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Moradora diz preferir os bandidos e afirma que "a favela vai ficar chata" após ação no Alemão

Crianças brincam em piscina da casa encontrada pelos policiais no Complexo do Alemão - Marcelo de Jesus/UOL
Crianças brincam em piscina da casa encontrada pelos policiais no Complexo do Alemão Imagem: Marcelo de Jesus/UOL

Daniel Milazzo

Especial para o UOL Notícias<br>No Rio de Janeiro

28/11/2010 17h11

Moradores tentavam retomar a rotina e mostravam ceticismo em relação ao futuro do Complexo do Alemão após a operação policial deste domingo (28).

Do alto de sua janela, a jovem Cristina Teixeira, 19, observa toda a movimentação de policiais e jornalistas. "Não mudou nada. A única diferença foram esses tanques, mas nem deu medo", comenta. "A favela vai ficar chata. Era melhor com os bandidos, porque eles não mexiam com a gente", conta a moradora, nascida e criada no Complexo do Alemão. Ela é contra a pacificação.

No principal acesso ao Complexo do Alemão, o rastro de entulho, grande quantidade de lixo acumulado na via de terra batida e o cheiro de carniça dão mostra do que a comunidade está vivendo. As galerias pluviais são como veias abertas na rua Joaquim Queiróz e vigas retorcidas saem do concreto como espinhos no asfalto destruído.

Três moradores, que pediram anonimato, mostram-se reticentes sobre o futuro do Complexo do Alemão e a promessa de paz. "Eu acompanhei pela TV", conta a moradora, já sentada na cadeira de praia junto à calçada. Dois vizinhos tentavam engatar uma conversa sobre amenidades, mas não conseguiram.

Alguns metros adiante, um comerciante verifica se o portão de ferro de sua loja de roupas está bem trancada. Indagado sobre a operação de pacificação, ele responde rápido, seco, sem dar impressão de querer conversa. "A gente tem que achar bom, né?"

Palácio do Polegar

Nesta operação contra a bandidagem no Complexo do Alemão, a polícia descobriu um verdadeiro palácio no meio do labirinto de becos e escadarias da favela da Grota. Um triplex que pertencia ao traficante conhecido como Polegar, um dos chefes do narcotráfico no complexo, preso pela polícia.

A casa tinha poucos móveis, mas sobrava luxo. O ar condicionado ainda estava ligado e a cozinha estava impregnado com o cheiro de abacaxi fresco após a investida da polícia. Eletrodomésticos de última geração, TV de plasma, banheiro com blindex e uma suíte com banheira de hidromassagem contrastavam com louças quebradas e cacos de vidro espalhados pelo chão. No último andar, havia uma piscina onde algumas crianças aproveitavam para se refrescar. "Tá boa a água?" "Tá! Vem!", responde uma das crianças, que não esconde o sorriso.

Dali é possível ver toda a favela e o teleférico no alto do lago do Coqueiro, onde agora tremulam as bandeiras do Brasil e do estado do Rio de Janeiro.

Cotidiano