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Saber que eles estão soltos me deu medo de sair na rua, diz homem que teve orelha arrancada ao ser confundido com gay

Um homem de 42 anos e seu filho foram agredidos por sete homens; o pai teve parte da orelha decepada - Luis Cleber/AE
Um homem de 42 anos e seu filho foram agredidos por sete homens; o pai teve parte da orelha decepada Imagem: Luis Cleber/AE

Maurício Simionato<br>Especial para o UOL Notícias

Em Campinas (SP)

20/07/2011 16h57

“Depois que vi que não deu em nada e que eles continuam soltos, fiquei com medo de sair na rua. Espero que seja feita Justiça. Porque se ninguém for punido, o pessoal vai achar que pode sair na rua espancando e arrancando a orelha de quem quiser.”

Ainda traumatizado e com receio de sair na rua, o autônomo de 42 anos que teve parte da orelha decepada e foi espancado na última sexta-feira por um grupo de jovens só porque estava abraçado ao filho de 18 anos disse nesta quarta-feira ao UOL Notícias que terá de fazer “três ou quatro cirurgias” se quiser reconstituir a orelha direita.

As agressões ocorreram na madrugada de sexta-feira (15) na festa EAPIC (Exposição Agropecuária Industrial e Comercial), que acontece em São João da Boa Vista (216 km de SP).

Ele e o filho foram agredidos por cerca de sete jovens que acharam que eles fossem um casal gay. “Isso tudo aconteceu porque acharam que a gente era gay. E se fossemos gay? Qual o problema? Antes de nos agredir, eles ficavam provocando e falavam para a gente se beijar na boca”, disse o pai, que pediu para não ter o nome revelado por temer represália. 

O pai realizou exames nesta manhã no Hospital de Clínicas de São Paulo e recebeu tratamento. Ele ouviu dos médicos que terá de voltar ao hospital em 15 dias para iniciar o tratamento de reconstituição parcial da orelha.

“Vou ter que fazer umas três ou quatro cirurgias plásticas e, mesmo assim, os médicos disseram que não vai ficar perfeito. Vai ter que tirar um pedaço da cartilagem da costela para reconstituir a orelha”, disse ele, alegando estar “desanimado” com a situação.

Ele disse estar em dúvida se vai mesmo fazer as cirurgias plásticas. “Dá um desânimo ter que viajar para São Paulo para fazer o tratamento. Saí de casa hoje [quarta-feira] de madrugada para ser atendido. Estou perdido, não sei o que fazer. Estou indo para São Paulo com meu carro e comprando remédios com o dinheiro do bolso. Minha vida virou completamente de ponta cabeça”, disse o autônomo.

O pai disse que está sem trabalhar por causa dos ferimentos. “Sou autônomo e não tenho como trabalhar. Não posso tomar sol e nem pegar poeira. Quando saio na rua, todo mundo me para e fica perguntando.”

Ele contou que o filho de 18 anos, que é universitário e cursa educação física, está bastante abalado e teve ferimentos leves. “Imagina só, ele ficou segurando o pedaço da minha orelha em um copo com gelo”, disse ele, que tem outros três filhos.

“Meus irmãos, meus filhos e toda a minha família ficou abalada com tudo isso. Uma tia minha chegou a desmaiar quando ficou sabendo”, disse ele.

O pai disse ainda que os médicos apontaram que a orelha foi decepada provavelmente por um objeto cortante e disse não ter certeza se foi mesmo uma mordida que provocou o ferimento, como foi inicialmente divulgado. “Pelo que os médicos falaram pode ter sido feito com um estilete ou canivete”, relatou.

“Ainda estou pensando se farei mesmo as cirurgias plásticas. No entanto é duro olhar no espelho e ver que está faltando um pedaço de seu corpo”.

“O fato de tudo isso ter acontecido foi porque acharam que a gente era um casal gay. Espero que todos sejam punidos, senão a sensação de impunidade vai continuar”, disse ele. “Infelizmente nossa lei é assim. Ninguém é punido.”

Identificados

A Polícia Civil identificou ontem dois suspeitos pelo crime. Um deles foi ouvido ontem e confessou a participação. Ele ficou detido por algumas horas na delegacia e foi liberado depois que a Justiça não decretou sua prisão temporária.

Ele alegou que estava bêbado na hora da agressão. Outro suspeito foi identificado pela polícia, mas não havia sido localizado.

Os dois suspeitos não tiveram a identidade divulgada pela polícia e vão responder pelo crime de lesão corporal dolosa (quando há intenção de ferir outra pessoa). A pena prevista vai de dois a oito anos de prisão, caso sejam condenados. Eles podem responder ainda por discriminação, segundo a Polícia Civil.

A Justiça não aceitou nesta terça-feira o pedido da polícia de prisão temporária para o suspeito sob a alegação de que a Lei da Prisão Temporária, nº 7.960, de 21 de dezembro de 1989, não prevê este tipo de detenção para o crime de lesão corporal. Com isso, os suspeitos responderão ao crime em liberdade.

A polícia vai analisar agora as imagens das câmeras do circuito interno de vídeo da exposição agropecuária para identificar outros agressores.

Está marcada para o próximo domingo (24) a 3ª Parada Gay de São João da Boa Vista. Grupos gays preparam um protesto pelas ruas da cidade. A passeata já estava marcada antes da agressão. 

Cotidiano