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Cotidiano

Forçados à internação, jovens dependentes de crack vivem rotina de disciplina em abrigo no Rio

Fabíola Ortiz<BR>Especial para o UOL Notícias<br>No Rio de Janeiro

06/08/2011 07h02

“Quando eu falar já, joga o bambolê no chão, dá um pulo e grita: ‘eu sou feliz’.” É assim que começam as atividades no período da tarde no Centro Especializado de Atendimento à Dependência Química (CEADQ) Bezerra de Menezes, no Rio de Janeiro, que trata de menores usuários de drogas.

A brincadeira é encarada como disciplina. “Está faltando sorriso no rosto de vocês... 1, 2 e já...!”, exalta o palhaço Rogério Rodrigues, que consegue animar as meninas a participar dos jogos lúdicos. O bambolê é uma das principais armas no tratamento de jovens menores de 18 anos dependentes de crack.

É neste centro de atendimento à dependência química, localizado em Guaratiba, zona oeste do Rio, onde ficam abrigadas crianças e adolescentes pegos nas operações conjuntas da Secretaria Municipal de Assistência Social nas chamadas cracolândias –geralmente localizadas em favelas violentas.

O UOL Notícias visitou uma das quatro unidades de acolhimento compulsório da Prefeitura do Rio para onde são encaminhados os adolescentes menores de idade para internação forçada. Proposta semelhante é estudada em São Paulo.

Nas unidades do Rio, os menores só saem ao cumprirem 18 anos ou por determinação do juizado de menores após provar terem se livrado do vício com a comprovação de uma equipe multidisciplinar.

O crack é a principal dependência tratada no instituto. Aqui, quase todas as 40 meninas acolhidas têm um histórico de vício nesta e em outras drogas pesadas.

Rotina

O abrigo possui cerca de 30 profissionais que compõem uma equipe multidisciplinar de educadores, assistentes sociais e psicólogos. Construído num espaço arborizado, o local abriga duas casas que acolhem 20 crianças cada uma e conta com uma área de lazer.

Entre as atividades diárias estão oficinas de dança, canto, teatro, palhaço e momentos de discussão. A rotina é sempre a mesma para formação de hábitos: levantar às 7h30, arrumar a cama, cuidar da higiene pessoal, escovar os dentes e tomar banho.

A educadora Siomara Pimentel trabalha no abrigo há um ano e já trata de dependentes químicos há quase dez. Ela conta que as meninas chegam muito debilitadas das abordagens feitas nas ruas.

Muitas vêm infectadas com doenças sexualmente transmissíveis, além de doenças de pele, tuberculose e pneumonia. “Geralmente elas chegam tresnoitadas, dormem o tempo todo e têm problemas de saúde por causa do uso contínuo da droga. Elas precisam de um tempo até mesmo para se sintonizar. Na rua, o crack tira toda a fome, a sede, não se dorme, elas passam o tempo todo usando.”

Pimentel lembra que no abrigo tem horário para tudo. “Geralmente, lemos um texto para que elas possam refletir. Às sextas-feiras é o dia de visita”, afirma. São servidas cinco refeições diárias: o café da manhã, o almoço ao meio-dia, o lanche por volta das 15h30, o jantar às 18h e a ceia às 21h. Às 22h é hora de dormir.

A educadora afirma que, após ser liberada, a jovem tem que manter o tratamento fora para evitar recaídas.

“Comecei a namorar com o gerente da favela”

“Com 12 anos eu usava cocaína, loló [lança-perfume], maconha e haxixe. Depois parei de estudar na 8ª série, faltava à aula para ir à favela, comecei a namorar com o gerente da favela e a ir aos bailes funk. Ele usava muita cocaína e, de tanto vê-lo, eu experimentei e comecei a usar direto”, conta a adolescente B.S, 16 anos.

Há cinco meses no abrigo, B. passou por muitos momentos de dificuldade: antes de se tratar, ela ficou desaparecida por três meses sem dar notícias à sua família.

“Já aconteceu muita coisa comigo, antes de vir para cá em fevereiro, fiquei dois meses internada no hospital. Por efeito da droga, tive sete problemas de saúde. Meu pulmão esquerdo parou de funcionar, tive derrame na pleura, água no pulmão, na barriga, no coração, tive fígado grande e anemia profunda e desnutrição. Isso tudo num momento só, cheguei a pesar 29 quilos”, relembra.

Com pneumonia e tuberculose, B. foi encontrada pela mãe numa favela próxima ao bairro Senador Camará, na zona oeste do Rio, e levada para o hospital. Com a saúde recuperada, B. ainda toma medicamento para controlar a ansiedade. Ela teve dificuldades para se acostumar ao abrigo. “São muitas regras, na rua a gente não tinha isso. Quando eu sair, vou levar a disciplina comigo. Aqui a gente aprende, equilibra o pensamento e o corpo”, avalia.

“Quero ir embora”

Com uma filha de dois anos e sete meses, E.S, de 18 anos, foi recolhida em uma operação realizada em Manguinhos (zona norte), em junho, quando 58 pessoas foram retiradas das ruas. Ela era uma das dez crianças e adolescentes encontradas na cracolândia.

“Não adianta mentir, eu não sou uma usuária: eu sou uma viciada. Está sendo boa a experiência aqui, mas eu quero ir embora. A minha filha está entre a vida e a morte por causa de mim”, disse.

A adolescente usa drogas desde os 13 anos. “Fumei crack, depois experimentei loló [lança-perfume] no baile funk e foi quando eu comecei a fumar cigarro [mistura de maconha com crack] –tem também o capetinha, que é a nicotina do cigarro com o crack”, lembra.

Com a fala prejudicada, ela ainda não vai receber alta. Por ter completado a maioridade, deverá ser encaminhada para outro abrigo. “Desejo morar com a minha mãe e ser feliz com a minha família, não quero voltar para as drogas, se eu quisesse já teria fugido daqui”, disse. Recolhida da rua há cerca de um mês, entretanto, a menina afirma não se lembrar da última vez que esteve em casa.

A educadora Maria Helena de Sousa, que é recém chegada ao abrigo, conta ter vivido um histórico de vício na família. “Já tive experiência com a minha própria família, que era de usuários –minha irmã e minha mãe. Na época eu não pude ajudar, eu tinha quase 10 anos”, lembra.

Sousa afirma que usa sua experiência pessoal para incentivar as meninas. “Eu passo para elas que a vida não é fácil, mas não precisa ser tão difícil. Eu fui criada no meio das drogas, mas não deixei que me atingisse”, finaliza.

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