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Itaquerão vira "porta da esperança" para uns e "porta da angústia" para outros moradores do bairro

Mauricio Stycer

Em São Paulo

01/08/2011 07h00

Projetado para abrigar jogos na Copa do Mundo de 2014, o novo estádio do Corinthians, o chamado Itaquerão, ainda não passa de um gigantesco terreno planado, quase silencioso, à espera dos caminhões, das máquinas e dos operários que o erguerão.

  • Maurício Stycer/UOL

    Lorivaldo José da Silva, que
    tenta trabalhar no Itaquerão

Estimada em mais de R$ 900 milhões, a obra terá um evidente impacto em Itaquera, quase no extremo da zona leste de São Paulo. Por ora, é apenas uma espécie de “porta da esperança” para os moradores do bairro que sonham ver suas vidas ou seus negócios transformados. E é também uma “porta de angústia” para outros, que temem perder o pouco que possuem por causa do estádio.

“O que vier eu traço”, diz Lorivaldo José da Silva. São 9h30 da manhã de segunda-feira (25) e o candidato a uma vaga de pedreiro é um dos 20 homens que se aglomeram diante do portão da obra. Um aviso da Odebrecht, colado junto ao escudo do Corinthians, avisa que a empresa não faz recrutamento no local.

Enviado ao escritório de Itaquera do CAT (Centro de Apoio ao Trabalhador), da Prefeitura de São Paulo, Lorivaldo preenche uma ficha e depois revela ao repórter um dado que omitiu da funcionária: “Vou trabalhar no estádio, mas sou palmeirense”.

Corintianos doentes, o problema de Vanderlei Batista Rodrigues e Jeová Mendes de Sousa é outro. A angústia deles diz respeito à idade: o primeiro tem 53 anos e o segundo, 63. Foram convocados na primeira triagem e aguardam, diante do portão, a chamada para o exame médico. “Gente mais calejada eles não costumam dar oportunidade”, diz Jeová, preocupado.

  • Maurício Stycer/UOL

    Vanderlei Batista Rodrigues e Jeová Mendes de Sousa, candidatos a trabalhar no Itaquerão

Ambos sonham com uma vaga como ajudante de obras, um dos postos mais baixos na hierarquia, com salário de R$ 968. “São três anos de trabalho. Vale a pena”, diz Vanderlei.

Não longe dali, numa das principais avenidas de Itaquera, Alcides Martins supervisiona a reforma do Chamour Motel. “Estamos pensando na Copa, claro. É mais barato reformar agora”, explica. Com 50 quartos, preços entre R$ 59 e R$ 139 por quatro horas “sem cortesia”, o motel oferece tarifas especiais para períodos mais longos.

“São os motéis que vão suprir a necessidade de quartos na Copa”, diz Martins. “Quantos hotéis você acha que dá para construir aqui no bairro em três anos?”

O Chamour, conta, já abriga parentes de pessoas internadas no hospital da região e aguarda, agora, funcionários graduados da Odebrecht. “Já veio aqui um funcionário ver se a gente tinha condição de abrigar 200 homens. Não é o nosso perfil”, conta.

  • Willians Valente/UOL Esporte

    Operários trabalham no futuro estádio corintiano, uma das sedes da Copa do Mundo-2014

Vizinha do motel, Mara Montalbini mantém há 17 anos a loja de material de construção Brasão do Leste. “Estou preparada para o aumento da demanda”, diz. “É evidente que vai melhorar. Os preços dos terrenos já dobraram.”

O impacto do Itaquerão, porém, ainda não passa de uma esperança, diz Mara. “A prefeitura mandou eu tirar o material que estava exibindo na calçada. Eles dizem: ‘Por uma Itaquera melhor’. Tudo bem. Tira o meu material, mas por que não tira os ‘nóias’ da rua?”, pergunta, apontando para jovens viciados em crack que dormem a poucos metros de sua loja.

Fifa aposta em atraso e estica prazo final para receber Itaquerão na Copa

Willians Valente/UOL Esporte
Depois de dizer que havia recebido "boas notícias" sobre o Itaquerão, o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, voltou a demonstrar na semana passada bastante compreensão com os trabalhos realizados no futuro estádio do Corinthians. Apesar de não confiar no prazo de entrega estabelecido pelo clube paulista, o dirigente estabeleceu uma data limite "confortável" para que tudo esteja pronto.

A especulação imobiliária é notada por todos os donos de imobiliária com que o UOL Notícias conversou. Itaquera é um bairro ainda majoritariamente horizontal, formado por sobrados, com muitas possibilidades de construção de prédios.

“Imóveis que valem R$ 80 mil saltaram para R$ 120 mil. Aluguel de casa de R$ 600 foi para R$ 800”, conta Hildeberg Araujo, dono da Aruana, uma das dezenas de imobiliárias do bairro. “Em consequência, as vendas caíram. Pelo menos, por enquanto”, diz.

Segundo o corretor, Itaquera está agora com preços equivalentes aos de bairros da zona leste mais próximos do Centro, como Penha e Vila Matilde. “Houve uma especulação imobiliária muito rápida”, constata.

A 200 metros do portão de entrada das obras do Itaquerão fica a vendinha de Perpétua Araujo Alves. Ela comprou o ponto há cinco anos, mas não tem documento de posse. “Gostaria muito de reformar”, começa a dizer e suspira. “Se nós não sairmos daqui... Gostaria muito de ficar.”

O comércio de Perpétua fica na ponta de uma favela em Itaquera. “Dizem que vão tirar”, diz Reginaldo Bezerra. “Aqui do lado, o sujeito quis reformar o negócio dele, a prefeitura não deixou”, conta. Desempregado, Bezerra é mais um que sonha em conseguir uma vaga na “porta da esperança” chamada Itaquerão.

Cotidiano