Oscar Niemeyer

Secretário-geral da ONU destaca "senso de humanismo e engajamento global" de Niemeyer

Do UOL, no Rio

  • Divulgação/Fundação Oscar Niemeyer

    Sede da ONU, em Nova York, projetada por um grupo de arquitetos em 1952, que contou com a participação de Oscar Niemeyer

    Sede da ONU, em Nova York, projetada por um grupo de arquitetos em 1952, que contou com a participação de Oscar Niemeyer

O secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, afirmou em nota nesta quinta-feira (6) que o que fez de Oscar Niemeyer um "excelente arquiteto", além do "vigor e talento", foi "um forte senso de humanismo e engajamento global".

Niemeyer foi internado no dia 2 de novembro no Hospital Samaritano, na zona sul do Rio de Janeiro, com complicações renais e desidratação. Por causa de uma infecção respiratória, o arquiteto, que estava na unidade intermediária do hospital, ficou sedado e respirava com auxílio de aparelhos. Niemeyer, que completaria 105 anos no dia 15 deste mês, morreu às 21h55 de quarta-feira (5).

"Fiquei entristecido ao saber da morte de Oscar Niemeyer, figura de destaque e um dos arquitetos da Sede das Nações Unidas em Nova York. A carreira de Niemeyer foi excepcionalmente longa e ilustre", afirmou o secretário-geral da ONU.

Ele relembrou o sentimento de admiração relativo a suas obras modernistas em Brasília, reconhecidas como Patrimônio Mundial da Unesco, destacando ainda a sede das Nações Unidas. "No momento em que a equipe das Nações Unidas em Nova York volta dos alojamentos temporários para nosso complexo recentemente renovado, nos maravilhamos novamente com sua visão ao criar uma casa bonita e inspiradora na qual realizamos nosso trabalho de servir a toda a humanidade", disse.

O avião com o corpo de Oscar Niemeyer chegou na tarde desta quinta-feira (6) a Brasília, vindo do Rio de Janeiro. O arquiteto é velado no Palácio do Planalto desde as 15h. O público poderá acompanhar das 16h às 20h. O corpo tem previsão de embarcar de volta para o Rio às 22h.

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No início da manhã, Niemeyer foi levado em cortejo de volta ao Hospital Samaritano, em Botafogo, zona sul da capital.

Segundo o neurocirurgião Paulo Niemeyer, sobrinho de Oscar Niemeyer, a própria presidente Dilma Rousseff entrou em contato com a família e ofereceu o Palácio do Planalto como local para velar o corpo do arquiteto. A capital federal é considerada a maior realização de Niemeyer.

O enterro deve ocorrer na sexta-feira (7) à tarde, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, esteve no Hospital Samaritano prestando os pêsames à família. Segundo ele, após o velório na capital federal, o corpo de Niemeyer retornará ao Rio e será velado no Palácio da Cidade, sede da prefeitura, em Botafogo, que ficará aberta à visitação pública.

Paes decretou luto oficial de três dias na cidade.

O Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) fez hoje um minuto de silêncio em memória do arquiteto. A homenagem, a pedido do governo brasileiro, serviu para lembrar o prêmio Unesco que ele recebeu em 2001, na categoria Cultura. Niemeyer participou da concepção da sede das Nações Unidas em Nova York, matriz da Unesco e projeto de seu mestre, Le Corbusier.

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Infecção respiratória

O médico intensivista e clínico Fernando Gjorup, que nos últimos anos foi o médico do arquiteto, disse que Niemeyer morreu às 21h55 ao lado membros da família, entre eles netos e sobrinhos.

"De ontem para hoje, o paciente apresentou uma piora. Os exames de sangue já vinham mostrando isso. Hoje pela manhã, o estado de saúde piorou ainda mais e ele precisou da ajuda de aparelhos para respirar", disse Gjorup.

Muito abalado, o médico declarou que o arquiteto morreu vítima de infecção respiratória.

Gjorup declarou ainda que Niemeyer, neste último mês, onde ficou internado por 33 dias no Hospital Samaritano, nunca falou em morte, sempre falou da vida. "Ele teve que ser entubado e ventilado por aparelho e à noite ele não tolerou e veio a falecer".

Vida e obra

Niemeyer foi um dos principais expoentes da arquitetura moderna e projetou o Brasil internacionalmente. O carioca ganhou reconhecimento a partir da exploração das possibilidades plásticas e construtivas do concreto armado, produzindo obras grandiosas e inventivas, marcadas pelo abuso de curvas em detrimento das linhas e ângulos retos.

Suas obras --prédios públicos e privados, monumentos, esculturas e igrejas-- marcam a paisagem das principais cidades brasileiras e espalham-se por vários países do mundo, como Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália, Argélia, Israel e Cuba, entre outros.

Niemeyer projetou grande parte das obras de Brasília, entre elas a praça dos Três Poderes, os prédios do Congresso Nacional, do STF (Supremo Tribunal Federal) e o Palácio do Planalto.

Considerado um revolucionário e um dos pais do modernismo na arquitetura, Niemeyer, um comunista ferrenho, seguiu trabalhando até praticamente o fim de seus dias.

O adeus a Niemeyer
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Em São Paulo, projetou o Memorial da América Latina, o edifício Copan e as construções do Parque do Ibirapuera; no Rio, concebeu o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e a Marquês de Sapucaí; em Belo Horizonte, projetou todo o Conjunto Arquitetônico da Pampulha.

O arquiteto desenhou também esculturas e mobílias, escreveu livros e, depois do centenário, lançou até um disco de samba. Marxista convicto, militou no PCB (Partido Comunista Brasileiro) durante várias décadas, mudou-se para a França durante a ditadura militar e manteve amizade com Luís Carlos Prestes e Fidel Castro.

Últimos anos

A mulher do arquiteto, Annita, morreu em 2004; dois anos depois, Niemeyer casou-se com Vera Lúcia, que era sua secretária.

Em 2007, ao completar cem anos, Niemeyer recebeu diversas homenagens e foi tema de muitas exposições e eventos. No ano seguinte, fundou no Rio a revista "Nosso Caminho". Dois anos depois, aventurou-se no mundo da música, com o disco de samba de raiz "Tranquilo com a Vida", gravado em parceria com seu enfermeiro Caio Almeida e com o músico Edu Krieger.

Também em 2008 foi inaugurada uma escultura do brasileiro em homenagem ao povo cubano na Universidade de Ciências Informáticas de Havana, um presente de Niemeyer ao líder Fidel Castro.

Em 25 de março de 2011, foi inaugurado em Avilés, na Espanha, o Centro Cultural Oscar Niemeyer, mas o espaço foi fechado nove meses depois, por determinação do governador da província. O fechamento irritou Niemeyer e provocou protestos na cidade.

No dia 8 de fevereiro de 2012, em sua última grande aparição em público, o arquiteto acompanhou a inauguração do sambódromo do Rio, que havia passado por reformas de ampliação e adequação da obra ao projeto original. Na ocasião, foi aplaudido por operários da obra e agradeceu: "Estou muito feliz. Essa obra não é só minha, é do grupo que trabalha comigo. Estou muito contente e entusiasmado em ver um trabalho como esse, que foi feito para alegrar o povo."

Niemeyer deixa uma filha netos, bisnetos e trinetos. Sua filha, Anna Maria, morreu em junho, aos 82 anos, por complicações decorrentes de um enfisema pulmonar.

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