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Lama, entulho e ajuda precária dificultam volta à rotina em bairros inundados de Cubatão (SP)

Móveis, eletromésticos e aparelhos sanitários se acumulam num dos corredores que separam casas do bairro Pilões, em direção ao rio de mesmo nome em Cubatão - Rafael Motta/UOL
Móveis, eletromésticos e aparelhos sanitários se acumulam num dos corredores que separam casas do bairro Pilões, em direção ao rio de mesmo nome em Cubatão Imagem: Rafael Motta/UOL

Rafael Motta

Do UOL, em Cubatão (SP)

28/02/2013 13h57

As famílias que invadiram 770 casas e apartamentos erguidos pelo governo de São Paulo e pela prefeitura de Cubatão (56 km de São Paulo) deverão ser notificadas judicialmente, até o fim da tarde desta quinta-feira, a deixar os imóveis, invadidos no fim de semana, após o temporal registrado entre sexta-feira (22) e sábado (23).

No conjunto habitacional Imigrantes 2, a notícia chegou hoje cedo. Por volta das 8h, Tatiana Silva, 27, que ocupa um apartamento com o marido e os quatro filhos, havia acabado de assistir a um telejornal local e retransmitiu a informação a vizinhos –a de que Estado e município conseguiram liminares (decisões provisórias), às 16h15 de ontem (27), para a reintegração de posse dos imóveis.

Tatiana é uma das desabrigadas pela chuva e que dizem ter perdido o que possuíam com a inundação e a entrada de lama nas casas. Ela mora em Pilões, um dos bairros mais afetados na cidade, à beira de um rio e no sopé da Serra do Mar, num trecho às margens da Via Anchieta. Os conjuntos ocupados ficam no Bolsão 9, na interligação das rodovias Anchieta e Imigrantes.

As famílias ouvidas pelo UOL na manhã desta quinta-feira dizem ser de Pilões e Água Fria. Os núcleos ainda não foram desocupados porque os conjuntos habitacionais destinados a famílias cadastradas seguem em obras. Nos prédios, não há ligação elétrica. A água chega aos apartamentos com baixa pressão, e o encanamento, por força do uso contínuo, começa a entupir.

Vizinhos

Essa situação faz com que, mesmo ocupando um apartamento no quarto andar do Imigrantes 2, o borracheiro Cláudio Roberto da Silva, oriundo de Pilões, continue em meio a um alagamento. Para comer, ele e outros ocupantes têm recebido ajuda de vizinhos do conjunto ao lado, no Bolsão 8, ocupado regularmente. É assim que botijões de gás, fogões usados e água chegam aos invasores.

Veja imagens de desabrigados pelas chuvas em Cubatão (SP)

“As doações não chegam até aqui. Não estão dando água, roupa nem comida para a gente”, relatou Silva, desconfiado de que se trata de uma estratégia do poder público para forçar a saída de todos. A prefeitura informa que a ajuda só chega a moradores cadastrados. “Nós viemos para cá enquanto nossa situação não se resolve. Se mandarem a gente sair, não tem jeito: vamos para um abrigo.”

O casal Tatiana Pereira Gomes, 31, e Alonso Ferreira Barros, 30, ocupa uma das casas ainda não terminadas da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano). Com três filhos entre 2 e 9 anos de idade, dormem em colchões numa sala e improvisaram uma cozinha com um fogão enferrujado e um botijão que lhes foi doado.

“Não temos como ir para um abrigo, por causa das crianças. Para a casa de parentes, também não. Os acampamentos [alojamentos] já têm muita gente. Não temos como voltar [para Pilões]. Ainda estamos esperando ser cadastrados pela prefeitura”, disse Tatiana, esperançosa de conseguir, ao menos, o auxílio-aluguel inicialmente estabelecido em R$ 400.

Em Pilões, lama

Moradores de Pilões ainda limpam a sujeira e recolhem o entulho que a chuva e o transbordamento do rio Pilões provocaram no último fim de semana. O caminho que dá acesso às casas, a partir da via Anchieta e após terminais de contêineres e uma instalação da Transpetro (Petrobras), permanece parcialmente alagado.

Parte das casas e dos barracos de alvenaria não fica no mesmo nível da rua: aos fundos da via principal e em direção ao rio, há construções juntas umas das outras e até três metros abaixo do caminho. Mesmo nas edificações mais antigas, a água causou estragos.

A vendedora ambulante Irismar de Souza Alves escapou pela janela de um cômodo dos mais de dois metros de água que invadiram sua casa na noite de sexta-feira (22). Ainda hoje, recolhia móveis apodrecidos e eletrodomésticos inutilizados.

“Moramos aqui há 25 anos e nunca vimos isso”, declarou o marido de Irismar, o soldador Jones Alves de Souza. “Mas jamais invadiria o que não é meu. Espero em Deus”, continuou, afirmando que a família pretende continuar em Pilões, onde está desde que construiu “um barraquinho”.

Desabrigados em Cubatão invadem apartamentos da prefeitura

Fim do guarda-roupa

Nas casas mais próximas do rio, o estrago foi pior. Um corredor por onde ainda passa água suja continuamente está tomado por entulho. A pequena sala do barraco da desempregada Cleusa Raquel de Souza Borba virou um depósito de objetos destruídos. “Meu genro me tirou daqui por um buraco no teto. Minha geladeira está lá, em cima de um telhado”.

Sua filha, Andreia Michelle de Souza Borba, 34, mora há 17 anos numa casa ao lado com o marido, recentemente desempregado, e quatro filhos. Tudo está tomado pela lama. Roupas estão empilhadas no quarto, pois a chuva deu fim ao guarda-roupa.

“A única coisa que recebemos da prefeitura foi material de higiene e esse colchão [de espuma, com menos de dez centímetros de espessura, ainda envolto em plástico]”.

“A máquina de lavar, que custou R$ 1.200 e compramos com o dinheiro da rescisão do meu marido, queimou. Você vê: ou a gente morre na enxurrada, com o deslizamento do morro ou a queda de uma pedra. Minha filha de 4 anos pergunta quando a gente vai morar numa casa limpa, com roupa limpa. O que vou fazer aqui neste lugar?”, disse Andreia.

Prefeitura: ajuda federal

Cubatão ainda tem cerca de 420 desabrigados, divididos em 132 famílias que continuam pernoitando e fazendo refeições em cinco alojamentos –o principal deles, o Centro Esportivo Castelo Branco, no Centro. Outras pessoas cadastradas (ao todo, por volta de 1.500, contando-se os desabrigados) ainda recebem alimentos, kits de higiene e outras doações recebidas pela prefeitura.

Segundo o diretor de Segurança Pública de Cubatão, Genivaldo Brandão, 15 mil famílias (entre 35% e 40% dos aproximadamente 120 mil habitantes) foram afetadas pela chuva, em diferentes níveis de intensidade. Contudo, a maior gravidade registrada, em Água Fria e Pilões, é a de que 35 casas não poderão mais ser ocupadas.

“Enviaremos esses números hoje à Defesa Civil Nacional. Eles embasarão de quanto dinheiro precisaremos para a situação na cidade. Água Fria e Pilões não deveriam mais existir, mas, enquanto não se constroem moradias na mesma velocidade das necessidades, abrimos a exceção de autorizar parte das pessoas a voltar para suas casas, o que reduzirá despesas”, citou Brandão.

As donas de casa Maria do Socorro Silva de Souza, 41, e Dayane França da Silva, 19, estão no Castelão e não têm como voltar para a Água Fria. E não sabem se aceitarão o auxílio-moradia. “É de R$ 400. Meu marido, pedreiro, é fichado [registrado] com R$ 900. Como pagar aluguel, condomínio e comprar móveis? A gente ia viver de água e salsicha”, afirmou Maria.

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