Encenação em Alagoas lembra os 135 anos da última execução por pena de morte no Brasil

Aliny Gama
Especial para UOL Notícias
Em Pilar (AL)

Há exatos 135 anos, o Brasil executava o último condenado à pena de morte. Às 13h do dia 28 de abril de 1876, o escravo Francisco era morto por enforcamento, condenado por assassinar a pauladas os patrões, o capitão de guarda nacional João Evangelista de Lima e a esposa Josepha Marta de Lima, proprietários do Hotel Central, no município de Pilar (AL), a 37 km de Maceió.

João foi morto no hotel, enquanto Josepha teria sido assassinada no sítio Bonga. O caso teve grande repercussão nos jornais da época, que por dois anos, relatavam os últimos acontecimentos sobre o pedido de revisão da pena imposta ao escravo solicitada ao imperador Dom Pedro II. Com o pedido negado, o escravo foi condenado à forca -- sua morte a última registrada pelos livros como execução por pena capital no país.

Os momentos finais do escravo, até sua morte na forca, são revividos há 11 anos por atores e pela população pilarense com uma encenação pelas principais ruas de Pilar até o sítio Bonga, local onde ocorreu o enforcamento do escravo, em 1876. O espetáculo conta também com uma exposição de escrituras e jornais da época que relataram o caso do escravo Francisco.

Ao todo, 60 profissionais são envolvidos no espetáculo. Nem mesmo a forte chuva da manhã e tarde desta quinta-feira (28) atrapalhou a encenação. Para a organização do evento, a chuva deu um tom mais real dos últimos passos do escravo. “Gente, até a chuva que está caindo hoje aconteceu no dia em que o escravo Francisco foi enforcado. Vamos acompanhar!”, gritava ao microfone o criador do evento e diretor de cultura do município, Sergio Moraes.

A encenação do drama do escravo começa após a celebração de uma missa, realizada na Igreja Nossa Senhora do Rosário, onde o escravo pede para fazer a sua última oração antes de ser morto. O juiz dá o veredito e lê a condenação do escravo. O cortejo percorre cerca de três quilômetros pelas principais ruas da cidade com destino ao sítio Bonga, onde a forca o espera. Mulheres choram, o padre reza, enquanto o juiz e o carrasco do escravo negam aos pedidos e levam Francisco para a forca erguida no sítio. Este é o momento final da encenação, que dura cerca de uma hora e meia.

Moraes destaca que este momento histórico deveria ser relembrado por todos e serve como marco para a extinção da pena de morte no Brasil. “A encenação serve para mostrar o sofrimento de uma pessoa, apesar do crime que cometeu, e as possíveis injustiças que poderiam ocorrer com a pena de morte. Deveríamos relembrar o sofrimento e as conquistas dos nossos antepassados para avaliarmos as nossas atitudes”, diz.

Na trilha de Nova Jerusalém

Apesar de ser um fato totalmente diferente da crucificação de Jesus Cristo, os organizadores da encenação da morte do escravo Francisco querem que o espetáculo torne-se conhecido tão quanto é o da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, revivida há mais de 50 anos no distrito de Fazenda Nova, município de Brejo da Madre de Deus (PE).

“Muitos alagoanos nem sabem que ocorreu aqui em nosso Estado o último enforcamento oficial por pena de morte, que é um marco para a extinção da pena de morte no País. Pretendemos colocar nosso município no circuito de turismo com esta encenação. E quem sabe um dia, sermos tão conhecidos nacionalmente quanto o de Nova Jerusalém?”, afirma Sérgio Moraes.

A população também sonha com o estrelato da encenação da morte do escravo para trazer melhores condições de renda. “Se turistas viessem assistir, melhoraria o movimento aqui no meu bar. Teríamos movimento também no comércio e na pousada [única existente no município]”, acredita José Santino, dono de um barzinho em Pilar.

A história

Numa emboscada, o capitão de guarda nacional João Evangelista de Lima e sua esposa Josepha Marta de Lima, proprietários do Hotel Central, no município de Pilar (AL) foram brutalmente assassinados a pauladas. Os acusados pelas mortes foram os ex-funcionários e escravos Francisco, Prudêncio e Vicente. Os réus foram condenados pelo juiz da comarca de Pilar à pena de morte e prisão perpétua. “Se o crime não tivesse ocorrido no ano de 1874 poderiamos imaginar que a notícia seria um fato atual. Em meio a tanta violência temos de mostrar o drama de uma pessoa condenada para morrer”, conta Sergio Moraes.

Após cometerem os assassinatos, os escravos buscaram refúgio em outras cidades. O escravo Vicente fugiu para o Engenho Hortelã, localizado no município de Marechal Deodoro (AL), mas foi capturado. Já Francisco e Prudêncio fugiram para a cidade de Pesqueira (PE). Em confronto com a polícia, Prudêncio morreu e Francisco foi capturado.

Vicente e Francisco ficaram presos por dois anos e até a condenação da justiça. O juiz deu o veredito final com a condenação de pena de morte a Francisco e a Galé Perpétua (prisão perpétua) a Vicente. O imperador Dom Pedro II não se pronunciou sobre a situação do escravo Vicente, que morreu na prisão, e negou o pedido de “Graças” ao escravo Francisco, condenado a morrer na forca. Após a execução de Francisco, Dom Pedro II determinou a extinção da pena de morte com a Proclamação da República e a edição do Código Penal de 1890.

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