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Em meio a boato sobre saques, moradores de Nova Friburgo (RJ) enfrentam desabastecimento

Fabiana Uchinaka

Enviada especial do UOL Notícias<br>Em Nova Friburgo (RJ)

14/01/2011 18h32

O clima em Nova Friburgo, cidade atingida pelas enchentes na região serrana do Rio de Janeiro, é de muita apreensão. Ao mesmo tempo em que tentam se recuperar do caos provocado pela lama, que invadiu violentamente a cidade causando ao menos 240 mortes, os moradores precisam lidar com o medo de assaltos e arrastões, boatos sobre invasões de delegacia e falsos alarmes sobre o rompimento de represas.

Carros do Exército estão por todos os lados, fuzileiros navais desviam o trânsito e policiais rondam as ruas, abarrotadas de carros e motos. A população dá sinais claros de tensão e abatimento. “Perdi mais de cem amigos. Alunos e amigos de infância. Está um caos”, conta o professor de jiu-jitsu Fábio Moraes, 33.

Segundo o morador, a cidade foi destruída, o comércio ainda não voltou a funcionar e, somente agora, a população começa a sair de casa para comprar mantimentos, água e tentar conseguir combustível. “O pessoal enche o tanque com medo de acabar e não sobra nem para os carros de resgate”, diz.

Filas e tumultos

Nos postos de gasolina, nos bairros mais afastados do centro, as filas de carro são enormes. Um funcionário do bairro Ypu conta que os donos do estabelecimento aumentaram o preço do combustível em R$ 0,10 por conta dos gastos com o frete. “Precisou vir lá do Rio de Janeiro”, disse. Boatos dão conta, no entanto, de que o litro da gasolina chega a custar R$ 4 em alguns postos.

Nos supermercados que ousaram abrir as portas nesta sexta-feira (14), quando a energia elétrica voltou, a situação era parecida. As filas contornavam o quarteirão. Seguranças controlavam a entrada dos clientes para evitar tumultos. Em alguns lugares, a espera era de mais de meia hora.

“O pessoal tenta fazer tumulto para poder assaltar. Dá vontade de fechar tudo e ir embora, mas temos que atender a população. Aluguei um gerador para poder voltar a funcionar, mas não sei até quando os estoques vão durar. Não tem fornecedor”, afirma Renato Jandre, dono de um supermercado do bairro do Muri. “Está acabando o leite, carne e água. Perdemos muita coisa por causa da falta de energia. Calculo que o prejuízo vai ser de mais de R$ 200 mil”, acrescenta Manuel Passos, dono de um açougue no centro, onde a água passou de um metro e deixou um rastro de lama.

Na loja em frente, o comerciante Jorge Luiz da Silva era visto sentado à beira da calçada limpando os produtos cobertos de barro em um balde. “Perdi muita coisa, mas nada, se comparado aos amigos que morreram”, afirmou. Dono de um pequeno comércio há 38 anos, ele diz que nunca imaginou uma tragédia como essa. “Já teve enchente, mas nunca vi uma coisa assim, nem na televisão. A vida mudou completamente desde então”, disse.

“Está uma loucura. Ainda está abastecido, mas é uma corrida”, contou Suzane Kemnsier, 39, dona de uma fábrica de móveis, que fazia compras na cidade. Segundo ela, quando a luz foi cortada, o estoque de velas acabou. Agora, a busca é por água potável que está em falta desde segunda-feira.

As caminhonetes que transportavam garrafas de água, atualmente o produto mais precioso da cidade, precisaram ser escoltadas pelas ruas do centro. Houve relatos sobre tentativas de assaltos aos supermercados e aos caminhões que trazem doações. As comparações com os cenários vistos após os terremotos do Chile e do Haiti são constantes. Os relatos de mortes, pessoas isoladas e casas destruídas também podem ser ouvidos a cada esquina.

“Estávamos isolados até meia hora atrás e continuamos sem luz. Só agora conseguiram liberar a estrada do Lumiá. Foi uma desgraça, uma barreira caiu atrás da minha casa, mas, graças a Deus, ninguém se feriu. Mesmo assim, muita gente morreu ali. Já tiraram sete corpos por cima da barreira, e deve ter mais gente lá”, afirma a aposentada Fátima Maquette, 50, que se dirigia ao centro para comprar comida e carregar o celular.

Prefeitura desmente boatos

O secretário de Comunicação de Nova Friburgo, David Massena, reforçou que todos os boatos que surgiram são falsos. “Nem saque, nem represa, nem delegacia. Nada disso, é tudo boato. É uma tragédia generalizada que atingiu desde a casa da favela à mansão. Isso gera uma inquietação”, afirmou.

A prefeitura também informou que está distribuindo água em diferentes pontos da cidade -nas igrejas, localidades mais isoladas, abrigos-, mas ainda não sabe calcular o volume de produtos recebidos em doações e repassados à população.

Já a concessionária Águas de Nova Friburgo informou que o abastecimento de 50% da cidade deve voltar ainda hoje. A empresa prevê para este sábado (15) o retorno da operação da Estação Bela Vista, o que representará a retomada de 65% do fornecimento de água no município.

Ainda conforme a concessionária, o problema não será totalmente solucionado porque a Estação de Rio Grande de Cima, a maior do sistema, foi seriamente danificada, e o acesso ao local é feito por helicóptero, único meio viável.

Todos os hospitais, incluindo os de campanha, estão sendo abastecidos por rede ou por carros-pipa. O mesmo acontece com as creches e os abrigos montados pela prefeitura.

Cidades com registro de mortes por conta da chuva

Cotidiano