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Cotidiano

Maior milícia do Rio pagava até R$ 40 mil por informações privilegiadas; dez são presos

Hanrrikson de Andrade<BR>Especial para o UOL Notícias<BR>No Rio de Janeiro

01/09/2011 15h07Atualizada em 01/09/2011 16h02

Os resultados da Operação Pandora, deflagrada na manhã desta quarta-feira (1º) no Rio de Janeiro, mostram que a corrupção nas polícias Civil e Militar tem garantido a sobrevivência da maior e mais temida milícia do Rio de Janeiro: a Liga da Justiça, que pagava até R$ 40 mil por mês por informações privilegiadas vazadas por um policial ligado à Secretaria de Segurança Pública.

De acordo com a denúncia, o policial aposentado Anisio de Souza Bastos, lotado na Corregedoria Interna da Polícia Civil --e que teve a prisão preventiva decretada--, agia como “agente duplo", trabalhando na Corregedoria e fornecendo aos criminosos informações sigilosas sobre as rotinas e operações policiais. Há também a suspeita de que o suspeito tivesse o objetivo de articular um novo grupo paramilitar para substituir a Liga da Justiça.

Na operação, a polícia cumpriu dez dos 17 mandados de prisão expedidos pela Justiça. Entre os suspeitos presos hoje, quatro pertenceram ao quadro de oficiais da Polícia Militar, segundo a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco/IE). Duas mulheres que participavam do esquema também foram capturadas.

De acordo com as investigações, o contato entre os criminosos e os ex-colegas de batalhão no sentido de obter informações sobre as ações da PM eram fundamentais no planejamento da milícia.

Além das prisões, os policiais apreenderam cerca de R$ 45 mil, uma pistola calibre 380 e três carregadores, uma luneta de longo alcance, notebooks, um veículo Eco Sport, uma máquina de contagem de dinheiro e relatórios feitos pelos milicianos sobre a organização do grupo –no total, a Justiça expediu 33 mandados de busca e apreensão. Também foram apreendidas joias.

Os presos e o material recolhido foram levados para a Delegacia de Roubos e Furtos de Autos.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, 150 agentes de várias delegacias especializadas participam da ação para desarticular o maior grupo paramilitar da zona oeste do Rio, que já foi chefiada pelos irmãos e ex-parlamentares Natalino Guimarães (ex-deputado estadual) e Jerominho (ex-vereador), ambos presos em Campo Grande.

Autodestruição

O atual chefe operacional do grupo paramilitar é o ex-policial militar Toni Ângelo de Souza Aguiar, o Tony, ex-braço direito de Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman. Desde que os principais líderes da Liga da Justiça foram presos, os milicianos remanescentes vivem em conflito constante.

Tony criou um racha no grupo quando resolveu redistribuir, de acordo com os seus interesses, a verba oriunda das diversas "taxas" cobradas pelos milicianos, o que deu origem a assassinatos dentro do próprio grupo.

Só o ex-soldado da PM Carlos Ari Ribeiro, o Carlão, 34, teria assassinado pelo menos três companheiros de milícia que foram supostamente acusados de traição à Liga da Justiça. Um deles era Jadir Jeronymo Júnior, o Gorilão, que durante muito tempo foi um dos principais aliados de Tony.

Domínio da zona oeste

A Liga da Justiça é o maior e mais conhecido grupo de milicianos do Rio de Janeiro. A facção paramilitar surgiu em 2007, em Cosmos, na zona oeste, e tem como símbolo o morcego do Batman, uma alusão ao apelido de um dos líderes da milícia, o ex-policial Ricardo Teixeira Cruz. Atualmente, ele está preso na Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Campo Grande (MS).

O criminoso foi preso há quatro anos em seu Ford Focus preto, na Via Lagos, poucas horas depois de ter tentado matar o sargento da PM Francisco César Silva Oliveira, o Chico Bala, em Cabo Frio, na Região dos Lagos. No carro também estavam o ex-PM José Carlos da Silva, expulso da polícia em 1999, o cabo Wellington Vaz de Oliveira e o policial civil André Luiz da Silva Malva, do Instituto Félix Pacheco.

Segundo a polícia, a Liga da Justiça fatura mensalmente cerca de R$ 2 milhões com a cobrança de serviços clandestinos, entre os quais uma suposta segurança, a submissão de gás, a distribuição do sinal de TV por assinatura, entre outros.

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