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Morador dirige ônibus em chamas para salvar casa em SC; ataques chegam a 12

Renan Antunes de Oliveira

Do UOL, em Florianópolis

15/11/2012 11h53

Dois homens em uma moto incendiaram um ônibus lotado em uma área residencial de Itajaí (100 km de Florianópolis), na manhã desta quinta-feira (15). Para evitar que as chamas atingissem a casa da família, um morador entrou no ônibus em chamas e dirigiu até um terreno baldio. Com este caso, aumentou para 12 os ataques de criminosos contra bases da polícia, ônibus e outros alvos registrados pela Policia Militar de Santa Catarina desde as 20h de quarta-feira (14).

O ataque desta manhã ocorreu no bairro Salseiro por volta das 9h30. Armados, os criminosos obrigaram o motorista a parar, ordenaram o desembarque dos quase 50 passageiros e incendiaram o veículo. Não houve feridos.

As  chamas altas ameçavam queimar casas. Foi quando o mecânico Marcelo Leite, 29 anos, desafiou o fogo, entrou no ônibus e dirigiu até um terreno baldio para evitar que a casa de sua mãe fosse atingida pelo fogo.

Mais cedo, a PM informou a prisão em flagrante de cinco pessoas em dois incidentes de ataques a ônibus. Dos presos, dois são menores e três adultos. Agora já são 29 os suspeitos detidos por causa da onda de violência.

Em um dos ataques, um ônibus foi incendiado na praia dos Ingleses, no norte de Florianópolis, por volta das 20 horas. Dois menores mandaram os passageiros descerem e jogaram garrafas pet com gasolina no veículo. Eles fugiram de táxi e foram presos minutos depois pela PM. Foi o terceiro veículo da mesma empresa (Transportes Canasvieiras) a ser atacada desde segunda-feira.

Este ataque se deu na mesma área onde a violência começou, que teve o policiamento reforçado desde o início da onda de violência.

O sistema de transporte coletivo da capital ficou prejudicado na manhã deste feriado. O terminal central amanheceu lotado por passageiros desorientados. Eles esperavam desde às 5h40, mas o primeiro ônibus circulou só às 8h.

Muitos eram turistas que chegaram à capital catarinense pela rodoviária nos ônibus noturnos e que não conseguiram prosseguir viagens para outros destinos. A PM está escoltando apenas as linhas mais visadas da zona norte. Motoristas das outras viações estão com medo de trafegar.

Repercussão internacional

Uma das maiores preocupações do governo catarinense era com a repercussão negativa dos ataques no início da temporada turística. E aconteceu. A imprensa argentina noticiou em manchete a insegurança em Florianópolis - a praia dos Ingleses, epicentro dos ataques, recebe um grande número de turistas argentinos no verão.

Segundo o delegado-geral da Polícia Civil, Aldo D'Ávila, alguns ataques são comandados por facções criminosas dentro de presídios. Outros, isolados, por obra de oportunistas e imitadores. Ele não soube precisar quantos de cada. Nenhum mandante foi identificado até agora.

A PM também prendeu em flagrante três incendiários de ônibus, suspeitos de pertencerem à facção criminosa PGC (Primeiro Grupo Catarinense). Eles foram identificados pelas vítimas de um ataque ocorrido às 23h40 em Palhoça, na Grande Florianópolis. No incidente, o motorista sofreu queimaduras leves porque teve dificuldades para livrar-se do cinto de segurança. O passageiro sofreu uma torção do tornozelo na fuga do ônibus incendiado.

Também por volta das 23h, outro ônibus foi incendiado em Gaspar, no Vale do Itajaí. Segundo a PM, um grupo de quatro pessoas em duas motos pediu parada ao motorista no ponto final do ônibus, na altura da rua Ernesto Ceci. Armados, os criminosos obrigaram motorista, cobrador e passageiros a descerem do veículo e atearam fogo. Ninguém foi preso.

Nos 11 ataques da noite, sete ônibus, dois carros e uma creche foram incendiados, e uma base da Polícia Militar foi alvejada pelos criminosos. Este tipo de violência urbana é inédito em Santa Catarina.

Uma força-tarefa policial está nas ruas tentando prevenir os ataques. A polícia acredita que os mandantes da violência são bandidos presos na penitenciária São Pedro de Alcântara que estão agindo em represália pelas más condições carcerárias.

Na tarde desta quarta-feira (14), o governo do Estado anunciou a troca de comando da cadeia, numa tentativa de inibir a violência. A saída do diretor do presídio, Carlos Alves, foi um sinalização de trégua entre governo com os lideres da facção criminosa PGC (Primeiro Grupo Catarinense), que exigiam sua demissão.

Na Cachoeira do Bom Jesus, próximo à praia dos Ingleses, uma escola abandonada foi incendiada por volta das 21h30. Em Tijucas, 40 km ao norte de Florianópolis, dois ônibus foram atacados. Um deles era da Secretaria de Educação de cidade de Porto Belo. O outro era de transporte coletivo. Em São José, na Grande Florianópolis, dois homens numa motocicleta atiraram na base da PM dentro do shopping Itaguaçu, quebrando vidraças.

Mulher de diretor de presídio foi morta

Os atentados começaram em 26 de outubro, com o assassinato da mulher de Carlos Alves, Deise. Ela foi morta quando chegava em casa com um tiro pelas costas. Na ocasião, a versão oficial foi de incidente isolado.

Santa Catarina tem madrugada violenta

Por alguns dias, Alves ficou afastado, mas reassumiu o cargo no início do mês.

Valter Mendes, da Associação dos Advogados Criminalistas de SC, criticou a recondução de Alves ao posto logo depois do assassinato da mulher, quando tudo já indicava que existia o confronto dele com as facções.

Desde então, Alves já enfrentou duas acusações de torturas e maus-tratos, que supostamente seriam excessos cometidos na investigação da morte de sua mulher.

O diretor do Deap (Departamento de Administração Prisional), Leandro Lima, defendeu o subordinado Alves e negou que aconteçam torturas na cadeia.

A cadeia tem 1.200 presos. O sistema prisional catarinense tem 17 mil condenados, mas capacidade para apenas 11 mil.

Para piorar, existem 10 mil mandados de prisão em aberto - muitos deles, de criminosos que estão nas ruas e agem comandados por chefes presos.

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