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Alemão quer recuperar o sossego nos finais de semana com o fim dos bailes "proibidões"

"Praça" de concreto onde eram realizados bailes funk no Complexo do Alemão, hoje vazia - Ricardo Leal/UOL
"Praça" de concreto onde eram realizados bailes funk no Complexo do Alemão, hoje vazia Imagem: Ricardo Leal/UOL

Arthur Guimarães<br>Enviado especial do UOL Notícias

No Rio de Janeiro

30/11/2010 15h07

A expectativa pelo próximo final de semana é grande para a manicure M. S., 35 anos. “Faz anos que não durmo de sábado para domingo”, explica a vizinha da chamada Praça da Vivi, no topo máximo da Comunidade do Alvorada, grotão que servia de reduto para o alto escalão do tráfico do Comando Vermelho (CV) no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro.


Escolhido como refúgio dos criminosos por estar em área de acesso complicado e por oferecer vista privilegiada da região, o descampado de chão de concreto e cercado por comércios e sobrados de dois andares costumava sofrer uma superprodução todos os sábados à tarde.

“Vinham (os organizadores) trazer as caixas de som de caminhonete. Descarregavam o dia inteiro”, conta ela. Ao entardecer, estava tudo preparado para um dos mais badalados bailes funks do complexo: o baile da Vivi.

Eram três “equipes” todos os sábados, nome dado aos paredões de caixas de som que são comandados por DJ’s, mestres de cerimônia (MC’s) e dançarinas. Como é praxe nessas festas, cada “equipe” “dá o som” de uma vez, alternando para ver quem anima mais o público.

O baile seria apenas uma manifestação cultural do gueto se não fosse um detalhe: quem mandava ali era o tráfico. Vigiando a festa, estavam sempre circulando os apelidados “contenção”, homens recrutados pelo crime para fazer a segurança das bocas de fumo. “Andavam só de fuzil,. Tinham mais de cem toda noite. Era só bandidagem”, conta a doméstica J.H.P, 40 anos, outra vizinha da badalação.

Como apontaram os relatos ouvidos pelo UOL Notícias, o consumo e venda de entorpecentes varavam a madrugada e aconteciam livremente. “Tinha pó, pedra, maconha. Ficava todo mundo muito louco, 'cheiradão'”, disse uma moça que mora de frente para a outrora pista de dança.

A festa durava muitas vezes até o amanhecer. Com tantas caixas de som, o “baixo” da música fazia tremer os barracos erguidos de forma precária. “A minha casa, que está reformando, vibrava inteira a noite toda. Era muito alto. Parecia que ia desmoronar. E ninguém era nem louco de ir lá reclamar”,  admitiu a faxineira F.R.G, 37 anos, que trabalha em Ipanema.

Sempre esgotada para trabalhar aos domingos depois de noites insones, ela foi obrigada a tomar uma atitude. “Depois de um tempo, não aguentei mais. Tenho filha pequena. Todo final de semana ia para casa da minha prima do outro lado da cidade. Dormia lá e voltava domingo à tarde, depois do serviço”, admitiu.

Camisinha na laje

Quando o baile chegava ao fim, os problemas não cessavam. “Era a hora do namoro. Os becos ficavam lotados de gente fazendo sexo. Isso aqui parecia motel”, lembra outro moradora, que não quis se identificar.

“Outro dia subi na minha laje e tava cheio de camisinha”, afirmou. Questionada se não ouvia as pessoas pulando seu portão para conter as invasões, sorriu:  “E com aquele barulho do inferno alguém escuta alguma coisa?” No próximo final de semana, ela já sabe qual vai ser seu programa de sábado à noite: “Dormir, meu filho, dormir!”

Cotidiano