Enquanto governo de São Joaquim (SC) investe em máquina de neve, moradores da periferia relatam descaso

Lucas Azevedo

Especial para o UOL Notícias
Em São Joaquim (SC)

Todos os anos, nesta época de inverno, Maria olha para o céu à espera da neve. O que para os entusiastas do frio pode parecer uma dádiva não é para ela, moradora de São Joaquim (235 km de Florianópolis), cidade na serra catarinense onde a prefeitura está testando uma máquina que garanta paisagem "alpina" nos meses de frio.

O inverno na região é rigoroso, com geadas comuns e grandes chances de nevar. Mas as mesmas temperaturas negativas que levam turistas a lotarem os hotéis fazem com que Maria, moradora da periferia, tema o inverno.

Fazia cerca de -2ºC no fim da noite do último dia 4 de julho quando assessores, secretários e alguns convidados da prefeitura experimentaram a "snow maker" em uma pequena encosta do Parque da Maçã. A umidade do ar não ajudou na formação dos flocos, mas nada que tirasse o ânimo do prefeito José Nérito (PPS).

O mecanismo, que joga ao ar vapor d'água em alta pressão para que cristalize e caia em flocos, é uma aposta da prefeitura para incrementar o turismo na cidade. Não se fala em custos.

A resposta do gabinete do prefeito é que a máquina ainda não foi comprada, mas que "valerá a pena", já que o objetivo principal é atrair mais turistas a São Joaquim e até construir uma pista de patinação no parque da cidade.

Perto dali, em um esforço diário contra o frio, está Maria dos Prazeres Alves Rodrigues, 68 anos, e outras dezenas de famílias. Eles são moradores do bairro Madre Paulina, um dos mais pobres da cidade, onde as casas são simples, as ruas não têm pavimentação e a rede de esgoto é precária.

Alguns casebres, como o de Maria, podem ser invadidos pelo gelo em uma eventual nevasca –artificial ou não–, já que as telhas são furadas e as paredes, de papelão.

Desemprego

Nessa época, muita gente está dentro de casa porque grande parte trabalha na safra da maçã –responsável por mais de 80% da receita de São Joaquim–, que se encerra no final de maio.

Emprego de novo só em outubro, na fase de "raleio" (seleção manual) da fruta. Mas há poucas vagas. A alternativa é procurar os escassos "bicos" em busca de dinheiro para alimentação e lenha. Isso porque na comunidade as principais armas contra o frio são comida quente e fogo.

Alexsandra de Fátima Pereira tem 35 anos, mas aparenta muito mais. Ela tem quatro filhos: gêmeas de três anos, um menino de cinco e uma menina de sete. Nesse período de férias escolares as crianças brincam na rua, apesar do frio, com pouca roupa. A mulher conta que o marido está procurando trabalho. Ela, idem, já que os dois dependem da produção da maçã.

Durante a safra, os dois conseguem ganhar R$ 200 a cada quinzena, trabalhando na plantação quase 12 horas por dia. "Mas às vezes a gente tem que faltar, porque as crianças adoecem." E aí a renda da família cai drasticamente.

Atrás da linha

Maria gasta R$ 300 por mês em lenha para esquentar o seu barraco, onde vivem quatro pessoas. Além dela, moram ali seu marido, de 54 anos, servente da prefeitura; o filho desempregado, de 29 anos; e o neto, de sete.

O sustento da família vem do salário mínimo do marido, já que Maria não trabalha há seis anos. "Fiquei velha e ninguém me quis mais. Nem em pomar, nem como doméstica", disse, sentada ao lado do fogão a lenha –único bem herdado da mãe, há 30 anos– que, junto de uma TV velha, configuram os maiores bens do local. 

Quando mais nova, assim como a grande parte das mulheres do Madre Paulina, Maria intercalava a lida na plantação de maçã com o de empregada doméstica. Mas, mesmo trabalhando a vida toda, não conseguiu recolher nenhum benefício. "Quando eu ficava na roça, era de agregada. Daí vim pra cidade servir gente rica que não queria assinar carteira."

Rosionei Silva Rodrigues, 28, é vizinho de Maria. Durante a safra da maçã trabalhava como motorista, mas há cerca de um mês sobrevive de biscates. "Nessa época a gente fica quatro meses parado com conta para pagar. Quem sabe podar, se mantém na poda da maçã. Mas é muito difícil conseguir emprego nessa época", afirma, empilhando a lenha úmida que ele próprio cortou num mato próximo.

Rodrigues mora num barraco onde divide espaço com a mulher, Eva Sirlene de Oliveira, 40, empregada doméstica afastada por doença, o filho dela e um amigo da família, que ajuda com R$ 30 para as demandas da casa.

Assim como eles, o pensamento de tentar a sorte na cidade grande é corriqueiro no bairro. Como acontece em diversas regiões do país, alguns dos pobres e desempregados de São Joaquim migram para municípios maiores, como Lages e Criciúma, em busca de emprego. Mas o sucesso está longe de ser garantido.

Máquina de gelo vira piada

A máquina de fazer neve é comentada com deboche pelas ruas do município. O assunto se desenrola com facilidade no balcão de um botequim na região central. "Essa máquina tem que fazer gelo para tapar os buracos nas ruas", dispara o balconista. "Tão dizendo que ela serve mais é para irrigar os pomares de maçã", devolve um cliente.

Mas, para o prefeito, a máquina alavancará São Joaquim como destino turístico de inverno. Nérito vislumbra até a adaptação de câmaras frias de armazenamento de maçã em rinques de patinação durante todo o ano. "O turismo vindo para cá faz com que a cidade tenha mais condições. E enquanto atraímos os turistas, também cuidamos da parte social."

Ele alega que durante o intervalo na safra da maçã, a prefeitura distribui cobertores, cestas básicas e lenha às famílias de trabalhadores da roça. O prefeito mostrou, num galpão do parque, durante o teste da máquina de neve, pilhas de sacos com madeira já cortada. "A colheita da maçã vai até maio. Em junho, julho e agosto a prefeitura entra com suporte."

Mas essa ajuda não tem chegado até Maria, ao menos nos últimos três anos. "Nunca ganhamos nem um figo podre. Nada", reclama, enquanto se afasta do fogareiro improvisado no chão para mostrar o banheiro que conseguiu fazer dentro de casa. Antigamente ali eram guardados os feixes para o inverno.

Para que a madeira não molhasse, o marido fez uma cobertura com telhas quebradas sobrepostas. É o mesmo telhado que na última campanha municipal abrigou um candidato a prefeito durante uma tempestade.

"Ele ficou aqui, assim, embaixo da telha, olhando para a água correndo", descreve Maria, apontando para o chão de barro. "Esse chão, onde a gente não pode plantar nada. É só pedregulho. E quando chove, a água arrasta tudo."

No fundo do terreno íngreme onde está sua casa, Maria tenta cultivar alguma coisa. A produção se resume a dois cercadinhos de tijolo e um pequeno chiqueiro. "Aqui eu consigo plantar uma cebolinha e mostarda, para quando carnear o leitãozinho fazer uma morcilha."

Enquanto espera o porquinho no fundo do quintal ganhar peso, Maria volta para perto do fogão a lenha, cujo fogo nunca apaga.

A reportagem do UOL Notícias procurou mais de uma vez a Prefeitura de São Joaquim para questionar a falta de entrega de mantimentos aos moradores, mas não recebeu retorno das ligações.

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