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Cotidiano

Entidades protestam em área nobre de Campinas (SP) contra ordem da PM para abordar "pardos e negros"

Eduardo Schiavoni

Do UOL, em Americana (SP)

17/02/2013 17h33Atualizada em 17/02/2013 18h28

Vinte e duas entidades representativas do movimento negro realizaram neste domingo (17) no Parque Taquaral, área nobre de Campinas (93 km de São Paulo), protesto contra uma determinação dada por um capitão da Polícia Militar na cidade para que “pardos e negros” fossem abordados em operações realizadas na região.

"A ordem do capitão foi a prova escrita e assinada de que o racismo permeia a democracia brasileira e que sentimos todos os dias na pele”, disse Reginaldo Bispo, coordenador nacional do MNU (Movimento Negro Unificado), que participou do evento.

A PM em Campinas determinou, em uma OS (Ordem de Serviço) de 21 de dezembro, que seus integrantes abordassem jovens negros e pardos, com idade entre 18 e 25 anos, na região do Taquaral. Segundo a determinação, dirigida ao Comando Geral de Patrulhamento da região, pessoas que se enquadrem nessa categoria são consideradas suspeitas de praticar assaltos a casas na região e devem ser abordadas prioritariamente. A ordem foi dada pelo c apitão Ubiratan de Carvalho Góes Benducci.

No último dia 10, a  Defensoria Pública de São Paulo informou que vai entrar com um processo contra o comandante da Polícia Militar em Campinas, Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci, responsável por uma OS, por considerar o conteúdo racista.

Cópia da ordem de serviço da PM de Campinas

  • Reprodução

Protesto

Negros e brancos se misturavam no protesto. Para Adão Luiz Carlos, 59 anos, para quem a juventude negra é a que mais sofre nas mãos da polícia, é preciso um basta nesse tipo de conduta na corporação. “É triste ainda termos que organizar atos como esse, onde é preciso reforçar a igualdade racial. Estamos em um bairro de maioria branca e em uma cidade historicamente racista”, diz Carlos, membro do Coletivo de Combate ao Racismo, da CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Já a médica Ellen Machado Rodrigues, 32, a atitude do capitão da PM foi apenas uma “amostra escrita” do que a polícia faz na prática. “Atendo em postos de saúde um número muito maior de negros machucados em confronto com autoridades que o contrário”, relatou Rodrigues, que segurava um cartaz com os dizeres “Sou Suspeito”.

A PM em Campinas foi procurada para comentar o caso, mas informou que o responsável pelo atendimento à imprensa não trabalha aos domingos e só seria encontrado na segunda-feira (19) pela manhã.

Ações

Na semana passada, a Defensoria Pública de São Paulo protocolou uma denúncia administrativa à Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania contra a ordem expedida pelo comando da PM campineira.

Em 8 de fevereiro, o defensor público Bruno Shimizu fez uma representação à Procuradoria Geral de Justiça do Ministério Público do Estado. A peça argumenta que a ordem “identifica a imagem do cidadão negro com a de criminosos, o que é inadmissível”.

A determinação polêmica

A Ordem de Serviço da PM em Campinas, de 21 de dezembro, determinava que seus integrantes abordassem jovens negros e pardos, com idade entre 18 e 25 anos, na região do bairro Taquaral, uma das áreas mais nobres da cidade. Segundo a determinação, dirigida ao Comando Geral de Patrulhamento da região, pessoas que se enquadrem nessa categoria são consideradas suspeitas de praticar assaltos a casas na região e devem ser abordadas prioritariamente.

A orientação foi passada de forma oficial, em papel timbrado da PM, assinada pelo capitão Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci, e pedia ainda que os policiais focassem “abordagens a transeuntes e em veículos em atitude suspeita, especialmente indivíduos de cor parda e negra, com idade aparentemente de 18 a 25 anos, os quais sempre estão em grupo de 3 a 5 indivíduos na prática de roubo a residência daquela localidade”.

À época, a instituição negou cunho racista e disse que se baseou em uma carta de moradores para ter a descrição dos suspeitos e determinar as abordagens.

Alckmin diz que PM poderia descrever suspeito loiro

Após a polêmica, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) se manifestou sobre o assunto e disse que, para ele, o caso não indicava racismo, por se tratar apenas da caracterização física de um grupo específico de supostos criminosos e que, se fosse o caso, ela poderia indicar um suspeito loiro ou asiático.

"O que houve foi um assalto ocorrido num bairro. Você tem um suspeito feito pelas características. É como se dizer: 'Olha, teve um assalto aqui e o suspeito é um loiro, uma pessoa loira. Ou o suspeito é uma pessoa japonesa, asiática'. Enfim, o suspeito era uma pessoa de cor parda", disse Alckmin.

"Mas [esse foi] um caso específico, onde havia um suspeito. Não há nenhuma forma de discriminação", ressaltou o governador, acrescentando que, se fosse constatado preconceito, "a punição seria rigorosíssima".

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