciência de quão necessário é questionar e apontar as contradições das elites. Assim, o Brasis propõe pensar um trabalho de educação e formação não apenas para as populações mais pobres. Todos precisam de educação social e responsabilidades, principalmente os mais ricos.

O milionário está nu
Estudar filosofia abriu caminhos e a cabeça de Marcos. Começou aos 23. Até ali, o jovem havia se dedicado exclusivamente a multiplicar uma herança milionária. Hoje, tem 26 anos, participação em várias empresas e algumas dezenas de milhões de reais. Fundou o instituto para lidar com contradições instigadas por estudar pensadores como Platão, Kant e Freud com seu professor, Donizete Soares. Hoje, se apropria de Marx para pensar uma visão de mundo: “Sou consciente de que meu patrimônio é fruto da desigualdade social e aí vejo uma responsabilidade. O capital é uma ferramenta, quase sempre usada para gerar mais capital. Eu estou tentando entender como usar ele para criar cidadania ”.

Marcos tem fala pausada e dicção perfeita, age com cordialidade sincera. Há três anos reuniu amigos inquietos – e milionários – para formar um grupo de estudos. Buscando novas visões para entender seu lugar no mundo, foram atrás de filósofos e de si mesmos. As contradições do grupo afloraram e há um ano surgiu o Brasis, instituto que propõe uma troca de visões entre os extremos da pirâmide social. Villa Daslu não é exatamente o cenário da vida de um sem teto.

Assim, buscam brechas de conscientização. Propõem à elite o financiamento de um instituto em aberto que, por princípio, busca contato. O Brasis tem 35 mantenedores que contribuem mensalmente com dinheiro não deduzível de imposto. Talvez alguns deles estejam expiando suas consciências, mas Marcos não está. “Não carrego culpa, não é um pecado ter dinheiro, sinto mais como responsabilidade. Não é alívio de consciência, é projeto de vida. Devo passar 70% do meu tempo trabalhando para o Brasis. Nessas pessoas encontrei as coordenadas de onde me posicionar no mundo”, conclui.

Instituto Brasis: estudos e ações
O Trecho 2.8 é realizado em parceria com o Instituto GENS, responsável pela formulação e execução do projeto. “Entendemos nosso trabalho junto ao Brasis como a possibilidade de colaborar para que um grupo de jovens empresários repensem seu papel social”, avalia Grácia Lopes Lima, fundadora do GENS, junto a Edson Fragoaz, uma das coordenadoras do Trecho 2.8.

A professora - “educadora não, porque educar é responsabilidade de todo adulto” - está satisfeita com o modelo de co-gestão que o grupo vem construindo. Não existe imposição de um modelo ou caminho, não é um projeto social formatado como a solução para pobres coitados. As discussões estratégicas são coletivas, todos os participantes, de coordenadores a fotógrafos, têm voz sobre como lidar com aquela construção. O grupo, que se reunia duas vezes por semana para discutir fotografia, decidiu também se encontrar a cada 15 dias para estruturar coletivamente a próxima ação do Brasis.

Diz Grácia: “Estamos formando um grupo para pensar ações coletivamente, para sair do movimento de promover projetos em benefício daqueles que não têm. Estes rapazes estão interessados também em entender o contexto social que, se por um lado gerou seu patrimônio, por outro privou multidões dele. Por isso o subtítulo do instituto me agrada: estudos e ações. O mais desafiador é manter a coerência”.

Artistas em situação de rua
Tião Nicomedes é negro de barba grossa, corpo largo e cabeça boa. Sentado no chão de pedra do vale do Anhangabaú, centro de São Paulo, relembra seus tempos de albergue: “Rapaz, aquilo lá é muito aborrecimento, se for ligar para tudo o cara paralisa. Tinha época em que eu quase não trocava de roupa, não tinha motivação pra pensar esses detalhes”. Viveu quatro anos na rede de assistência e se pudesse teria saído no primeiro mês.

Ali, porém, encontrou a arte. Começou a escrever para criar outro mundo onde viver, um mundo onde as coisas são certas e o sujeito não precisa ficar ouvindo besteira de assistente social. “Pegar o barro ou a caneta e fazer algo bacana, o cara se sente útil, repensa sua vida, não é?”. Assim, quando surgiu a proposta de trabalhar fotografia com o Trecho 2.8, agarrou a possibilidade de aprender nova linguagem.

“O Trecho é um dos poucos projetos onde não nos tratam como idiotas carentes”, avalia. “Ali todo mundo opina, todo mundo decide junto. Tanto que nem chama oficina, é um projeto de criação e pesquisa. Trazer um negócio pronto e implantar sem nem perguntar se as pessoas querem aquilo tem de monte, meu irmão, você precisa ver quantos diplomas o camarada junta em um ano de albergue. Eu tenho mais de trinta: “tá aqui, Tião, pega seu papel e leva esse abraço”. Pra quê?”.

Sem caridade, trabalho
Tião e os outros nove participantes do projeto – que infelizmente não puderam ser ouvidos pela reportagem – prestarão serviços de fotografia à Caititi, empresa com fins lucrativos que está sendo criada pelo Brasis para gerar renda. Diferente de uma empresa comercial, não vai aumentar o capital de um dono. Descontadas todas as despesas, o lucro ficará entre os participantes. Oferecerão serviços de fotografia artística e comercial e já fecharam seu primeiro contrato com uma empresa de moda. A decisão de criar a Caititi e suas características vem sendo definidas uma a uma por todos os participantes do projeto, milionários e miseráveis, com a mesma voz.

Não há benevolência no processo. Não há a necessidade de realizar caridade, todos estão ali por interesse individual. É trabalho e todos ganham com o processo. Marcos entende o potencial de explorar um nicho novo de oportunidade e começa a desencadear um movimento de responsabilidade baseado em envolvimento individual.

Mas a mudança profunda vem com os participantes. Todos se beneficiam da possibilidade de se reinventarem criativos, de se construírem autônomos. Treinar o olhar sobre a outra ponta da pirâmide social pode ensinar sobre seu lugar no mundo.

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