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Cotidiano

Sino centenário badala 24h em igreja no centro de São Paulo e irrita moradores

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

09/09/2012 08h06

O barulho de um sino que toca a cada 15 minutos do dia, durante 24 horas e de forma progressiva acendeu o debate entre tradição e cumprimento às leis em pleno centro da cidade de São Paulo --mais precisamente no tradicional bairro da Bela Vista.

O sino que gerou discórdia e um boletim de ocorrência na Polícia Civil é o da centenária paróquia de Nossa Senhora do Carmo, localizada na rua Martiniano de Carvalho.

Na vizinhança, moradores de anos ou décadas não chegaram a um consenso sobre o barulho do sino. Quem é antipático ao som alega que, depois das 22 horas, as badaladas violam o Psiu (Programa de Silêncio Urbano), da Prefeitura de São Paulo. Quem mora há mais tempo na região discorda.

Irritada por não conseguir dormir regularmente desde que se mudou para uma vila quase em frente à igreja, em julho passado, a roteirista e escritora Daniela Abade, 40, chegou a criar uma página no Facebook para dar “sugestões” do se que fazer de 15 em 15 minutos, intervalo das badaladas. Daniela afirma que já fez ao menos duas queixas ao Psiu, sem sucesso.

“Eu só percebi que não parava o barulho, mesmo depois das 22h, no terceiro dia; achei que fosse algum defeito. Reclamei no Psiu e tive de ouvir se eu 'sabia que estava reclamando de uma igreja’ e se eu tinha ideia 'de quantos decibéis' era o barulho, sendo que não sou técnica. É ilegal essa situação”, disse Abade, que registrou um boletim de ocorrência no 5º Distrito Policial na semana passada.

A roteirista relatou ter levado antes a queixa à paróquia, sem sucesso. “Eu queria mesmo saber qual era a função social desse sino, e pior, qual razão de ele tocar durante a madrugada. É ilegal. Mas ouvi que teria de me acostumar porque, em São Paulo, ‘barulho é sempre um problema’ --o funcionário [da paróquia] chegou a me dizer que mora ao lado do aeroporto de Congonhas. Mas até o aeroporto segue a regra e faz silêncio na madrugada”, disse. Agora, Abade diz usar protetores auriculares para tentar dormir.

Moradora da mesma vila, a professora e artista visual Adalgisa Campos, 41, declarou ter feito a queixa ao Psiu há sete anos. “Mas nunca vieram aqui”.

“De domingo, o sino toca alguns minutos antes da missa da manhã e da noite. Se a pessoa tiver sorte de o sono do bebê chegar até as 8h45 de um domingo, desse horário não passa. Meu filho nasceu com esse sino tocando”, contou. “Tenho uma prima fonoaudióloga que diz que, quando meu filho crescer [ele tem cinco anos], certamente ele terá uma perda de percepção dessas frequências”.

Adalgisa comparou o som do sino “a um carrilhão”. “Ele estabelece um ritmo na vida da gente; é como ter um carrilhão em casa, mas com a diferença que seu carrilhão você desliga, se estiver enjoada do barulho dele. Caso contrário, e ainda mais quando se tem poucas horas de sono pela frente, é infernal --pois você sabe que só faltam 3h45, 3h30, 3h15 de sono... e por aí vai”.

Moradores da vila há mais de 30 anos, o casal Affonso Moraes, 78, e Sara Moraes, 77, diz que se acostumou ao som. Ele é agnóstico; ela, espírita, salientaram.

“O sino não me incomoda, mesmo porque já está automatizado”, disse o advogado, que faz piada do assunto: “havia um estudante chinês que morava aqui na época que nosso filho também morava, há vários anos; quando esse chinês ouvia o sino bater, ele me dizia que, ‘se o padre é assim, imagina Deus’. Ele era ateu”.

Sara, porém, fez uma ressalva: “nosso neto mais novo, no começo, ficava histérico. Porque às seis da tarde, o sino fica quase cinco minutos tocando. Mas a cada 15 minutos é só uma batidinha”. Nisso, o marido observou: "é, quando é hora cheia badala mais". Ele se referiu ao fato de que, nas horas exatas, o sino bate tantas vezes quantas forem as horas. Às seis da tarde, por exemplo, são seis badaladas.

A representante comercial Minas Urbanos , 66, moradora da vila, comentou: “sou meio surda, durmo nos fundos da minha casa, então meio que tanto faz. Muitos dos meus amigos até gostam do sino, mas não tem que ficar tocando à noite”.

“Bairro todo vive em função desse sino”, diz administrador

A reportagem do UOL foi até a igreja conversar com os responsáveis pela paróquia. Ao ouvir que a entrevista era sobre a queixa de moradores sobre o sino, a secretária do local murmurou: “mas a pessoa vem morar em frente a uma igreja?”

Para o administrador do local, Jovino José Balbinot, não há o que ser feito em função de o sistema usado no sino dali --fabricado na Alemanha em 1902 --ser mecânico. “Fizemos um orçamento com uma empresa de São Paulo quando a moradora reclamou. Mudar o sistema custaria em torno de R$ 100 mil, dinheiro que a paróquia não tem”, disse Balbinot. “A não ser que a vizinhança queira fazer uma campanha e me dar esse recurso, aí eu mudo o sistema”, completou.

Indagado se o sino durante a madrugada não fere a lei do Psiu, o administrador disse que não classifica o som do instrumento como "barulho".

“Barulho é o que nossos vizinhos fazem até altas horas da noite com música, balada, isso é barulho. O sino toca a cada 15 minutos, e o bairro todo funciona em função dele, que é aqui uma referência. Tanto que, dias atrás, estragou, e a vizinhança reclamou que ele não estava funcionando. É uma tradição que segue aqui desde 1934”.

Assim como os moradores da vila próxima, Balbinot também disse que “nunca veio ninguém da prefeitura aqui”. “Mas, se fosse uma questão fácil de resolver, já a teríamos resolvido”, disse.

O UOL tentou ouvir a Arquidiocese de São Paulo sobre o assunto, mas o pedido de entrevista não foi retornado até o fechamento desta matéria, no sábado (8).

Prefeitura promete vistoria

Já a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, em nota divulgada na última quarta-feira (5), informou que um fiscal do órgão irá até o local “a fim de informar o responsável sobre a reclamação e orientá-lo sobre a legislação vigente”.

“Em caso de nova reclamação, será programada vistoria para medição dos ruídos emitidos e, caso sejam constatadas irregularidades, serão aplicadas as penalidades previstas em lei, desde multa até a interdição do local”, completou a nota, que não explicou o motivo de queixas já feitas por moradores não terem surtido efeito.

Serviço

Em São Paulo, questões relacionadas ao cumprimento do Psiu --denúncias ou solicitações --podem ser apresentadas através do telefone 156, nas praças de atendimento das subprefeituras ou pelo site http://sac.prefeitura.sp.gov.br/.

Casos do tipo também podem ser apresentados ao Ministério Público Estadual A orientação, porém, é que a demanda seja formalizada com base em um abaixo-assinado que justifique o caráter coletivo da causa.

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