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"A natureza tem seus momentos de vingança", diz pároco de Teresópolis

Daniel Milazzo<br>Enviado especial do UOL Notícias<br> Em Teresópolis

16/01/2011 13h27

Há 33 anos pároco da igreja matriz de Santa Tereza, no centro de Teresópolis, o monsenhor Antônio Carlos Mota do Carmo procura transmitir a seus fiéis palavras de esperança e solidariedade nestes dias pós catástrofe. "As próprias vítimas comentam: 'só Deus mesmo'. Nada que acontece de mau não tem um lado bom que possa ser valorizado", diz. A igreja ficou intacta, apesar das fortes chuvas que têm atingido a região.


A primeira missa dominical após o dilúvio ocorreu hoje (16), lotada. É a mais importante da semana. Cadeiras brancas de plástico e bancos de madeira na lateral da nave principal foram colocados para aumentar a capacidade da igreja. Ao longo da semana, o afluxo de fiéis também foi maior. Neste domingo, o monsenhor orou pelas vítimas da tragédia.


O monsenhor Antônio Carlos sente a população muito chocada e muito aflita. "Há um luto geral", afirma. Porém, o pároco de 67 anos faz um alerta: "a natureza tem seus momentos de fúria, seus momentos de vingança, por ter sido agredida", pontua.

O religioso salienta que os fenômenos climáticos provocam maior desgraça devido à ocupação de locais onde antes a natureza era preservada, como encostas e margens de rios. Para o monsenhor, a responsabilidade pelo desastre não é apenas divina. "Às vezes, há falta de planejamento, de destinação correta das verbas. Há provacação devido ao egoísmo e à ganância, que impedem que os benefícios do progresso cheguem a todas as áreas."

Natural de Tombos, cidade da Zona da Mata mineira, Antônio Carlos admira a generosidade do povo da região serrana fluminense e receita perseverança para que esta rede de solidariedade não esmoreça. "A gente espera que não suceda o que acontece com frequência, que é todo mundo se mobilizar no início e depois se acostumar. Vai passando o tempo e todo mundo esquece. As próprias verbas prometidas às vezes não chegam, as administrações não cumprem o prometido. E isso é muito triste, porque o estrago foi muito grande."

Comércio da fé

O pároco, com mais de três décadas de ofício, vê com ressalvas a aproximação das pessoas à religião neste período difícil. "Nessas horas, as pessoas ficam um pouco inseguras e também têm uma sensibilidade maior para os valores espirituais. É claro, a gente não pode se aproveitar disso para converter as pessoas de última hora, mas é um bom momento de mostrar que, apesar de valores materiais terem sido perdidos, existem valores permanentes que são eternos e merecem ser cultivados", opina o religioso.

Segundo Antônio Carlos, a maioria da população de Teresópolis é católica. No entanto, ele ressalta o recente crescimento das igrejas evangélicas na cidade, e critica algumas correntes modernas, acusando-as de terem perdido o vínculo com as tradições antigas do cristianismo. "Há muita coisa feita por interesses materiais e financeiros. Há um comércio da fé, também muito notado na cidade. Peço a Deus que isto não esteja acontecendo neste momento, porque mesmo os que não têm muitos princípios também são tocados nessas horas", vaticina.

Balanço

O número de mortes causadas pelas chuvas no Rio já passa de 615, segundo informações das defesas civis e das prefeituras deste domingo.  O governador do Rio, Sérgio Cabral, decretou luto oficial de sete dias pelas vítimas – o decreto entrará em vigor na segunda-feira (17), quando será publicado no “Diário Oficial”. A presidente da República, Dilma Rousseff, decretou luto oficial de três dias, a partir de sexta-feira (14). Em comunicado, ela afirmou que o luto é "pelas vítimas dos temporais que assolaram vários municípios do Brasil, principalmente da região serrana do estado do Rio de Janeiro".

Cidades com registro de mortes por conta da chuva

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