Militante do MPL quer se tornar advogado ativista de direitos humanos

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

  • Leonardo Benassatto/Futura Press/Folhapress

    Militante do MPL desde 2013, Heudes de Oliveira foi porta-voz dos alunos que ocuparam a Escola Estadual Fernão Dias

    Militante do MPL desde 2013, Heudes de Oliveira foi porta-voz dos alunos que ocuparam a Escola Estadual Fernão Dias

O estudante secundarista Heudes Cássio Oliveira, 18, tem um sonho: deseja se tornar advogado ativista na área de direitos humanos. Porta-voz dos alunos que ocuparam a Escola Estadual Fernão Dias Paes Leme, símbolo do movimento contra o projeto de reorganização escolar do governo de São Paulo, ele é um dos mais jovens integrantes do MPL (Movimento Passe Livre), no qual milita desde as manifestações de junho de 2013.

"Eu quero aplicar os conhecimentos que vou adquirir na luta pelas causas em que eu acredito. Para mudar o sistema, a gente tem saber como ele exatamente funciona", disse Heudes ao UOL, após a passeata de terça-feira (19), ato promovido pelo MPL contra aumento da tarifas de transporte coletivo em São Paulo que acabou em frente ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo.

Heudes falhou na primeira tentativa de frequentar a tradicional Escola de Direito do Largo do São Francisco. Foi reprovado na primeira fase do vestibular da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular) que organiza a seleção da USP (Universidade de São Paulo). Mas ele diz que, apesar da militância, vai se dedicar ainda mais os estudos em 2016, além de continuar frequentando o Arcadas Vestibulares, um cursinho pré vestibular gratuito, criado e mantido pelos alunos da própria Faculdade de Direito da USP. Ele ainda tem que cumprir uma carga horária do ano letivo de 2015, paralisado por causa das ocupações.
 
Filho mais velho de um porteiro e uma dona de bar, ambos com poucos anos de estudo, Heudes não costuma discutir sobre política com parentes. "Meus pais ainda sentem muito medo de que possa acontecer algo de ruim comigo durante uma manifestação", diz. Mais velho entre quatro irmãos, ele foi criado em Embu das Artes, cidade de pouco mais de 260 mil habitantes na região metropolitana de São Paulo, de acordo com dados do IBGE.
 
Marcos Fantini/Frame Photo/Estadão Conteúdo
Segurança do metrô atinge Heudes Oliveira durante protesto

O medo dos pais é justificável: no dia 21 de dezembro do ano passado, Heudes participou de um protesto organizado por estudantes secundaristas que terminou em confronto com seguranças dentro da estação do metrô da Sé, região central de São Paulo. Ao tentar pular a catraca, ele foi atingido por um cassetete jogado por um segurança. O flagrante da ação capturada pelas lentes do fotógrafo Marcos Fantini viralizou nas redes sociais. Entre os milhares de comentários sobre a foto, houve quem se preocupasse em elogiar os dotes físicos do segurança.

"Foi a primeira vez que realmente fui agredido, antes nunca tinha tomado mais do que um esbarrão. Durante a ocupação na escola, a gente chegou a ouvir ameaças de policiais militares, mas nada aconteceu". Ele diz que um grupo de advogados ativistas está catalogando eventuais casos de agressão por parte de policiais militares e seguranças privados durante os protestos para enviá-los à Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão judicial autônomo que tem sede em San José (Costa Rica). "A gente sabe que aqui no Brasil nada vai ser apurado". O estudante nega que participe de atos violentos durante as manifestações.

Militância começou em 2013

Em junho de 2013, o estudante decidiu participar de sua primeira manifestação quando leu em um "lambe-lambe" [cartaz colado em um poste], no centro da capital paulista, a convocação do MPL para um ato contra aumento das tarifas de ônibus, metrô e trem em São Paulo daquele ano. "Eu acredito que as mudanças são feitas pelas mobilizações de rua. Entidades estudantis e partidos são estruturas engessadas".

De acordo com seu ponto de vista, o movimento contra a reorganização escolar ganhou "apoio da sociedade" quando começou a ocupar escolas.

"Ali, a gente conseguiu transcender, a gente recebeu apoio não só dos nossos colegas e professores, mas de toda a sociedade. A ajuda que a gente recebeu das pessoas durante a ocupação é uma prova disso. O que a gente viveu na escola foi muito importante. É um marco na minha vida".

Heudes, que também já foi porta-voz do MPL, agora ajuda na movimentação dos manifestantes durante os atos. Na terça-feira, ele carregava a faixa na retaguarda da manifestação. Ele deve participar do ato desta quinta-feira (21), cuja concentração será no terminal Parque Dom Pedro 2º.

Vindo de uma família pobre, negro de cabelos drealocks, ele destoa do perfil associado aos militantes do MPL, principalmente pelos críticos da organização: brancos de classe média, que não necessariamente seriam usuários do sistema de transporte coletivo.

"O aumento causa impacto enorme no orçamento das famílias mais pobres. Nós, estudantes de escolas públicas, precisamos do passe livre também para ter acesso aos equipamentos culturais da cidade, que ficam concentrados na região central. Não é só para ir à escola. Mas o passe livre deve ser estendido a todos", diz.

Agora que saiu da casa dos pais em Embu das Artes e passou a morar na casa de um amigo no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, afirma que vai procurar um emprego. Seu primeiro trabalho foi aos 14 anos. Ele já trabalhou numa loja de autopeças e em dois bancos. Por enquanto, ajuda na manutenção e limpeza da casa e recebe uma pequena mesada do pai.

Ídolos: Luther King e Solano Trindade

Questionado sobre suas inspirações, cita dois nomes, "além dos meus companheiros de luta": o líder pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e prêmio Nobel da Paz, o pastor Martin Luther King Jr. (1929-1968) e o poeta, pintor e folclorista Francisco Solano Trindade (1908-1974), cuja família vive em Embu das Artes, onde há um teatro popular, uma escola e uma rua, em sua homenagem.

Heudes não foge do contato com jornalistas, mas gosta de citar uma frase do ativista afroamericano Malcom X (1925-1965), mas que ele pensava ser de Luther King: "Se você não se cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo."

Heudes de Oliveira fala sobre a ocupação das escolas em dezembro de 2015

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