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Antes visto como "coisa de paulista", crack garante lucro para traficantes nas favelas do Rio

Jadson Marques/AE
Operação em novembro do ano passado apreende armas e pedras de crack em favela na zona norte do Rio de Janeiro Imagem: Jadson Marques/AE

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio de Janeiro

2012-01-23T06:02:00

23/01/2012 06h02

O desenvolvimento recente da estrutura econômica do tráfico de drogas no Rio de Janeiro mostra que o crack se transformou em uma real fonte de renda para os chefes das favelas da capital. A forma petrificada da cocaína vem ganhando lugar de destaque na vitrine do narcotráfico fluminense, já que se estabelece com preços mais baixos para criminosos e usuários, e tem maior poder de vício em comparação com outras drogas.

Antes considerado "coisa de paulista" pelos traficantes cariocas, o crack já é capaz de movimentar nas favelas cariocas mais de R$ 1,5 milhão por mês, segundo estimativas de delegacias especializadas da Polícia Civil –esse valor, porém, ainda é muito inferior aos lucros obtidos com a venda de maconha e cocaína. Os cálculos dos investigadores levam em consideração o valor do produto e o consumo médio de um viciado.

Até meados dos anos 2000, o uso de crack se limitava principalmente aos moradores de rua, e o lucro era mínimo. "Os chefões do Rio sempre falaram que o crack é 'coisa de paulista', o negócio deles era vender cocaína", afirma a ex-chefe de inteligência da Polícia Civil do Rio, Marina Maggessi.

"O crack deixava o viciado fora de controle e não dava retorno para os grandes chefes do tráfico, já que era muito barato. Essa droga ficava restrita principalmente a São Paulo, que tem uma criminalidade totalmente diferente em relação ao Rio. Lá, o crack é uma questão de varejo, não há atacadistas", afirma Maggessi, que hoje é deputada federal.

Em área nobre

Atualmente, o crack está presente não só nas chamadas cracolândias cariocas, mas também nas áreas mais nobres da cidade, tais como a zona sul e a Barra da Tijuca, na zona oeste. De acordo com a presidente da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), Analice Gigliotti, aproximadamente 40% dos usuários de crack pertencem à classe média.

"O índice de usuários de crack na classe média e nas classes mais altas está em torno de 40%. O perfil do viciado nessas camadas sociais é diferente em relação aos indivíduos que acabam experimentando o crack por esta ser uma droga mais barata. São pessoas que já usavam cocaína e acabam migrando para o crack, que tem um efeito mais intenso e viciante", explica Gigliotti, que também é chefe do setor de dependência química da Santa Casa de Misericórdia do Rio.

"Já os indivíduos mais pobres se viciam em crack em função da acessibilidade. No alto do morro, eles podem comprar uma pedra a R$ 2 ", disse.

Em 2009, um assassinato aparentemente cometido pelo efeito alucinógeno do crack surpreendeu os moradores do bairro do Flamengo, na zona sul. O músico Bruno Kiglierman, filho do poeta Luiz Fernando Prôa, estrangulou a estudante Bárbara Calazans, 16, sua vizinha em um prédio de classe média alta. Eles eram amigos e tinham combinado de visitar o complexo cenográfico de uma emissora de TV do Rio.

A jovem acordou cedo e se dirigiu ao apartamento do músico, onde havia marcado o encontro. Sob efeito da droga, Kiglierman apertou o pescoço da vítima até que ela não pudesse mais respirar. Bárbara foi atacada porque teria pedido ao amigo que parasse de usar crack.

Pontos de venda se multiplicam

Segundo a polícia, os pontos de venda da droga estão se multiplicando pela zona sul. A poucos minutos da residência de Bruno Kiglierman, na favela Santo Amaro, no Catete, é possível comprar pedras de crack por R$ 5, conforme apurou a reportagem do UOL.

O morro em questão é controlado por traficantes do Comando Vermelho (CV) –segundo Maggessi, a única facção que comercializa o crack em todo o Rio.

Testemunhas afirmam que lideranças da favela costumam designar adolescentes iniciantes no mundo do crime –a maioria menor de idade– para vender drogas no asfalto, em especial nos bairros vizinhos da zona sul e na boêmia e turística região da Lapa.

Em dezembro do ano passado, uma operação conduzida pela Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat) desarticulou uma quadrilha formada por dez jovens, sendo quatro menores, que improvisou uma espécie de boca de fumo na escadaria Selarón, na Lapa, tradicional ponto turístico do bairro.

O bando era chefiado por um adolescente de 18 anos, identificado como Pablo Carlos Rebello, que se dizia um "guerreiro do Comando Vermelho". O jovem é filho de Wilton Quintanilha, o Abelha, que gerenciou o crime organizado na comunidade do Santo Amaro até 2001, quando foi preso. Atualmente, ele cumpre pena na penitenciária federal de segurança máxima em Catanduvas, no Paraná.

"Os jovens, alguns deles menores, moram nas imediações da Lapa. Eles se abasteciam no morro do Santo Amaro e quem fazia essa intermediação era o Pablo. Eles vendem maconha, crack e cocaína principalmente nas escadarias da Lapa para turistas que frequentam o local", afirmou a delegada da Deat, Renata Teixeira.

São Paulo faz megaoperação para reprimir a cracolândia
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Rota do crack

As grandes apreensões de maconha e cocaína, angariadas principalmente pela expansão das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) na capital, aceleraram o processo de crescimento da oferta de crack. Atualmente, as comunidades cariocas que mais lucram com a droga são a do Jacarezinho e a de Manguinhos, na zona norte –ambas possuem duas das principais cracolândias do município.

Como o preço das pedras é baixo –variam entre R$ 2 e R$ 25– e o vício é intenso, o que torna o consumo excessivo, o lucro dos criminosos em relação ao valor pago para os fornecedores pode ultrapassar os 100%. Em todo o país, a indústria do crack já movimenta diariamente cerca de R$ 20 milhões, segundo dados divulgados pela Polícia Federal e pela Comissão de Segurança da Câmara dos Deputados.

O delegado da Polícia Federal em Volta Redonda (123 km do Rio), Pedro Paulo Simão, afirmou ao UOL que a maior parte do crack consumido no Rio é oriunda da cidade paulista de Taubaté (130 km de São Paulo) e de cidades do Vale do Paraíba e do interior de Minas Gerais.

A proximidade com a região sul fluminense e a falta de fiscalização facilitam o negócio. No Rio, a droga é recebida em municípios como Resende e Itatiaia, no interior do Estado, antes de ser transportada por fornecedores locais –principalmente pela rodovia Presidente Dutra, que faz a conexão entre Rio e São Paulo, e é considerada a principal porta de entrada de todos os tipos de entorpecente.

"Todas as drogas passam por São Paulo e vêm ao Rio por via terrestre. Cerca de 90% chegam pela Dutra", afirma Marina Maggessi.

Operação contra o Comando Vermelho

O avanço do tráfico de crack na região sul fluminense levou a PF a desencadear a operação Timburibá, em 2009. Em nove meses de investigação, a polícia identificou 34 suspeitos de participação na quadrilha, entre os quais criminosos que possuem ligações com a facção Comando Vermelho (CV).

De acordo com a Polícia Federal, a ação resultou na prisão de 24 pessoas envolvidas com o comércio da droga, das quais 18 foram denunciadas pelo Ministério Público. Os julgamentos estão em curso.

"Essa operação começou com o objetivo de investigar o tráfico de cocaína e maconha, principalmente nas cidades de Resende e Itatiaia. A droga normalmente vem do Vale do Paraíba, em especial da região de Taubaté, e descobrimos a partir de interceptações telefônicas que, além da maconha e da cocaína, havia crack em um volume bem maior do que acontecia anteriormente", disse Pedro Paulo Simão.

Segundo o delegado, escutas telefônicas feitas pela inteligência da Polícia Federal mostraram que a facção Comando Vermelho (aliada do PCC, iniciais de Primeiro Comando da Capital, facção que atua em São Paulo) tentou instalar uma base criminosa no município de Resende (163 km do Rio).

"Na deflagração da operação Timburibá, prendemos dois elementos que tinham ligações com o Comando Vermelho. Na verdade, a ação da PF foi articulada justamente para impedir que essa facção se instalasse na região", afirmou Simão.

A ação de 2009 conseguiu "eliminar inicialmente" a presença do CV em Resende, porém um dos homens presos durante a operação, que seria supostamente a liderança da facção na região, conseguiu um habeas corpus. De acordo com a PF, há indícios de que esse suspeito voltou a chefiar o narcotráfico no município.

A Polícia Federal não conseguiu identificar os fornecedores, mas acredita que o tráfico de crack na região pode estar ligado ao PCC. "Sabemos que essa droga vem de fora do país e passa por São Paulo, provavelmente distribuída pelo PCC. Não foi possível descobrir a origem, mas é fato que ela já era repassada por alguém de São Paulo.”

Nos dois anos anteriores à ação, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu cerca de 45 quilos de crack durante operações de fiscalização na rodovia Dutra, número que foi considerado “assustador” pelas autoridades da região.

Ascensão do crack

A forma impura e petrificada da cocaína ganhou espaço na lógica de mercado do narcotráfico do Rio a partir de 2008, justamente o ano no qual a Secretaria de Segurança Pública (Seseg) colocou em pauta a questão do policiamento comunitário com o início da política de pacificação. A primeira UPP, a do morro Santa Marta, na zona sul, foi inaugurada em dezembro daquele ano.

De acordo com a ex-chefe de inteligência da Polícia Civil, Marina Maggessi, a primeira apreensão de crack registrada pelas forças de segurança ocorreu em 2003. Cinco anos depois, o entorpecente já era comercializado em dez favelas da capital, todas dominadas pela facção Comando Vermelho, segundo investigações da época.

No decorrer de 2008, mais de 300 comunidades passaram a dispor da droga. A proliferação do crack pelas favelas da capital fluminense se deu com mais rapidez nas áreas limítrofes com a Baixada Fluminense. Naquele ano, a polícia apreendeu cerca de 14 quilos de crack, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP).

No ano seguinte, o volume de crack confiscado pelas forças policiais já era quase sete vezes maior –foram quase 80 quilos da droga. Em 2010, a polícia apreendeu quase 200 quilos.

A chamada epidemia do crack também pode ser ilustrada através das estatísticas do disque-denúncia. As primeiras informações passadas à central telefônica da Polícia Civil só foram registradas em 2004 –na época, 27 ligações. Já em relação a 2010, a polícia recebeu mais de 2.500 denúncias a respeito de possíveis ocorrências envolvendo o crack.

Uma recente investigação da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod) descobriu que, em 2010, os grandes fornecedores baixaram os preços das cargas de pedras de crack em mais de 30%. Os principais compradores ainda são os traficantes das favelas do Jacarezinho e de Manguinhos/Mandela, ambas na zona norte.

No mesmo período da investigação da Dcod, o núcleo que atende dependentes químicos na Universidade Federal Fluminense (UFF) mostrou que o número de pessoas viciadas em crack dobrou em um espaço de 16 meses, no Rio.

Segundo estimativas da Comissão de Segurança da Câmara dos Deputados, há aproximadamente 1,5 milhão de usuários de crack em todo o país.

Guerra entre facções

O crack chegou efetivamente ao Rio de Janeiro três anos antes da primeira apreensão, quando a quadrilha chefiada por Fernandinho Beira-Mar, o CV, viu na forma impura da cocaína uma oportunidade de lucro extra.

"Foi uma grande surpresa para a polícia do Rio a primeira apreensão de crack, afinal, nós não tínhamos essa droga. Os grandes chefes nunca deixaram entrar. Mas com as prisões e as mortes dos líderes, o comando das favelas ficou a cargo de garotos, que já entravam no esquema viciados na própria cocaína", afirma Marina Maggessi.

A cada carregamento de cocaína pura comprada, os fornecedores exigiam que um percentual de crack fosse adquirido. "Onde há cocaína, há crack", resume Maggessi. Os jovens personagens do alto escalão da facção Comando Vermelho não hesitaram em colocar a droga no mercado, porém a lucratividade ainda era inexpressiva.

Os traficantes mais experientes, por sua vez, sabiam que a disseminação do crack poderia atrapalhar os negócios. As facções rivais Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando Puro (TCP) –chefiadas por criminosos dissidentes do CV e que já compreendiam a lógica do crime com noções semiempresariais– abdicaram do comércio de crack a fim de não frear a venda de cocaína.

"Apenas o CV vendia o crack porque eles não se preocupavam com a questão do entorno da favela. Aquela imagem dos viciados perambulando como zumbis afasta o usuário de cocaína, que é a droga que realmente dá lucro para esses criminosos. As chances de alguém passar ileso por essas cracolândias é praticamente nula. Essa era a filosofia das facções rivais, ADA e TCP", diz Maggessi.

A ex-chefe de inteligência da Polícia Civil conta que, na recente inauguração de um centro cultural do grupo AfroReggae, em Vigário Geral, no subúrbio do Rio, os traficantes da facção TCP colocaram uma faixa na entrada da favela com a seguinte inscrição: "Aqui não vendemos crack".

Além do aspecto mercadológico, a proibição teria se tornado um fator de orgulho para os rivais do Comando Vermelho, na visão da policial.

No entanto, segundo estatísticas do disque-denúncia, a polícia recebeu em 2008 informações sobre indivíduos consumindo crack nas favelas da Rocinha, do Vidigal, da Cruzada São Sebastião e da Mineira, todas dominadas à época pelos Amigos dos Amigos (quadrilha até pouco tempo chefiada por Antônio Bonfim Lopes, o Nem); e nas comunidades da Chumbada e de Senador Camará, controladas pelo Terceiro Comando Puro.

O disque-denúncia não esclarece, contudo, se as informações eram verdadeiras –os dados consolidados dizem respeito apenas ao número geral de denúncias.

A central telefônica da Polícia Civil recebeu ainda uma série de chamadas sobre supostos "traficantes independentes" atuando no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. De acordo com a polícia, o número de pessoas que resolvem revender a droga por conta própria é crescente no Rio.

Atualmente, acredita-se que apenas os territórios dominados pelas milícias, algumas raras favelas controladas pelas facções ADA e TCP, e, em tese, as comunidades pacificadas, não comercializam o crack.