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Internautas denunciam em mapa casos de violência e abuso contra mulheres

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O mapa já conta com mais de 500 depoimentos de abusos Imagem: Reprodução

Gil Alessi

Do UOL, em São Paulo

01/05/2014 06h00

O coletivo Think Olga, responsável pela campanha "Chega de Fiu-Fiu", contra o assédio sexual em espaços públicos, lançou na semana passada um mapa colaborativo online que busca dar voz às mulheres e aos gays que sofreram abusos na rua, em casa ou nos transportes públicos de todas as cidades brasileiras.

A maioria dos depoimentos é anônima e feita por mulheres vítimas de violência verbal e física e de tentativas de estupro. Até agora, mais de 500 pessoas participaram da iniciativa, que também lista casos de racismo, homofobia e transfobia.

“A ideia é jogar uma luz no problema do abuso em local público, que sempre foi um tipo de violência contra a mulher que era aceito pela sociedade”, diz Juliana de Faria, jornalista e integrante do Think Olga. “O assédio sexual é um fato, existe e tem uma influência muito negativa na vida das mulheres. Algumas deixam de vestir tal roupa ou ir a determinado lugar por medo do assédio.”

De acordo com ela, o mapa surgiu da necessidade de identificar os pontos mais críticos onde as mulheres são assediadas para que, mais para frente, o grupo possa fazer intervenções artísticas nos locais e discutir ações com o poder público. “Não conseguimos com as autoridades esses dados, então resolvemos fazer um levantamento por conta própria”, conta.

“Não queremos que as mulheres deixem de frequentar os espaços onde os abusos mais ocorrem. Queremos entender porque tantos casos acontecem lá, se é a falta de iluminação na rua ou se ocorrem em determinada boate, praças, etc”, afirma Juliana.

Para ela, além de mapear a violência, a iniciativa dá voz às mulheres que sofrem assédio cotidianamente. “Nenhuma mulher vai perder três horas do seu dia para fazer um boletim de ocorrência em uma delegacia. Então o mapa permite que elas compartilhem uma experiência que é bastante negativa. As denúncias mais antigas registradas no mapa são da década de 90. São fatos dolorosos, que as marcaram”.

A Central de Atendimento à Mulher recebe denúncias de casos de violência no telefone 180. A Secretaria de Políticas para as Mulheres também recebe depoimentos de abusos nos emails ouvidoria@spm.gov.br e spmulheres@spmulheres.gov.br.

Veja alguns dos episódios de violência postados no mapa:

“Tinha acabado de entrar no ônibus da linha terminal Varginha x terminal Santo Amaro para ir para casa, o ônibus já estava bem cheio, então fiquei em pé perto de uma das portas centrais, e havia um senhor na minha frente, em pé no degrau mais baixo, próximo à porta. Depois que saímos do terminal o ônibus foi lotando mais e mais e em determinado trecho da viagem, fiquei distraída e senti uma mão entre minhas pernas, rapidamente empurrei e percebi que tinha sido este senhor, que disfarçou como se nada tivesse acontecido.” 

Avenida Padre José Maria, 1609-1799 - Santo Amaro, São Paulo

"Estava eu na parada de ônibus esperando para ir à faculdade. Vestida de macaquito tipo short. Alguns motoristas idiotas passam buzinando. Um rapaz do meu lado olha pra mim e diz: eita que o dia hoje começou bem. Eu digo que isso é muito chato. A mulher ao meu lado diz: depois não quer ser estuprada. Quando vou subir ao ônibus o mesmo rapaz que falou comigo balbucia bem próximo à mim: Estuprar uma gostosa dessas seria um prazer."

BR-232, Madalena, Recife

“Estava no ônibus e um sujeito, com aparentemente 50 anos, fingia que ia segurar na barra do ônibus e com o dedo mindinho cutucava logo abaixo da minha axila, na lateral do seio. Eu me afastei e mesmo assim ele continuava. Minha sorte é que eu iria andar apenas a distância de um ponto. Então desci do ônibus na 4a vez que ele fez isso”

Rua Gabriele D'Annunzio, 770-772 - Campo Belo, São Paulo

"Na estação CPTM Palmeiras Barra Funda, ao subir a escada rolante vazia, um homem ficou dois degraus atrás de mim, e começou a dizer coisas como: 'eu te lamberia todinha' , 'você é uma delícia' repetidamente e fazendo barulhos obscenos também. No final da escada virei para ele e disse para que repetisse tudo, se tivesse coragem. Ele saiu como se nem estivesse falando com ele, fingindo que não estava ouvindo."

Estação Palmeiras - Barra Funda, Barra Funda, São Paulo