No Aterro do Flamengo, no Rio, tem futebol até de madrugada

Gustavo Maia

Do UOL, no Rio

Já passa da meia-noite. O expediente acabou e uma nova jornada está prestes a começar para funcionários de lanchonetes, bares, restaurantes, hotéis e edifícios residenciais do Rio de Janeiro.

Com chuteiras e uniformes esportivos nas mochilas, eles saem de diversas partes da cidade com destino ao Aterro do Flamengo, na zona sul, para ocupar os oito campos públicos de futebol situados no parque. Para quem troca o dia pela noite por causa do trabalho, a madrugada pode ser o melhor período para o lazer.

"É o nosso momento de descontração, de confraternização", conta Joílson Lima, 22, funcionário de uma lanchonete em Copacabana e atacante do "Real Galáticos", time amador formado por ele e pelos colegas do estabelecimento. Há dois meses, a equipe joga todas as sextas-feiras, das 2h às 4h, em um dos campos de grama sintética do parque.

Inaugurado há pouco mais de 50 anos, o Aterro do Flamengo tem 1,2 milhão de metros quadrados e é uma das principais áreas de lazer da capital fluminense. Por questões de segurança, no entanto, o espaço é pouco utilizado durante as noites de madrugadas, ganhando ares de abandono. Há pelo menos duas décadas, a área dos campos, na altura do Museu do Catete, é exceção.

"Já é uma tradição antiga. Desde antes de eu chegar por aqui já tinha esses jogos de madrugada", relata o comerciante João Santos, 52, que vende bebidas e lanches no local há 18 anos. Segundo ele, segunda e terça-feira são os dias mais movimentados da semana.

Concorrente de João, o vendedor Jurandir Duarte, 43, conta que chega a desmontar sua barraca se, por alguma eventualidade, não houver peladas em alguma madrugada. "Fica estranho, arriscado. As peladas são boas porque deixam isso aqui movimentado, mais seguro", diz o comerciante.

Jurandir fica à beira dos campos até o início da manhã nos dias mais animados. "Porque depois dos jogos sempre tem aquela resenha", explica, referindo-se à tradicional rodada de comentários das peladas promovida pelos jogadores. Eventualmente, os debates são regados a cerveja e churrasco.

Dentro dos campos, ouve-se predominantemente sotaques nordestinos, principalmente do Ceará, de onde veio o auxiliar de cozinha Evanir de Paula Nascimento, 20, há um ano e meio. Diferentemente de outros peladeiros, ele não integra nenhum time. "Venho para me juntar a quem aparece por aqui e me divertir", afirma.

Técnico, juiz e patrocinadores

Quem vê a movimentação dos campos de longe, pode enxergar apenas amadorismo nas partidas. Alguns times que jogam no local têm até técnicos e exibem marcas de patrocinadores nos uniformes.

Os treinadores também fazem as vezes de "cartolas", agendando duelos entre as equipes que frequentam o Aterro. Em algumas disputas, estão em jogo de R$ 100 a R$ 400, arrecadados pelos próprios "atletas".

De calça jeans e camisa de malha, João Paulo Lopes, 26, grita à beira do campo para orientar os jogadores do Real Galáticos -- seus colegas de lanchonete. "Devagar que a bola é nossa". Ele explica porque se dispõe a passar madrugadas em claro sem jogar: "por amor à camisa".

Técnico de outro time, de funcionários de um restaurante da Lagoa Rodrigo de Freitas, o motoboy Juvenal Pontes já havia agendado no dia 22 de janeiro partidas até o dia 12 de fevereiro.

Ex-funcionário de um restaurante, Osmar Gomes, 35, mais conhecido como "Gavião", costumava jogar nos campos do Aterro, mas pendurou as chuteiras nos últimos anos.

Hoje desempregado, viu nos campos uma oportunidade de levar dinheiro para casa. Atua como árbitro e ganha de R$ 30 a R$ 40 por jogo para apitar algumas partidas. "É bom para todo mundo", comenta.

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