Oscar Niemeyer

Amigo de Niemeyer diz que militares não tiveram coragem de prendê-lo na ditadura

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Fernando Maia/UOL

    Caixão com o corpo do arquiteto Oscar Niemeyer é velado no Palácio da Cidade, sede oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro

    Caixão com o corpo do arquiteto Oscar Niemeyer é velado no Palácio da Cidade, sede oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro

O empresário italiano Giorgio Veneziani, 86, que trabalhou com Oscar Niemeyer na construção do Palácio do Planalto e da Catedral de Brasília, onde ficaram amigos, falou, nesta sexta-feira (7), durante o velório do arquiteto no Palácio da Cidade, no Rio de Janeiro, sobre o período da ditadura militar no Brasil. Segundo o amigo, Niemeyer nunca foi preso porque "eles [os militares] nunca tiveram coragem".

À época, Niemeyer morava na Itália, exilado. "Mal ele chegava ao Brasil, os militares tiravam da gaveta um famoso processo de uma daquelas comissões militares de inquérito. Falavam para ele: 'o senhor disse que o Allende [presidente chileno deposto por golpe militar] é o melhor governante da América do Sul'. E ele respondia: 'sim, eu disse isso'. Só que eles nunca tiveram a coragem de prendê-lo", contou Veneziani.

Segundo o empresário, quando se sentiam incomodados com as declarações de Niemeyer, os militares chamavam pessoas próximas a ele e pediam que o arquiteto voltasse para a Europa. "E assim ele se expressava abertamente, como sempre se expressou."

Filho de fazendeiros no Rio de Janeiro, o arquiteto era defensor incansável da reforma agrária e do comunismo, que conheceu com o amigo Luiz Carlos Prestes na década de 1940 quando se filiou ao PCB (Partido Comunista Brasileiro). "Enquanto houver miséria e opressão, ser comunista é a nossa decisão", dizia o arquiteto que até o final da vida, reiterou sua revolta com a desigualdade do sistema capitalista.

Velório

O velório do arquiteto Oscar Niemeyer, que morreu aos 104 anos, na quarta-feira (5), foi fechado ao público às 15h20 desta sexta-feira (7). Desde as 8h, o Palácio da Cidade, a sede oficial da Prefeitura do Rio, em Botafogo, na zona sul, estava aberto para visitação.

Após o fechamento do local, começou a ser rezada uma missa ecumênica para os parentes e amigos. O enterro de Niemeyer está marcado para 17h, no Cemitério São João Batista, também em Botafogo.

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O corpo de Niemeyer chegou ao Palácio da Cidade por volta das 20h30 desta quinta-feira (6), e foi velado durante toda a madrugada em uma cerimônia restrita a familiares e amigos.

Na chegada ao Palácio da Cidade, o corpo foi recebido pela viúva, Vera Niemeyer, e pelo neurocirurgião Paulo Niemeyer, sobrinho do arquiteto. Eles não falaram com a imprensa.

O avião da Força Aérea Brasileira (FAB) com o corpo do arquiteto Oscar Niemeyer aterrissou às 22h04 desta quinta-feira (6) no Aeroporto Santos Dumont. Um carro funerário já aguardava na pista. O corpo foi transportado até o veículo por militares da Aeronáutica do 3º Comando Aéreo Regional (3º Comar).

O neto de Niemeyer, Carlos Oscar Niemeyer Magalhães, que trabalhou durante 13 anos no escritório do arquiteto, disse que a família ficou muito emocionada com o carinho das pessoas durante o velório em Brasília. Segundo ele, o avô lhe ensinou importantes lições de vida.

"Ele sempre dizia três coisa para a gente. A vida é um segundo, vamos viver a vida bem vivida, com os amigos e com a família. O mundo é injusto, temos que modificá-lo e fazer aquilo que a gente puder fazer de melhor para ajudar a corrigir as desigualdades sociais. E a outra coisa que ele dizia é que a palavra mais bonita é solidariedade."

Como administrador do escritório do avô, Carlos contou que nem sempre era fácil gerir as finanças: "Como comunista, a ligação dele com o dinheiro era nenhuma."

O neto justificou a escolha da família em fazer o enterro no Rio pelo amor que ele tinha pela cidade. "Ele era apaixonado pelo Rio de Janeiro, apesar de ter projetado Brasília e gostar muito de lá. Mas o Rio era a cidade dele."

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Na capital federal, o velório terminou por volta das 19h30, meia hora antes do previsto, a pedido da família do arquiteto, segundo a assessoria de imprensa do Planalto.

A justificativa dada foi o horário limite para pousos no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, para onde o corpo segue para também ser velado.

Sob aplausos e cantoria de trechos do Hino Nacional, o caixão desceu a rampa do Palácio do Planalto às 19h35.

O arquiteto morreu em decorrência de problemas respiratórios. Ele estava internado no Hospital Samaritano desde o dia 2 de novembro devido a complicações renais e desidratação.

Público

A fila das pessoas que queriam se despedir do arquiteto pessoalmente começou a se formar antes mesmo de o caixão chegar no Palácio do Planalto, em torno das 15h30. O acesso do público ao Salão Nobre foi liberado por volta das 16h30.

O pioneiro Tomás Mendes Vieira Neto, 76, foi um dos primeiros a ver de perto o arquiteto. Muito emocionado, ele conta que chegou a Brasília em 11 de abril de 1958, vindo de Floriano (PI), e participou da construção de algumas obras da cidade.
 
Certa vez, diz ter tido um breve contato com Niemeyer quando ele visitou o canteiro de obras onde Vieira Neto trabalhava. "Ele perguntou: 'vamos inaugurar dia 21 de abril?'. Eu respondi que poderia contar com esse peão."
 
O jornalista sueco Erik Jennische, que trabalha há dois anos no Brasil, também fez questão de prestar uma última homenagem a Niemeyer. "Estar aqui é uma honra, porque a importância dele é mundial. Brasília é uma cidade muito bela."
 

Homenagens

A presidenta Dilma Rousseff decretou luto oficial de sete dias pela morte de Oscar Niemeyer. As informações foram divulgadas pelo Palácio do Planalto.

Durante o luto oficial, a bandeira nacional é hasteada a meio mastro em todas as repartições públicas do governo que a decretou (federal, estadual ou municipal). Além disso, coloca-se um laço de crepe na ponta da lança se ela estiver sendo conduzida em alguma cerimônia.

Na chegada ao Palácio, o corpo foi recebido pela presidenta Dilma com a guarda de 48 Dragões da Independência. A presidente ficou ao lado da viúva do arquiteto, Vera Niemeyer, e deixou o local por volta de 16h15, acompanhada da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann.

A sessão plenária do Senado desta quinta-feira  foi suspensa a pedido do presidente da Casa, José Sarney, para que os senadores possam prestar suas homenagens .

"O Brasil morre um pouco com Niemeyer, e Niemeyer permanece vivo no coração de todos brasileiros", disse o senador Francisco Dornelles (PP-RJ).

A Câmara dos Deputados exibiu fotos do arquiteto nos painéis do Plenário Ulisses Guimarães, antes do início da sessão solene que devolveu, simbolicamente, os mandatos de 173 deputados federais cassados entre 1964 e 1977, durante o regime militar (1964-1985).

"Neste momento, estamos com o coração apertado pela perda de um gênio da arquitetura e do humanismo. Brasília tem uma identidade muito forte com Niemeyer e inúmeras obras deixadas por ele", disse o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz.

O também será homenageado pelo CAU-BR (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil), em solenidade no próximo dia 19, na capital federal. O evento vai comemorar o Dia do Arquiteto e Urbanista, celebrado em 15 de dezembro, quando Niemeyer completaria 105 anos. (Com Agência Brasil e da Agência Estadão Conteúdo)

O adeus a Niemeyer
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