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Cotidiano

"Fleury é que deveria ser julgado hoje", diz advogada de PMs do Carandiru no fim de sua exposição

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

02/08/2013 17h58

A advogada dos policiais militares acusados de participar do massacre do Carandiru, Ieda Ribeiro de Souza, defendeu aos jurados nesta sexta-feira (2) que quem deveria ser julgado pelas mortes dos presos no pavilhão 9 do presídio é o ex-governador Luiz Antonio Fleury Filho.

Ela falou aos jurados durante duas horas e 20 minutos, tempo em que exibiu vídeos de testemunhas e imagens de corpos de presos mortos no dia do massacre. Entre as imagens, acompanhadas por familiares dos réus, havia a de presos decapitados. Na sequência a um intervalo de meia hora, a acusação iniciará a réplica.

Fleury foi uma das testemunhadas arroladas pela defesa tanto neste júri quanto no primeiro, realizado em abril –e no qual 23 PMs foram condenados. O ex-governador defendeu a entrada da polícia na Casa de Detenção, diante de uma suposta rebelião de internos, e declarou: "Não dei a ordem [de entrada da PM], mas, se estivesse no meu gabinete, com as informações que eu recebi, teria dado a ordem", declarou.

“Os senhores [jurados] podem não saber [quem deu a ordem de entrada no presídio], mas o governador dizer isso é vergonhoso para este país, é indecente, é inconcebível”, disse.

Segundo a advogada, o ex-governador só não foi indiciado “porque tinha costas quentes”. Entretanto, ela não citou nomes de quem teria protegido o então peemedebista.

“Em uma véspera de eleição, ninguém quer assumir isso. Então, botam na conta desses homens”, disse, referindo-se aos réus e à data do massacre –2 de outubro de 1992, véspera de eleições municipais. O candidato de Fleury à prefeitura paulistana, o hoje senador tucano Aloysio Nunes Ferreira, não passou ao segundo turno.

Trecho do depoimento em vídeo do ex-governador em que ele assumira “a responsabilidade política” pelo massacre também foi exibido aos jurados.

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A advogada criticou ainda o trabalho da perícia –“laudo, naquela época, era algo que deixava muito a desejar” –e do Ministério Público, que excluiu 21 homicídios da denúncia contra os 25 PMs. Até hoje, eram 73 mortes imputadas aos réus, mas os promotores Fernando Pereira da Silva e Eduardo Olavo consideraram que três ocorreram por armas brancas e as 18 restantes em outra parte do pavimento, sem autoria identificada.

“Magicamente esse número de vítimas caiu para 52, como que por encanto. Se sequer o MP tem essa certeza de numeração, por que vou exigir desses homens, 21 anos depois, isso?”, questionou. A advogada lembrou que, atualmente, 79 dos 321 PMs que ingressaram na Casa de Detenção efetivamente foram denunciados. “Porque 79 admitiram que atiraram”, afirmou, para ressalvar: “E policiais que ficaram feridos nessa ação, segundo laudo da própria PM, e não foram denunciados? O pessoal do 2º Batalhão de Choque, por exemplo, entrou, teve gente ferida e não foi denunciado”, concluiu.

Pela primeira vez desde o início do júri, o plenário está praticamente lotado –a capacidade é para 260 pessoas, e ao menos 80% dele está tomado. Entre os presentes há pais, mães, mulheres e filhos dos réus, aos quais a advogada se referiu logo no início do debate.

Acompanham o último dia de julgamento também PMs cadeirantes que participam da Associação dos Policiais Militares Portadores de Deficiência. Seis deles estão posicionados na primeira fila da plateia.

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