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UOL refaz rota de fuga de bandidos da Vila Cruzeiro dentro de blindado da Marinha

Cerca de nove jornalistas "passearam" no carro blindado da Marinha no Rio de Janeiro -  Pedro Teixeira/Futura Press
Cerca de nove jornalistas "passearam" no carro blindado da Marinha no Rio de Janeiro Imagem: Pedro Teixeira/Futura Press

Daniel Milazzo<br>Especial para o UOL Notícias

No Rio de Janeiro

01/12/2010 11h35

"Todos de capacete?" A pergunta ecoa quase em tom de comando. Para embarcar em um dos blindados da Marinha que contribuiu para mudar a história do combate ao narcotráfico no Rio de Janeiro, os jornalistas já não precisam de coletes à prova de balas, confiando que o controle foi restabelecido pelo Estado. Basta proteger a cabeça... contra galhos e cinegrafistas desajeitados.
 
O Carro Lagarto Anfíbio (CLANF) parte da frente do 16º BPM (Olaria), à Rua Paranapanema, e vai sacolejando de teto aberto por um dos acessos da Vila Cruzeiro. No chamado "asfalto", muitos lançam olhares curiosos e alguns acenam sorrindo. À medida em que avança pela favela, o blindado de 26,4 toneladas continua sendo o foco de olhos atentos, mas o semblante é outro. Os moradores da Vila Cruzeiro parecem anestesiados.
 
Em frente ao batalhão da PM, o CLANF é motivo de alegria e alvo de uma saraivada de flashes. Nas comunidades, onde foi recebido a tiros de fuzis 556 e 762, ele ainda gera medo. Um pastor da Assembleia de Deus foi o único a ensaiar uma comedida saudação.
 
Sem exagero, é possível dizer que o clima dentro do blindado da Marinha é de passeio. Poucos dias após a invasão do Complexo do Alemão, não há tensão nenhuma no ar. O veículo de fabricação norte-americana projetado para transportar até 24 homens do alto-mar à terra carrega agora oito ou nove jornalistas. Até o relações públicas da Polícia Militar, Coronel Lima Castro, está mais descontraído após jornadas de extrema tensão.
 
Para ele, não seria má ideia se a polícia dispusesse de um blindado desse. "Imagina ele todo pintadinho de preto", sugere. Cada CLANF custa em torno de US$ 4 milhões. "É caro, mas segurança não tem preço", argumenta. Mesmo a este valor, o anfíbio não possui ar-condicionado. Soldados dizem que a temperatura beira os 50 ºC quando todas as portas estão fechadas. A útil informação não impede jornalistas de suarem em bicas apesar da "capota" escancarada.
 
O percurso repete a rota dos bandidos que fugiram da ocupação na Vila Cruzeiro, na última quinta-feira (25), e buscaram refúgio no Complexo do Alemão. A maior parte do caminho é de terra batida. A estrada possui pontos íngremes e corta o meio da vegetação. Ainda é possível observar casamatas preparadas pelos criminosos. À medida que se avança rumo ao topo, a vista torna-se cada vez mais ampla. De pronto, percebe-se o poder estratégico que os criminosos detinham sobre o território dos complexos do Alemão e da Penha.

Morro acima

O blindado chega finalmente ao cume do morro, num local conhecido como Pedra do Sapo. Aconteceu ali a execução do jornalista Tim Lopes, que estava infiltrado no Alemão preparando uma reportagem sobre a exploração sexual infantil nos bailes da favela. Ele foi morto em 2002. Também foi deste ponto que, anos atrás, bandidos conseguiram atingir um policial que estava dentro do 16o BPM. Para se ter uma ideia, da Pedra do Sapo é possível observar, além das inúmeras comunidades e bairros do entorno, o estádio do Engenhão, o Aeroporto Internacional Tom Jobim, a Linha Vermelha, a Baía de Guanabara. A vista seria digna de ponto turístico, não fosse até a semana passada uma área controlada por bandidos.
 
Para descer do CLANF, o único cuidado agora é não escorregar no óleo que esparrama pela rampa de saída do blindado. No cume e por todo o trajeto até lá, vários policiais estão de guarda. Um atirador de elite do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope) olha ao longe. Seu ofício é mirar a quilômetros de distância. O sniper que está há nove anos no Bope e interrompeu sua licença para participar da tomada do Alemão confessa que estava pronto para uma verdadeira guerra. A fuga de muitos traficantes o frustrou. "Esperávamos esse dia como se fosse a final da Copa do Mundo. Ganhamos, mas foi de W.O.".

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