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Moradores do Alemão relatam arrombamentos de casas vazias, revistas repetidas e humilhação

Moradores mostram televisões que, segundo eles, foram destruídas durante ação policial truculenta no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro - Apu Gomes/Folhapress
Moradores mostram televisões que, segundo eles, foram destruídas durante ação policial truculenta no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro Imagem: Apu Gomes/Folhapress

Arthur Guimarães*

Enviado especial do UOL Notícias<br>No Rio de Janeiro

01/12/2010 13h00

Apesar dos aplausos recebidos pelas forças oficiais nos primeiros momentos da invasão do Complexo do Alemão no domingo (28), começaram a pipocar no começo desta semana relatos de pessoas que supostamente passaram por abusos cometidos pelos policiais que vasculham os barracos atrás de drogas, traficantes e armas. A corregedoria da Polícia Militar registrou até a noite de terça (30) 14 denúncias de abusos de policiais.

A reclamação mais frequente ouvida dos moradores é sobre a entrada de policiais em casas vazias. Desde o início das movimentações para a retomada dos morros da mão do Comando Vermelho, muitos habitantes da região se mudaram para casas de conhecidos ou parentes em outros bairros.

Dessa forma, quando os policiais suspeitam de determinado imóvel e não encontram ninguém para autorizar a entrada, arrombam o local. "A casa da minha vizinha está lá agora aberta. E se alguém rouba alguma coisa? Abriram tudo e deixaram assim mesmo", dizia ontem (30) a desempregada H.T.G. (a reportagem usa iniciais para preservar a identidade dos moradores), 33, em uma das entradas da comunidade do Alvorada.

 

Outra crítica dos moradores é sobre a suposta falta de comunicação entre as equipes que fazem as buscas. "De domingo até agora, entraram na minha casa seis vezes. Cada hora é uma equipe diferente", disse a aposentada M.T.Z, moradora da Fazendinha, outra favela ocupada pela polícia.

Segundo ela, não adianta avisar que a casa já foi revistada. "Eles não acreditam. Até entendo eles desconfiarem de todo mundo, mas chegou no limite. Não consigo ir ali no mercado. Sei que eles vão voltar e quero ficar aqui para não quebrarem minha porta", contou, apontando uma venda de alimentos mais adiante na rua.

O caso mais marcante relatado à reportagem do UOL Notícias foi o de I. S, 57 anos, dona de um pequeno estabelecimento de venda de água em galões e botijões de gás no Alvorada. Aos prantos, tremendo enquanto falava, ela reclamava na terça-feira (30) que policiais tinham acabado de a humilhar dentro da igreja que frequenta. Segundo ela, o eixo da discórdia foram cerca de R$ 1 .000 encontrados na pochete que carregava na mão. "Eles gritavam: ‘é dinheiro do tráfico, é dinheiro do tráfico’", disse ela. Pelo seu relato, ela contou que os policiais chegaram até a jogar água em seu cabelo para ela se acalmar.

Ela contou que os policiais teriam revirado todos os cômodos da pequena igreja, inclusive quebrando portas. "Eu só gritava: ‘me mata então, me mata que sou da igreja e meu lugar está guardado no céu’. Sou de família, sou honesta, não consigo suportar alguém me chamando de traficante", gritava, de dentro de sua loja, amparada pelo filho e por conhecidos.

Se recusando a tirar fotos, ela explicou que estava com o dinheiro na pochete porque , no mesmo dia, seu marido havia acabado de encher um caminhão com galões de água "no asfalto". "A comunidade inteira está sem água. Então ele nem conseguiu subir com o caminhão até aqui. Vendeu tudo no caminho. As pessoas iam pedindo", diz ela, que afirmou que outra parte da quantia era de suas economias.

Outro lado

O governador Sérgio Cabral (PMDB) declarou ontem que eventuais desvios de conduta de policiais durante a ocupação das comunidades Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão serão repreendidos. Moradores do Alemão relataram violência de policiais na operação alguns afirmaram que televisões foram quebradas e casas, assaltadas.

 "Vamos punir rigorosamente qualquer policial que se afaste da prática correta que a população está tanto louvando. Essa tem sido a conduta esmagadora da polícia. Aquele infeliz que não proceder assim, não vai manchar esses heróis que estão trabalhando com tanta dedicação", declarou Cabral. O governador afirmou que abusos não serão admitidos.

Para receber denúncias de moradores a Polícia Militar do Rio de Janeiro instalou uma ouvidoria no 16º Batalhão de Olaria, bairro vizinho das favelas ocupadas pelas forças de segurança pública.

*Com informações de Daniel Milazzo e da Agência Brasil

 

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