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Apesar do previsto, agrovila no CE ainda não tem água encanada

Único transporte "público" para levar os moradores da agrovila para a área urbana das cidades próximas são os paus de arara - Ciro Barros/Agência Pública
Único transporte 'público' para levar os moradores da agrovila para a área urbana das cidades próximas são os paus de arara Imagem: Ciro Barros/Agência Pública

Ciro Barros e Giulia Afiune

Da Agência Pública

17/04/2015 06h00

Nem todos os moradores que hoje vivem na Gameleira, no Ceará, foram reassentados na agrovila. Para lá foram as famílias mais pobres atingidas pelo açude: os agricultores que moravam em propriedades alheias sem benfeitorias (obras), ou com benfeitorias avaliadas em menos de R$ 5.000 pela Secretaria de Recursos Humanos (SRH) (o teto é R$ 12 mil no caso dos proprietários que tiveram mais de dois terços de seus terrenos alagados).

A atenção especial “para os mais pobres”, porém, exigida pelas salvaguardas do Banco Mundial, não garantiu nem os direitos humanos essenciais desses moradores vizinhos à obra. Por sua vez, as obras do Gameleira ainda não foram totalmente concluídas, embora as primeiras famílias tenham sido transferidas em 2011 para a agrovila.

O Plano de Reassentamento da Barragem Gameleira previa, no capítulo 6.10, a construção de uma adutora com capacidade mínima de 30 mil litros para trazer água do açude para a agrovila, mas até hoje essa obra não foi realizada.

A empresa I. C. Projetos e Construções foi escolhida por licitação para fazer a obra, ao custo de cerca de R$ 250 mil, mas os trabalhos de construção da adutora nem começaram ainda. Por isso os moradores continuam dependendo do poço e, de vez em quando, se cotizam para fretar um caminhão-pipa.

Mas aí dependem da boa vontade dos manda-chuvas locais, como diz o morador Paulo Sérgio: “Tudo aqui a gente meio que depende de falar com alguém, de conhecer alguém… Se você chama um caminhão-pipa, às vezes você fica esperando dias para ele chegar. Se você fala com um vereador, chega no mesmo dia”.

Há muitas outras decepções para os moradores expulsos pela obra financiada pelo Banco Mundial. O posto de saúde previsto para a agrovila não passa de uma carcaça de concreto, com cadeiras amontoadas, salas vazias e muita poeira; para conseguir atendimento médico, os moradores têm de ir de pau de arara à área urbana de Itapipoca, a 16 km dali.

A coleta de lixo e a construção de áreas de lazer também não saíram do papel. “A agrovila do açude Gameleira deverá transformar-se em um centro polarizador de serviços e de produção para a região”, diz o plano de reassentamento. Olhando em volta, tudo o que se vê é um conjunto habitacional pobre, com mais carências do que tinham os moradores antes da obra.

“Naturalmente os beneficiários do plano que optarem pelo reassentamento na Agrovila terão sua renda mensal bem mais elevada, de acordo com os planos de atividades econômicas propostos”, prometia o plano de reassentamento do açude Gameleira, que previa o cultivo de culturas temporárias (feijão, milho, melancia e melão) e permanentes (manga e goiaba) nos lotes agrícolas, além de piscicultura na área alagada do açude. Nada disso virou realidade.

Os agricultores continuam lutando com a seca para suas roças de subsistência e racionando a água que bebem.

“Se não tiver inverno [chuva], não tem nada feito. Por quê? A nossa água não veio, a que foi prometida que viria por adutora. A salgada do poço mata a plantação completamente. A doce ninguém pode comprar pra aguar um terreno e sai caro porque o terreno é de cinco hectares, né?”, explica a agricultora Expedita Fernandes de Souza, 30.

Ela conta que, no início do ano passado, trouxe 1.500 pés de caju da sede da Ematerce (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará), em Itapipoca, e, com a seca, não sobraram nem 30 pés. Por isso os moradores exigem da SRH a instalação de uma caixa-d’água à beira dos lotes agrícolas para compensar a perda dos terrenos irrigados naturalmente que cultivavam antes da remoção.

“Aqui a gente só trabalha se tiver os invernos. Lá onde eu morava, não faltava serviço para o povo, não”, diz o agricultor Valmir Carlos da Silva.

Cotidiano