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Cotidiano

Testemunha subornada por PMs do caso Amarildo está desaparecida há 4 meses

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

12/12/2014 14h22

Uma das testemunhas que, de acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, foi subornada por quatro PMs para desviar o foco da investigação sobre o paradeiro de Amarildo de Souza, o pedreiro que desapareceu após ter sido levado à UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha, na zona sul do Rio, em julho do ano passado, está desaparecida há quatro meses.

Procurada pela reportagem do UOL, a Polícia Civil informou que agentes da DDPA (Delegacia de Descoberta de Paradeiro) realizam "pesquisas para tentar localizar o paradeiro da mulher". A polícia tomou conhecimento do desaparecimento da testemunha em agosto, quando a filha dela procurou a Divisão de Homicídios para fazer um registro de ocorrência. O UOL não conseguiu localizar os familiares da mulher desaparecida.

Segundo a instituição, a depoente relatou que a mãe "já havia desaparecido outras vezes". Com a criação de uma delegacia especializada, o caso passou da Divisão de Homicídios para a DDPA. Porém, em quatro meses, não houve resultado quanto à investigação, na versão da Polícia Civil. A promotora do Ministério Público Carmen Eliza Bastos de Carvalho também disse não ter mais informações sobre o caso.

Na denúncia oferecida pelo MP à Auditoria Militar contra os quatro PMs acusados de subornar testemunhas, a mulher desaparecida foi convocada para depor em Juízo. Foi o depoimento dela à Divisão de Homicídios, no ano passado, que revelou detalhes da farsa montada pelos PMs da UPP Rocinha, entre eles o ex-comandante da unidade, major Edson Santos, para fazer parecer que Amarildo havia sido morto por um traficante de drogas.

Por conta disso, ela chegou a ser cadastrada no programa de proteção à testemunha, mas não estava mais sob assistência do Estado em agosto.

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A promotora não quis entrar em detalhes quando foi questionada sobre as circunstâncias do desaparecimento da testemunha. Segundo ela, a missão de investigar cabe à Polícia Civil. "Não podemos afirmar o motivo do desaparecimento: se foi o tráfico, a polícia ou qualquer outro fator. O que sabemos é que a filha dela procurou a Divisão de Homicídios para registrar a ocorrência", afirmou Carmen Eliza.

Caso Amarildo tem novos réus

O Ministério Público informou nesta quinta (11) que denunciou quatro PMs por subornarem duas testemunhas do caso Amarildo. Dois dos PMs denunciados aparecem pela primeira vez no trâmite processual do caso. Os policiais denunciados são o major Edson dos Santos e o tenente Luiz Felipe de Medeiros, que já estão presos, e os soldados Newland de Oliveira e Silva Junior e Bruno Medeiros Athanasio. Os dois últimos não constam na lista de policiais acusados na Justiça comum pelos crimes de sequestro, homicídio e ocultação de cadáver. Se a Justiça aceitar a denúncia, os quatro responderão por corrupção ativa de testemunhas.

Os soldados funcionariam, segundo o MP, como interlocutores dos oficiais na negociação para que as testemunhas afirmassem à polícia que o pedreiro foi assassinado pelo suspeito de tráfico de drogas Thiago da Silva Neris, o Catatau.  Segundo a denúncia do MP, os PMs teriam pagado R$ 500 e R$ 850 a duas pessoas para que elas atribuíssem a morte de Amarildo ao traficante. Uma das testemunhas chegou, inclusive, a receber fraldas descartáveis como propina. De acordo com a denúncia, o objetivo era afastar a suspeita em relação aos PMs da UPP.

Na ocasião, o soldado Marlon Campos Reis fingiu ser o traficante ao ligar para um colega e, imaginando ter a conversa interceptada pela Polícia Civil, passar-se por Catatau e assumir a morte do pedreiro. Para o MP, os militares sabiam da existência de um telefone que estava sendo monitorado pela Polícia Civil em função de outra investigação. Com isso, a ligação forjada acabou sendo a última tentativa de criar um álibi. Na denúncia, o Ministério Público apresenta como prova técnica um novo laudo pericial de exame de voz, produzido pela própria Polícia Militar, que comprova o telefonema.

Caso Amarildo

Amarildo morreu após ser torturado por policiais militares dentro da base da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha, favela na zona sul do Rio de Janeiro, em julho do ano passado, de acordo com a denúncia oferecida pelo Ministério Público. No total, 25 PMs foram processados. Todos foram denunciados por tortura seguida de morte, 17 por ocultação de cadáver, 13 por formação de quadrilha e quatro por fraude processual.

Em abril deste ano, Elizabeth foi detida após se desentender com policiais da UPP da Rocinha. Segundo ocorrência registrada na 11ª DP (Rocinha), a viúva de Amarildo era suspeita de tentativa de lesão corporal, desacato e resistência. Ela prestou depoimento e foi liberada. Desde o começo do ano, foram feitas audiências de instrução e julgamento com testemunhas de defesa e acusação, além do interrogatório dos réus.

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