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Cotidiano

Com 6 graves acidentes em abril, motoristas de ônibus no Rio reclamam de pouco treinamento

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

27/04/2013 06h00

Apenas em abril, foram registrados pelo menos seis grandes acidentes envolvendo ônibus urbanos na região metropolitana do Rio de Janeiro. Na última quinta-feira (25), um acidente envolvendo quatro ônibus e dois veículos de passeio em Niterói deixou 25 pessoas feridas. Para os motoristas, parte do problema se deve ao despreparo e falta de treinamento dos profissionais.

Segundo o Rio Ônibus (Sindicato das Empresas de ônibus do Rio), uma vez contratados, os motoristas realizam obrigatoriamente um curso de 40 horas, previsto por lei pela resolução 168 do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) e ministrado por professores do Detran (Departamento Estadual de Trânsito).

As aulas incluem direção defensiva, primeiros-socorros, relações humanas e legislação do trânsito, e o curso precisa ser refeito a cada cinco anos, com carga horária menor, de 16 horas. A empresa afirma que também é realizado um treinamento veicular antes do profissional ir às ruas com passageiros.

Clique na foto para ver os principais acidentes com ônibus no Rio

  • Zulmair Rocha/UOL

O motorista Pedro dos Santos, 42, motorista da linha 158 --que vai da Gávea, na zona sul do Rio, à estação Central--, confirma o treinamento, mas diz que ele é insuficiente frente aos problemas enfrentados no dia a dia da profissão. “A gente passa uma ou duas semanas fazendo um curso, depois treina um pouco na garagem, mas é só. Não tem uma assistência, alguém que pense no nosso psicológico”, diz.

Um motorista da linha 172 --que vai da Rodoviária Novo Rio ao Leblon, na zona sul--, que preferiu não se identificar, faz coro a Santos e reclama do despreparo. “Tem treinamento, mas não é suficiente. O camarada tem que aprender na prática. O itinerário dessa linha que eu faço hoje eu aprendi fazendo”, diz, ao explicar que teve orientação sobre as linhas que sua empresa opera apenas uma vez, antes de começar a trabalhar.

“Hoje, o despreparo é enorme, eles chamam qualquer um com carteira D pra ser motorista, é só ver os anúncios. O cara entra sem saber como funciona a coisa. Antes de ir para o volante, fui cobrador, tinha alguma experiência”, lembra.

O diretor de comunicação do Sintraturb, sindicato que representa os motoristas e cobradores, Gersón Batista, diz que cursos de reciclagem são raros e mesmo o treinamento obrigatório é feito a “toque de caixa”, para que os profissionais possam ir logo para as ruas. “Uma ou outra empresa dão cursos de reciclagem, mas são poucas. Mesmo os psicólogos só existem quando a pessoa entra, para fazer a admissão. Em 40 horas, a pessoa não aprende a lidar com o público”, afirmou. 

Pressão e jornadas exaustivas

Antes de ser motorista, Pedro dos Santos trabalhava como cobrador numa rotina que totaliza cerca de 20 anos de serviços prestados ao transporte público carioca. Ele trabalha ao menos dez horas por dia para cumprir a a jornada diária de quatro viagens de ida e volta entre os pontos finais da sua linha, num percurso aproximado de 20 km por trecho e 160 km ao dia.

“Isso quando não tem dobra. Daí, já viu, são 20 horas atrás do volante”, diz, ao se referir às duplas jornadas, prática comum entre os colegas. Cada dobra significa um acréscimo de R$ 100 ao salário, que, no caso de Pedro, motorista pleno, é de R$ 1.747,44 sem os descontos.

Profissionais em início de carreira ganham R$ 1.477,49, enquanto os motoristas que dirigem os coletivos articulados nas faixas seletivas de BRT recebem R$ 2.097 e os cobradores, R$ 964,31.

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“Dobro de acordo com a necessidade, mas o dinheiro está curto, a gente precisa”, diz Santos, que chega a dobrar até três vezes em algumas semanas. Ele culpa o estresse do trânsito e a pressão que ele e os colegas sofrem pelo alto número de acidentes com coletivos registrados no Rio.

“Tenho 42, mas com cara de 60. O trabalho é estressante, corrido. A gente quer trabalhar direitinho, mas não consegue”, afirma. “Esses acidentes todos são por isso, é muita pressão.”

Ao contrário de Santos, o motorista da linha 172 não dobra – “não vale a pena” -, mas também não consegue deixar o serviço dentro das sete horas que a lei estabelece como jornada obrigatória para quem faz esse tipo de serviço.

Ele, que também faz o papel do cobrador, precisa fazer três viagens completas e chega a levar duas horas por trecho de acordo com o trânsito, trabalhando uma média de dez a 12 horas por dia.

Outro fator apontado pelo motorista como um agravante à pressão que dirigir em uma cidade do porte do Rio de Janeiro causa por si só é a política de metas da empresa, que transforma os colegas de linha em concorrentes. No caso dele, é preciso conseguir 200 passageiros “pagantes” ao dia – quem não fecha a meta é obrigado a ficar em casa e tem a diária descontada do salário.

O Rio Ônibus argumenta que, dentro de uma frota de 8.700 ônibus e de um efetivo de 17 mil motoristas, “situações inadequadas podem existir, mas constituem exceções e não a regra”. O sindicato patronal afirma ainda, em nota, que as empresas de ônibus têm metas de produtividade “escolhidas dentro de critérios razoáveis e legítimos, que não contrariam a convenção coletiva e a legislação trabalhista”. “Não é o caso de metas de passageiros pagantes, prática que, se de fato existe, é tão reprovável quanto inviável, visto que baseada em um controle ineficaz."

Responsabilização por infrações

Entrou em vigor na última quarta-feira (24) uma medida que obriga as empresas dos quatro consórcios de ônibus do Rio de Janeiro a identificar motoristas, cobradores e permissionários autuados por infrações disciplinares ou do CTB (Código de Trânsito Brasileiro).

O objetivo do governo municipal é dar uma resposta aos sucessivos casos de acidentes envolvendo ônibus. Segundo a resolução da SMTR (Secretaria Municipal de Transportes), quanto a infrações previstas pelo código disciplinar da prefeitura, as empresas têm prazo máximo de dez dias para identificar o funcionário e notificar o órgão municipal. Já as irregularidades na forma do CTB seguem a legislação vigente.

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