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Rio investe R$ 9 milhões em reforma de colégio que foi alvo de massacre há um ano

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

07/04/2012 06h00

O governo municipal do Rio de Janeiro investiu cerca de R$ 9 milhões na reforma do colégio Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, onde há exatamente um ano o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, 23, matou 12 crianças e feriu outras 12.

As marcas físicas da chacina foram apagadas, mas as consequências psicológicas de um crime sem precedentes no país ainda podem ser observadas. "A sensação é a de que alguma coisa pode acontecer a qualquer momento. Definitivamente, eles ainda não superaram", diz a professora Marta Nunes.

Ela era a responsável pelas aulas de geografia das turmas que tiveram vítimas do atirador. "Eram alunos ótimos, que nunca deram qualquer tipo de trabalho. Os colegas sentem muita falta e até hoje fazem referência", afirma. "Já tive que parar aula em função de crises de choro. É um processo muito doloroso."

A professora considera que a quebra da rotina escolar em razão da reforma dificultou o processo de assimilação e superação do trauma. "Durante as obras, cada aula era uma situação diferente. Muitos alunos choravam, se desesperavam, principalmente por causa do barulho. Um aluno, por exemplo, já achou que alguém estivesse atirando."

O diretor do colégio, Luís Marduk, tem outra visão a respeito da reforma. Para ele, a quebra da rotina escolar foi importante no sentido de tirar o foco da tragédia. "As obras alteraram a nossa rotina, passamos a ter novas preocupações e uma sensação de construção de um futuro. Isso foi importante para que a comunidade escolar parasse de pensar um pouco no que aconteceu".

As obras duraram cerca de nove meses e garantiram ao Tasso da Silveira a condição de escola “modelo”, considerada uma das melhores unidades da rede pública de ensino. As novas instalações são modernas e atendem aos princípios da acessibilidade. Um prédio anexo foi erguido para ampliar a capacidade. Todas as salas ganharam recursos multimídia.

A estrutura também foi alterada: as salas nas quais Wellington Menezes de Oliveira abriu fogo contra estudantes deram lugar a um banheiro e a uma passagem para o prédio anexo. Nos corredores, há murais com mensagens exaltando o futuro da escola.

A antiga entrada do colégio não existe mais. O acesso ao novo portão se dá pela rua Jornalista Marques Lisboa, onde antigamente havia um estacionamento. A praça que fica ao lado da unidade educacional também foi reformada e hoje conta com aparelhos de atividade física para a comunidade.

Na área de lazer da unidade de ensino, um mural de azulejos reproduz mensagens, desenhos, ilustrações, e outras manifestações dos alunos. "Meu desenho está bem ali", aponta Jéssica Silva, 13. Ela perdeu duas amigas na chacina, e ambas estão representadas na imagem. "Nunca vou esquecer das nossas brincadeiras. Elas eram grandes amigas e hoje estão se divertindo muito no céu. Prefiro pensar assim".

O sistema de segurança recebeu atenção especial: foram instaladas 16 câmeras para monitorar todo o perímetro do colégio, além das quatro que já existiam antes do ataque. O colégio também passou a contar com porteiros trabalhando em horário fixo e guardas municipais reforçam a segurança dentro e fora do colégio. Os visitantes só podem circular pelas dependências da unidade educacional com autorização e acompanhamento, segundo a direção.

Relembre em vídeo o caso de Realengo

“Palhaçada”

Michele Guedes Pereira, 19, irmã de uma das vítimas do massacre, critica o investimento feito pelo governo municipal para "esconder", segundo ela, a "incompetência" da Secretaria Municipal de Educação no sentido de garantir a segurança para os estudantes da rede pública de ensino.

"Agora eles vêm com essa história de 'vamos lutar pela nossa escola'. E o passado da escola? Quer dizer que antes não lutavam pelos alunos? Por que essa palhaçada depois que 12 crianças morreram lá? Eles podem gastar o dinheiro que for, mas nada vai apagar o que aconteceu lá", afirma.

"Por mim, aquele colégio seria demolido, e seria construída uma praça ou um centro de esportes no lugar. Seria uma maneira muito mais digna de homenagear as vítimas".

Atualmente, a escola Tasso da Silveira conta com cerca de 1.200 alunos, segundo a direção. Na época da tragédia, eram 999 estudantes.