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Especialistas divergem sobre aumento do crime no Rio devido às eleições

Forças Armadas reforçam a segurança no Complexo da Maré - Tânia Rêgo/Agência Brasil
Forças Armadas reforçam a segurança no Complexo da Maré Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Isabela Vieira

Da Agência Brasil, no Rio

02/10/2014 19h03

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil divergem sobre a relação entre ações criminosas ocorridas nos últimos dias no Estado do Rio de Janeiro e as eleições. Desde o início da semana, pelo menos cinco pessoas morreram em tiroteios na Penha, Complexo do Alemão, Maré e Vila Cruzeiro, na zona norte, e em Niterói, na região metropolitana. O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, no entanto, diz ver uma predisposição para os ataques às vésperas da eleição e decidiu reforçar a segurança para garantir o pleito.

A coordenadora do Cesec (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania) da Universidade Cândido Mendes, a cientista social Silvia Ramos, concorda com Beltrame e não descarta a coincidência com o período eleitoral. Ela lembra que, nas últimas eleições, o Estado foi alvo de ataques e o Palácio Guanabara, sede do governo estadual, chegou a ser metralhado. “Há um contraste entre um processo eleitoral democrático, civil e cidadão e a ideia de que quem manda é a força da arma, do crime. É um momento de desespero para os narcotraficantes”, avalia.

Já na opinião do ex-chefe do Estado-Maior da Polícia Militar, Jorge da Silva, professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), não há coincidência entre as ações criminosas e o pleito de domingo (5). “Há alguns meses estamos vendo confrontos. Tem confrontos com as Forças Armadas na Maré que sequer são noticiados”, ressalta o especialista em direitos humanos e segurança. Para Jorge da Silva, está em curso uma disputa pela venda de drogas.

“Os fatos são corriqueiros. A visibilidade que é momentânea”, acrescenta o ex-coronel. “O quadro configurado tem a questão das drogas, que tenta se resolver com mais polícia e prisão. O fato é que polícia e prisão só aumenta o problema. As pessoas continuam consumindo drogas, não há como impedir isso, e os traficantes vão sempre procurar e disputar esse mercado. Resolver isso com a polícia gera esse cenário [de ações criminosas]”, avalia Jorge Silva.

Eliana Souza Silva, da coordenação da organização não governamental (ONG) Redes da Maré, que atua há 17 anos na comunidade, tem a mesma visão do ex-coronel.  Ela afirma que o conflito de quarta-feira (1), quando a Avenida Brasil chegou a ser fechada por cerca de 40 minutos, teve visibilidade porque chegou a uma das principais vias da cidade. “Não sei se tem relação direta com a eleição. Tem a ver com o próprio processo interno de conflito, de ocupação pelo Exército, de enfrentamento, e que não tem uma política de segurança clara”, avalia.

Segundo Eliana Silva, a comunidade notou uma retirada dos militares de alguns pontos da Maré nos últimos meses, mas não houve sinalização para o aumento da Polícia Militar, instalação de delegacias ou ações de policiamento comunitário, por exemplo. “O Exército está deixando um caminho aberto, mas não sabemos bem como fica a segurança na Maré”. Desde abril, a força ocupa a comunidade com armamento de uso exclusivo, como tanques de guerra.

Um dos responsáveis pela criação das Unidades de Polícia de Pacificadora no Estado, que existem ou estão em processo de instalação nas comunidade cariocas envolvidas em conflitos, o coronel Robson Rodrigues, da ONG Instituto Igarapé, diz que o processo de pacificação gera um “rearranjo na geopolítica criminal”, mas cada ação criminosa tem uma “motivação particular”. Para Rodrigues, o governo deve investigar os motivos de ataques e debelá-los. Ele lembra ainda que há limitações legais no período de eleições para prisões, que só podem ser realizadas em flagrante.

“Há um mercado criminoso poderoso por trás dessas ações que pode estar se sentido prejudicado, mas há um contexto muito maior que isso”, conclui o ex-militar.

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