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Moradores do Alemão dizem que favela é segura "só no jornal"

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

27/05/2013 17h08

Apesar de a polícia afirmar que os conflitos recentes no Complexo do Alemão (zona norte do Rio) são uma reação de alguns traficantes que permanecem no morro para desestabilizar as Unidades de Polícia Pacificadora e que a situação está sobre controle, moradores ouvidos pelo UOL relatam um cotidiano de medo.

Dono de um bar no alto de um dos morros que compõem o complexo, J., que preferiu não se identificar, passou parte da noite de quarta-feira escondido atrás de uma escada de concreto com o filho de 10 anos enquanto policiais e criminosos trocavam tiros em frente  a sua casa, na região conhecida como Alvorada.

As balas chegaram a perfurar a porta de metal e deixaram marcas na fachada e em uma das paredes do estabelecimento.

Nascido no Espírito Santo o comerciante, de 66 anos, mora no complexo há quatro décadas e minimiza o tiroteio. “Quem é morador de comunidade está acostumado a passar por esses problemas.”

Para ele, que ficou sabendo pela televisão de um novo tiroteio no domingo, pouco antes do Desafio pela Paz --corrida de rua organizada pelo grupo AfroReggae em que os atletas percorreram parte do trajeto utilizado pelos traficantes que fugiram do morro durante a ocupação da polícia em 2010--, a instauração das UPPs não mudou muita coisa.

“Diminui um pouco, mas a bandidagem continua aí”, diz. “Procuro fazer meu trabalho e não fazer muitas perguntas. Se é bandido, se é polícia, eu trato igual.”

Vizinho a J., outro comerciante, que também preferiu não se identificar, conta que já fechou as portas ao menos três vezes esse ano devido a ordens do tráfico e questiona a capacidade do governo de acabar com o poder paralelo na favela .

“Como é que a polícia com todo o armamento e apoio que tem não é capaz de expulsar os bandidos? Aqui não existe isso de pacificação.”

Ele conta que não trabalhou na quinta-feira a contra gosto depois que um menino passou mandando fechar as portas e outros moradores sofrem com a pressão tanto da polícia quanto do trafico.

“Disseram para a gente não vender para os policiais da UPP, daí vieram uns policiais tomar sorvete e eu expliquei que não podia [vender]. Tenho família, não posso colocá-los em risco.  Um deles [policial] me mandou fechar e queria me levar preso. A gente fica entre a cruz e a espada”, diz.

Dono de uma ferragem, Z. considera a favela “pacificada só no jornal” e diz que a melhor estratégia é procurar não se envolver com nenhum dos lados.

“Se a polícia mandar fechar, eu fecho. Se os outros mandarem, fecho também. Procuro é fazer o meu trabalho e só.”

Agentes da UPP disseram que alguns comerciantes evitaram vender comida para os policiais por um tempo, no começo de maio, citando ordens do tráfico, mas que a situação foi logo resolvida.

Segundo o governo, cerca de 100 mil pessoas vivem no Complexo que teve o policiamento reforçado por tempo indeterminado no domingo depois que um tiroteio atrasou o início da corrida.

Além do tiroteio de domingo, na quinta-feira (23) o comércio e algumas escolas do Alemão e do Complexo da Penha fecharam as portas por um dia, por ordens do tráfico, após um traficante ser morto em confronto com a polícia.

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