Quem foi às ruas para pedir retorno de militares ou gritar contra ditadura?

Vanessa Corrêa da Silva, Carolina Mazzi e Bruno Pedersoli

Do UOL, em São Paulo e no Rio

Repúdio à ditadura domina marcha antimilitar; 'família perdida' rouba cena

Cinquenta anos após a Marcha da Família com Deus pela Liberdade original --uma passeata que reuniu cerca de 500 mil pessoas na região central de São Paulo contra o então presidente João Goulart e é considerada um dos estopins para o golpe que implantou a ditadura militar no Brasil--, a reedição do protesto realizada no sábado (22) foi pródiga em mobilização virtual, mas quase inexistente em presença real.

Nas duas maiores cidades do país --São Paulo e Rio--, as manifestações que pediam uma nova intervenção militar e o retorno da ditadura comandada pelas Forças Armadas reuniram cerca de 650 pessoas: foram 500 no centro da capital paulista e outras 150 na região central da capital fluminense.

As marchas de tom conservador, que surgiram em redes sociais, não conseguiram levar às ruas sequer uma fração considerável das dezenas de milhares de pessoas que pareciam mobilizadas pela internet --o evento postado no Facebook para divulgar a marcha em São Paulo tinha 30,9 mil convidados; para o evento no Rio, eram 9,2 mil.

A Praça da Sé, no centro de São Paulo, foi palco de uma manifestação --também convocada pelas redes sociais e com muito mais mobilização online que presença real nas ruas--, que foi criada justamente para protestar contra a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

Cerca de 800 manifestantes participam da Marcha Antifascista - Contra a Ditadura Militar, que teve 79,1 mil convidados e 7,4 mil confirmações na página criada para divulgar o evento no Facebook.

Saiba o que pensam alguns desses personagens que foram às ruas pedir pela volta dos militares ao poder --ou protestar contra quem pede e defende isso.

17 anos, cores da bandeira nos cabelos e a favor da "democracia de forma correta"

Uma das organizadoras da Marcha da Família com Deus pela Liberdade no centro de São Paulo, Isabela Trevisani, 17, usava as cores da bandeira nacional até nos cabelos. A adolescente declarou que participa de protestos do tipo há três anos e vinha ajudando a organizar o protesto pela internet desde dezembro passado.

"Nós somos a favor da intervenção constitucional. Já existe um estado de guerra civil no país e a Constituição prevê a intervenção militar em casos assim. Hoje um bandido pode matar um policial, mas um policial não pode matar um bandido", disse.

Filha de pais católicos, Isabela é evangélica e considera sua família muito conservadora. Ela se diz a favor da democracia, "desde que feita de forma correta". "Hoje não sou favorável ao voto, porque a urna eletrônica é fraudada."

"Esperávamos qualquer coisa hoje", diz professor que marchou contra militares

"Colocar as pessoas na rua contra a memória da ditadura militar diminui o poder que essas pessoas [defensores da intervenção dos militares no governo] têm de prejudicar os outros", acredita o professor de História Luis Felipe Creno, que participou da manifestação antifascista em São Paulo.

"A gente esperava que pudesse acontecer qualquer tipo de coisa hoje", disse Augusto Saraiva, professor de Geografia. "O fato de a manifestação ter sido pacífica vai motivar muitas pessoas a participar de próximos atos [contra a ditadura]", acredita Sandra Barbosa, professora de Teatro.

Interesse em uma intervenção "para acabar com a raça desse governo"

"Estamos aqui porque temos interesse em uma intervenção para acabar com a raça desse governo", disse a advogada Maria Sonia Carvalho Gomiero, 60.

"A Lei da Anistia trouxe de volta toda essa cambada de esquerdistas que em 1964 queria transformar o Brasil em um país comunista e acabou sendo impedida pelos militares. Eles saíram do país porque quiseram, eles não foram exilados", afirma Maria Sonia.

"A anistia proporcionou que eles voltassem para cá e assumissem o governo, por meio de enganação do povo e de mentiras, porque não fizeram nada pelo povo até agora", disse a advogada.

"Nossas fronteiras estão desguarnecidas, por isso que nós temos tanta droga entrando no país. O governo não permite que as nossas polícias tenham as mesmas armas ou armas superiores àquelas que os traficantes têm. E para quê isso? É para facilitar o tráfico, não resta a menor sombra de dúvida", continuou ela.

"A única coisa que nos representa é a bandeira nacional"

Maria Sonia foi à manifestação acompanhada de Elaine Deamar Hernandez, 54, também advogada, que levou o filho, Paulo Victor Tolentino de Oliveira, 24.

Elas se conheceram por meio de um grupo na internet, criado para promover a marcha. Ambas acreditam que uma intervenção militar no governo do país deve ocorrer em breve.

"É a nossa esperança", disse Elaine, que, assim como a amiga, abriria mão do direito ao voto se fosse necessário para derrubar o atual governo.

"Não me sinto representada por nenhum dos partidos políticos atuais. Na última eleição, votei no PMDB, mas hoje o vice-presidente é do PMDB e não está fazendo nada para mudar a situação", explicou Maria Sonia.

"A única coisa que nos representa é a bandeira nacional", afirmou Elaine.

Família que "errou de marcha" chama atenção entre manifestantes contrários aos militares

Nem mesmo a presença de defensores da intervenção militar acirrou os ânimos dos manifestantes. Silmara Cosme compareceu com a família à Praça da Sé para participar da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, mas confundiu o horário e chegou em plena manifestação antifascista.

"Se ninguém me afrontar, eu não afronto ninguém. Eles não são a favor da liberdade de expressão? Eu defendo a minha, eles defendem a deles", disse Silmara, vestida de verde e amarelo, enrolada em uma bandeira do Brasil e acompanhada das filhas.

Seminarista é contra a ditadura, mas a favor de uma intervenção que não dê "espaço para o comunismo"

Diferentemente de boa parte dos presentes na Marcha da Família em São Paulo, o seminarista Saulo Carmo, 19, é contrário à ditadura militar, porque considera que as pessoas não tinham liberdade. "Mas não havia espaço para o comunismo", acrescentou.

Carmo decidiu participar da marcha por seu sentido a favor da família. Para ele, o atual governo defende medidas que atacam os valores da família, promovendo projetos como o PNE (Plano Nacional da Educação), que defende a igualdade de orientação sexual, a legalização do aborto e a aceitação do casamento gay.

"O comunismo tenta acabar com a família, e o PT nasceu no comunismo. Sou contra a ditadura, mas a intervenção militar poderia ser uma solução."

"Na ditadura a liberdade era total", diz engenheiro que não quer deixar "uma Cuba" para filhos e netos

Já João Guerreiro, 58, engenheiro, jornalista e teólogo, acredita que a ditadura militar foi um "bom período" da história do Brasil.

"Na ditadura a liberdade era total, porém toda ação provoca uma reação. Nenhum militar reagia sem que houvesse uma ação que o levasse a isso. Hoje valores de décadas foram destruídos, o governo vem jogando raça contra raça, religiosos contra ateus. Não vou morrer e deixar um país como Cuba para meus filhos e netos, onde tem que entrar em uma fila para comprar comida", disse Guerreiro.

Para mulher de PM, intervenção armada é o único jeito

Mais jovens que a maioria dos manifestantes, as gêmeas Ana Clara e Ana Carolina Marques, 11, seguravam um cartaz onde se lia "O PM também tem família".

Elas participaram da marcha acompanhadas da mãe e de dois irmãos. "Não tem mais o que fazer, a situação está fora de controle. Acredito que a intervenção armada é o único jeito", disse Ana Paula Marques, mãe das meninas.

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Casada com um policial militar, ela disse ter levado a família à marcha também para protestar contra os baixos salários e o trabalho arriscado dos PMs.

No Rio, artesã e filha de militar diz que "quem foi torturado mereceu"

Entre os cerca de 150 manifestantes que se concentram na versão carioca da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, organizada em frente à igreja da Candelária (região central do Rio), estava Sula Rangel, 63, artesã e filha de militar.

Enrolada na bandeira do Brasil, ela pedia pela intervenção militar como única solução para o fim da corrupção e a ditadura comunista que, segundo afirma, já está em vigor no país.

Em relação as acusações de prática de tortura pelas Forças Armadas, Sula é enfática: "Quem foi torturado mereceu. Os que morreram tinham que morrer mesmo".

Caldeireiro que não acredita em tortura afirma que "nossas riquezas estão indo para Cuba"

Ao lado de Sula, o caldeireiro Júlio Perez, de 46 anos, balançava a cabeça em sinal de concordância. "Não acredito que houve tortura. Se tivesse acontecido, a Dilma não estaria aí", afirmou.

"Todas as nossas riquezas estão indo para Cuba, só os militares podem reestabelecer a ordem e acabar com a bandidagem no país", acrescentou Perez.

"A intenção da presidente é colocar uma ditadura comunista como acontece na Venezuela, que está vivendo uma guerra civil e a imprensa inclusive foi proibida de mostrar", afirmou.

Organizadores da marcha no Rio dizem que ação de militares "acabaria com a bandidagem"

Pouco antes do início da caminhada, o autônomo Emilio Alarcon e o professor de Educação Física, Melchior Roberto, organizadores da marcha, concediam entrevistas reclamando da corrupção no país.

"O que a gente quer é uma intervenção militar, que vai durar seis meses, conforme está escrito na Constituição. Os militares acabariam com a bandidagem e restaurariam a ordem no Congresso e o próximo presidente seria eleito pelo voto, após esse período", afirmou Roberto.

"A união é também um reforço para fortalecer a família, a intenção da mídia é dizimar a família", repetia Alarcon.

Dona de casa e PM aposentado se unem para pedir impeachment de Dilma

Durante a marcha, a dona de casa Marta, que não quis informar o sobrenome, e o PM aposentado Ricardo Oscar eram um dos mais animados, protestando com gritos de ordem que pediam o impeachment da presidente e a saída do Partido dos Trabalhadores (PT) do governo.

"Qualquer político é rato, incompetente, ladrão, safado. Só a intervenção pode salvar os brasileiros dessa corja", disse Oscar um pouco antes de marchar pela avenida Presidente Vargas.

"Existem provas contundentes de que a eleição é fraudada, todo o processo eleitoral é fraudado", reclamou Marta.

O argumento, defendido pela maioria dos manifestantes, foi repetido inclusive pelo deputado Jair Bolsonaro, que esteve presente no protesto formado por, segundo ele, "homens de bem".

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