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Salão de baile reúne desabrigados e donativos em Nova Friburgo (RJ)

Rodrigo Bertolotto<BR>Enviado especial do UOL Notícias<BR>Em Nova Friburgo (RJ)

15/01/2011 07h03

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    “Aqui é muito mais legal que em casa. Fiz um monte de amigos”, diz Nicole, 7 (de verde)

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    Paulo Ronei vê TV de perto para conseguir escutar o som em meio aos gritos das crianças

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    Desabrigados tentam se organizar em meio ao que restou de seus pertences

Nicole e Ana Paula correm de um lado para o outro entre as dezenas de colchões espalhados no chão. Desviam dos carregadores que trazem mantimentos. E acordam os adultos que tentam esquecer a realidade e pegar no sono no salão social da Sociedade Esportiva Friburguense, onde cerca de 240 desabrigados das chuvas em Nova Friburgo (RJ) se alojam. A cidade é uma das mais afetadas pelas chuvas que já mataram mais de 540 pessoas na região.

“Aqui é muito mais legal que em casa. Fiz um monte de amigos”, diz Nicole, 7, recuperando o fôlego depois de uma sessão de pega-pega.

As assistentes sociais da prefeitura organizam o cotidiano de refeições, remédios e agasalhos no local anteriormente usado para bailes. “Já vim em muito Carnaval, pagode e até formatura neste salão. Agora é meu local de trabalho”, conta Sandra Souza, assistente social da prefeitura.

O salão acabou virando um entreposto de donativos, afinal, tem a maior concentração dos flagelados da cidade. Mas a solidariedade é maior que a logística. “Tem quatro abrigos com falta de mantimentos, mas aqui está lotado. Dá mais trabalho cuidar desse envio que cuidar das pessoas aqui”, afirma Ana Luisa Passos, funcionária da Secretaria de Assistência Social.

O maior problema no local é que dois chuveiros são responsáveis por limpar as centenas de pessoas. Para Leonardo Lucas, o abrigo parece uma miragem em meio à calamidade: antes ele ficou três dias com a mãe em uma casa condenada pela Defesa Civil, sem luz, água e mantimentos.

“Estava com medo que viessem saquear a casa. Agora eu e uns vizinhos montamos um esquema para vigiar para que não venham ladrões. Já roubaram botijões e TVs no bairro”, conta Lucas, que está desempregado.

Já o pedreiro Pedro Ronei voltou para sua casa para buscar o aparelho de TV para se distrair no abrigo. Pelo barulho da criançada, ele tem que se aproximar muito da tela para escutar as notícias sobre as mortes na serra fluminense. “Minha casa rachou no meio e ficou pendurada no barranco. A TV foi o único que consegui resgatar”, relata.

Angélica Coelho fala ao celular sem parar, tentando localizar parentes na cidade e avisar os de fora que estão todos vivos. “Tem familiares nossos que estão ilhados”, diz a designer que divide três colchões com um irmã, os pais e a avó.

No meio da gritaria e falta de privacidade, ela não reclama. “Só de pensar que nos salvamos, isso são coisas menores. Não afetam”, diz Angélica.

Mais de 6.000 pessoas estão desabrigadas na região serrana do Rio. Ao contrário de Teresópolis, que concentrou as vítimas das enchentes em um ginásio, em Nova Friburgo eles estão em diversos locais.

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