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Ele continuará sendo nosso padrinho, diz fundador de biblioteca comunitária projetada por Niemeyer no Rio

Felipe Martins/UOL
Fachada da Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes, na Vila da Penha, zona norte do Rio Imagem: Felipe Martins/UOL

Felipe Martins

Do UOL, no Rio de Janeiro

06/12/2012 15h18

No subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro da Vila da Penha, zona norte da cidade, existe uma obra do arquiteto Oscar Niemeyer. A Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes, fundada pelo pedreiro Evando dos Santos, 52, abriga aproximadamente 17 mil livros que podem ser retirados gratuitamente por quem a visitar. “Ele foi e continuará sendo nosso padrinho. Tenho o orgulho de dizer que cuido da única biblioteca comunitária no mundo que foi projetada pelo maior arquiteto que o mundo já teve”, disse Evaldo nesta quinta-feira (6).

Niemeyer teve uma infecção respiratória e morreu na noite de quarta (5), aos 104 anos, no Hospital Samaritano, em Botafogo, zona sul do Rio. Ele estava internado desde o dia 2 de novembro, vítima de complicações renais e desidratação.

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O pedreiro conheceu o arquiteto de uma maneira inusitada. A biblioteca já funcionava improvisadamente na garagem de sua casa desde 1998. Em 2002, ao chegar a casa e ligar a televisão, viu Niemeyer ao vivo em um programa que disponibilizava um número de telefone para perguntas ao arquiteto. Evando ligou e conseguiu falar com Niemeyer, que prometeu ajudá-lo.

“Foi um milagre. Cheguei em casa, liguei a televisão, apareceu ele dando entrevista, o número de telefone, eu anotei rápido, liguei, ele atendeu. Eu considero tudo isso um milagre de Deus. O arquiteto do universo tocou o maior arquiteto do mundo, que me deu o projeto”, descreveu.

Como retribuição, Evando homenageou o arquiteto com uma estrela na “Calçada da Fama” criada pelo pedreiro na principal praça da Vila da Penha, incluída na última reforma do local feita pela prefeitura neste ano de 2012. “Dediquei para ele essa estrela com a frase: ‘Doutor Oscar Niemeyer, tu és uma estrela que nunca deixará de brilhar’”, recordou.

A biblioteca

A Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes, o nome uma homenagem ao escritor preferido de Evando, também sergipano, foi criada em julho de 1998. Improvisada na garagem da própria casa, o pedreiro calcula ter reunido cerca de 40 mil livros.

Evando sonhava com um prédio definitivo para abrigar os livros e o encontro com o arquiteto Oscar Niemeyer, segundo o pedreiro, foi “uma benção” que tornou realidade a nova biblioteca. Dias depois do contato no programa de televisão, Niemeyer recebeu Evando em seu escritório.

“Meu encontro com ele foi emocionante. Nós ficamos uma hora conversando. Nunca vou me esquecer do que ele me disse: ‘Essa é uma das melhores ideias do Brasil. O livro é a base de uma sociedade próspera’”, lembrou. “Imagina eu, um pedreiro, filho de mãe solteira, chegando ao Rio sem saber escrever e ter o prazer de falar com o poeta do traço foi uma grande emoção, a maior emoção de meu trabalho livresco, ter o prazer de falar com o gênio, o maior arquiteto do mundo.”

Com o projeto em mãos, Evando continuou lutando para tirá-lo do papel até que em 2003 o então ministro da Cultura do governo de Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, visitou a biblioteca e autorizou a captação de recursos. Em 2006, já no governo Lula, com financiamento de R$ 651 mil do BNDES, a obra finalmente foi iniciada em um terreno próximo a casa de Evando. Em 14 de dezembro de 2008, foi inaugurado o novo prédio da biblioteca.

O prédio projetado por Oscar Niemeyer tem três andares em uma área de 280 metros quadrados aproximadamente. Além do salão com os livros, a biblioteca conta com duas salas de aula, um auditório e um pequeno museu. Evando mantém apenas com doações de pessoas próximas e cuida sozinho da limpeza do espaço.

O pedreiro lembra com respeito e admiração do arquiteto que, segundo ele, sempre foi solícito em atendê-lo nas três vezes que foi necessária a assinatura de Niemeyer para a execução do projeto.

“Nós tínhamos um homem que não tinha ‘burrocracia’. Quando a obra da biblioteca começou, toda vez que precisávamos da assinatura de Oscar Niemeyer em documentos, a minha mulher Maria José ligava para o escritório e, duas horas, depois o papel já estava assinado para ser levado aos órgãos públicos”, afirmou. “Nunca a deixou esperar. Quando se tratava da biblioteca, ele fazia questão de recebê-la.”

 “Em um país que para você conversar com o senhor prefeito, com o senhor governador sobre livro e leitura é quase impossível, o maior gênio do mundo não só recebia, como assinava tudo”, contou o pedreiro.

Velório em Brasília

O corpo do arquiteto foi embalsamado durante a madrugada de hoje no laboratório da Santa Casa de Misericórdia, no bairro de Inhaúma, na zona norte do Rio. No início da manhã, foi levado em cortejo de volta ao hospital.

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No local, foi realizada uma breve missa apenas para familiares, com duração de cerca de 20 minutos. "Sempre que alguém faleceu na família, ele mesmo convocou o padre para fazer missas. A mulher dele é muito católica", afirmou Ana Lúcia.

De acordo com informações do hospital, por volta das 11h o corpo será levado, também em cortejo, para o Aeroporto Santos Dumont, de onde seguirá para Brasília em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira), que deve sair ao meio-dia. O velório será no Palácio do Planalto.

A família também fará um velório aberto ao público no Rio de Janeiro, a partir das 8h de sexta-feira (7), no Palácio da Cidade. Haverá uma missa ecumênica às 16h, e o enterro deve ocorrer depois disso, no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

O Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), fez hoje um minuto de silêncio em memória do arquiteto. A homenagem, a pedido do governo brasileiro, serviu para lembrar o prêmio Unesco que ele recebeu em 2001, na categoria Cultura. Niemeyer participou da concepção da sede das Nações Unidas em Nova York, matriz da Unesco e projeto de seu mestre, Le Corbusier.

Infecção respiratória

O médico intensivista e clínico Fernando Gjorup, que nos últimos anos foi o médico do arquiteto, disse que Niemeyer morreu às 21h55 ao lado membros da família, entre eles netos e sobrinhos.

"De ontem para hoje, o paciente apresentou uma piora. Os exames de sangue já vinham mostrando isso. Hoje pela manhã, o estado de saúde piorou ainda mais e ele precisou da ajuda de aparelhos para respirar", disse Gjorup.

Muito abalado, o médico declarou que o arquiteto morreu vítima de infecção respiratória.

Gjorup declarou ainda que Niemeyer, neste último mês, onde ficou internado por 33 dias no Hospital Samaritano, nunca falou em morte, sempre falou da vida. "Ele teve que ser entubado e ventilado por aparelho e à noite ele não tolerou e veio a falecer".

Niemeyer foi um dos principais expoentes da arquitetura moderna e projetou o Brasil internacionalmente. O carioca ganhou reconhecimento a partir da exploração das possibilidades plásticas e construtivas do concreto armado, produzindo obras grandiosas e inventivas, marcadas pelo abuso de curvas em detrimento das linhas e ângulos retos.

Relembre a trajetória do arquiteto
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Suas obras --prédios públicos e privados, monumentos, esculturas e igrejas-- marcam a paisagem das principais cidades brasileiras e espalham-se por vários países do mundo, como Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália, Argélia, Israel e Cuba, entre outros.

Niemeyer projetou grande parte das obras de Brasília, entre elas a praça dos Três Poderes, os prédios do Congresso Nacional, do STF (Supremo Tribunal Federal) e o Palácio do Planalto.

Considerado um revolucionário e um dos pais do modernismo na arquitetura, Niemeyer, um comunista ferrenho, seguiu trabalhando até praticamente o fim de seus dias.

Em São Paulo, projetou o Memorial da América Latina, o edifício Copan e as construções do Parque do Ibirapuera; no Rio, concebeu o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e a Marquês de Sapucaí; em Belo Horizonte, projetou todo o Conjunto Arquitetônico da Pampulha.

O arquiteto desenhou também esculturas e mobílias, escreveu livros e, depois do centenário, lançou até um disco de samba. Marxista convicto, militou no PCB (Partido Comunista Brasileiro) durante várias décadas, mudou-se para a França durante a ditadura militar e manteve amizade com Luís Carlos Prestes e Fidel Castro.

O adeus a Niemeyer
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Últimos anos

A mulher do arquiteto, Annita, morreu em 2004; dois anos depois, Niemeyer casou-se com Vera Lúcia, que era sua secretária.

Em 2007, ao completar cem anos, Niemeyer recebeu diversas homenagens e foi tema de muitas exposições e eventos. No ano seguinte, fundou no Rio a revista "Nosso Caminho". Dois anos depois, aventurou-se no mundo da música, com o disco de samba de raiz "Tranquilo com a Vida", gravado em parceria com seu enfermeiro Caio Almeida e com o músico Edu Krieger.

Também em 2008 foi inaugurada uma escultura do brasileiro em homenagem ao povo cubano na Universidade de Ciências Informáticas de Havana, um presente de Niemeyer ao líder Fidel Castro.

Em 25 de março de 2011, foi inaugurado em Avilés, na Espanha, o Centro Cultural Oscar Niemeyer, mas o espaço foi fechado nove meses depois, por determinação do governador da província. O fechamento irritou Niemeyer e provocou protestos na cidade.

No dia 8 de fevereiro de 2012, em sua última grande aparição em público, o arquiteto acompanhou a inauguração do sambódromo do Rio, que havia passado por reformas de ampliação e adequação da obra ao projeto original. Na ocasião, foi aplaudido por operários da obra e agradeceu: "Estou muito feliz. Essa obra não é só minha, é do grupo que trabalha comigo. Estou muito contente e entusiasmado em ver um trabalho como esse, que foi feito para alegrar o povo."

Niemeyer deixa uma filha netos, bisnetos e trinetos. Sua filha, Anna Maria, morreu em junho, aos 82 anos, por complicações decorrentes de um enfisema pulmonar.