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Cotidiano

Moradores de bairro "rural" que receberá Jornada no Rio ignoram visita do papa

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

23/05/2013 06h00

A cerca de 60 km do centro do Rio de Janeiro, Guaratiba, bairro que irá receber a vigília e a missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude, passa longe das imagens tradicionalmente associadas à capital fluminense e lembra uma cidade rural --e pobre.  Há vacas pastando, galinhas correndo pelas ruas e crianças jogando bola ao lado de valas de esgoto a céu aberto e ruas, em sua maioria, sem calçamento. Mesmo a visita do papa Francisco ao bairro não anima muito os moradores. 

Guaratiba ostenta um dos piores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) da cidade --118º entre 126 locais ranqueados, segundo dados do IPP (Instituto Pereira Passos)--, à frente apenas de Santa Cruz e de bairros como Rocinha, Jacarezinho, Maré, Acari, Costa Barros e Complexo do Alemão. 

O IDH é um índice calculado anualmente pela ONU (Organização das Nações Unidas) para medir o desenvolvimento humano dos países. Com variação em uma escala de 0 a 1, o índice é considerado mais elevado quanto mais próximo de 1. A Noruega, por exemplo, é o país com melhor IDH, com 0,955.

Há ainda áreas dominadas por milícias, situação que preocupa o governo do Estado, que tem realizado uma série de operações para reprimir o poder paralelo na região e prendeu seis pessoas no bairro na última semana.

A operação teve apoio da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, da Primeira Central de Inquéritos do Ministério Público Estadual e da Corregedoria da Polícia Militar. Segundo a secretaria, no entanto, a operação não tem relação com a visita do papa ao Rio e faz parte de uma investigação iniciada a partir de denúncias de moradores há oito meses.

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Bairro evangélico

Na comunidade do Piraquê, a cerca de 200 metros do Campus Fidei (Campus da Fé), nome com que foi batizado o terreno onde irá acontecer o evento católico, boa parte das pessoas não sabe quando será a missa ou não pretende sequer passar por lá no dia 28 de julho.

É o caso da dona de casa Sonia Albuquerque, 46, moradora da favela. “Ele vem?”, questiona, surpresa com a notícia. Graça de Araújo, que trabalha na rua Jece Valadão, do outro lado da estrada da Matriz, que separa o Campus Fidei da favela, faz coro a Sonia: “Ouvi dizer que é aqui em Guaratiba, mas não sei.”

O número de igrejas evangélicas é outro fator que chama a atenção no bairro. A reportagem contou ao menos 20 templos pentecostais das mais diversas denominações nos arredores do Campus Fidei, contra apenas três paróquias católicas.

Como o IPP ainda está consolidando os dados sobre o perfil religioso dos moradores da região, não é possível afirmar se esse número se tornou maior do que o de católicos, estimado em 50 a 59% da população do bairro, conforme dados do Censo de 2000, contra 25% de evangélicos.

A babá Maria Denise de Lins, 25, é a única interessada na visita do papa em sua casa. Católica, ela diz que os familiares são todos evangélicos e não têm interesse em acompanhar o pontífice.

“Se eu for ver a missa, vai ser daqui de longe”, diz, ao mostrar a laje da casa, que conta com uma vista privilegiada para o terreno que irá receber os cerca de 2 milhões de romeiros que devem participar do encontro.

Canteiro de obras

Além da capacidade do bairro receber tanta gente, alguns moradores questionam o legado que um evento desse porte irá deixar. Ciralino Montanari de Faria, 69, dono de um bazar na beira da estrada da Matriz, vê as dezenas de caminhões que entram e saem do terreno que irá receber a jornada diariamente com ceticismo. “Por enquanto, só trouxe poeira”, diz. 

 “Esse é o cartão de visitas do bairro. O povo fica no ponto de ônibus comendo poeira, tá pior do que a avenida Brasil para atravessar. Não tem ciclovia, mal tem meio fio, falta esgoto”, diz, enquanto aponta para a avenida, coberta de barro dos dois lados. “Arrumaram a sala de visitas e esqueceram o hall de entrada.”

SEGURANÇA DO PAPA

  • Gregorio Borgia/AP

    Mais de 60 policiais estarão envolvidos na segurança pessoal do papa Francisco durante a agenda da JMJ. Entre os agentes selecionados, uma equipe de 15 a 25 policiais se revezará na segurança aproximada

O motorista de van Marcelo de Souza vai mais longe: “Só mudou o matagal. Camuflaram algumas ruas, mas não é obra para durar. A primeira chuva que der acaba tudo.” Para ele, o bairro não tem estrutura para receber um evento desse porte. “Não vai dar vazão. Já estamos preparados, vai ser o caos”, disse.

Dona de um bar próximo ao local onde está sendo construído o palco da missa, Aparecida Matias, 39, teve a rua ao lado da sua casa, principal acesso ao portão que fica em frente a área do palco, asfaltada há pouco tempo, mas segue receosa.

“Melhora de um lado, piora de outro. Esse asfalto mesmo foi feito de qualquer jeito”, afirmou. Católica, ela tem planos de ver o papa de perto e está feliz com a visita, mas diz saber como funcionam as coisas na região. “Vão fazer uma maquiagem, arrumar um pouco aqui e ali, mas depois volta tudo a ser como era antes.”

Segundo a subprefeitura da zona oeste, a Secretaria de Conservação e Serviços Públicos concluiu na semana passada serviços de recapeamento na estrada Capoeira Grande, e agentes da prefeitura executaram trabalhos numa área de 26 mil metros quadrados, com utilização de 3.000 toneladas de massa asfáltica, além de estar realizando obras em outros pontos da região. A subprefeitura informou ainda que a Secretaria de Obras está dragando o rio Piraquê e fará intervenções urbanísticas no local.

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