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Área rural de Teresópolis (RJ) enfrenta abandono após tragédia

Vladimir Platonow<br>Da Agência Brasil<br>Em Teresópolis (RJ)

15/01/2011 12h42

 

O sofrimento dos moradores de bairros mais afastados do centro de Teresópolis, como Vieira e Bonsucesso, passa praticamente despercebido das autoridades até o momento. Enquanto a área urbana da cidade recebe um grande volume de recursos – pessoal, veículos de apoio e até helicópteros, a zona rural sofre com abandono.

Na localidade de Vieira, a 35 quilômetros do centro, são os próprios moradores que estão limpando a lama que invadiu a pista da RJ-130, obstruída por mais de 20 quedas de barreiras. Eles também ajudam uns aos outros a carregar os poucos móveis e objetos que escaparam da fúria do riacho, que de uma hora para outra se transformou em um rio caudaloso e barrento.

A imagem na localidade é de destruição por toda parte, com pontes derrubadas e dezenas de casas em ruínas. Vieira está há três dias sem energia elétrica e sem qualquer tipo de telefonia. Não há qualquer comunicação com a sede do município. O atendimento à população é feito na Igreja Santa Luzia, onde os desabrigados recebem roupas, alimentos e atendimento médico.

A aposentada Carolina da Silva, 73 anos, chegou ao local com pressão alta, ainda em consequência do terror que enfrentou na madrugada de quarta-feira (12). A água invadiu sua casa e, para não morrer, ela se agarrou, com o filho, em uma viga da varanda. “Quando dava um relâmpago, via os corpos passando rio abaixo”, lembrou Carolina.

O jovem Danilo de Oliveira Lourenço, 13 anos, também teve a casa invadida pelo rio, no bairro de Bonsucesso, vizinho a Vieira. Depois de ser tragado pela correnteza, ele conseguiu se agarrar no galho de uma árvore até a água baixar. Mas o irmão de 5 anos continua desaparecido. “A minha casa acabou, só sobrou a cozinha”, contou Danilo, que ainda espera encontrar vivo o seu único irmão.

A cozinheira Sandra da Silva, que morava à beira do rio, fez questão de mostrar o que restou de sua casa, invadida por quase 2 metros de água. Todos os móveis foram cobertos por lama, não restando praticamente nada. Depois de ficar com água até o peito, ela conseguiu sair e salvar a filha de 14 anos. Quando as águas baixaram, ela conseguiu voltar, mas se deparou com um corpo na cozinha. Enquanto ela falava com a Agência Brasil, um vizinho acabava de matar uma jararaca de 1,5 metro em seu quintal.

Na casa ao lado, o drama da costureira Eunice da Silveira Gomes era a perda de sua confecção, de onde tirava o sustento da família. Máquinas de costura, mesa de corte e toda a produção de roupas foram arrasadas pela lama do rio. Ao lado da residência, ela encontrou um cavalo morto. “Ainda não veio ninguém da prefeitura aqui para ajudar. Não tenho dinheiro para recomeçar o negócio e não sei o que vou fazer daqui para frente”, disse Eunice.

Segundo estimativa dos bombeiros, ainda há 40 pessoas desaparecidas em Vieira.

Cotidiano