Diego Herculano/AFP

Violência no Rio

Na zona norte do Rio, ação policial paga por empresários mira adolescentes

Anne Vigna

Da Agência Pública, no Rio

  • Anne Vigna/Agência Pública

    Homem é parado e revistado por ter andado rápido demais. Para os policias, é uma "atitude suspeita fundada"

    Homem é parado e revistado por ter andado rápido demais. Para os policias, é uma "atitude suspeita fundada"

No bairro do Méier, na zona norte do Rio de Janeiro, em vez de moradores de rua, a Operação Segurança Presente, financiada pela Fecomércio-RJ, tem alvejado preferencialmente jovens e adolescentes acusados de praticar roubos, segundo relatos do Conselho Tutelar. "Desde que começou esta operação, vamos todos os dias para a delegacia", assegura a conselheira Maísa de Paula. O conselho é acionado pela delegacia toda vez que um adolescente é liberado sem que os pais sejam encontrados. "Na verdade não sei se os policiais são bem preparados, porque nossa carga de trabalho aumentou muito."

A defensora pública Eufrásia Maria Souza das Virgens corrobora o que diz a conselheira. "Estamos recebendo inúmeras denúncias sobre a apreensão ilegal de adolescentes pela Polícia Militar e ainda não temos informações oficiais e claras sobre o teor desse convênio. Muitos estão sendo apreendidos simplesmente porque o policial acha se tratar de alguém que virá a cometer ato infracional, a partir de um julgamento subjetivo. Chegando lá, porém, verifica-se que não há fato a ser registrado e o adolescente é liberado."

O capitão Hugo Coque nega que os adolescentes apreendidos sejam inocentes. "Quando levamos à delegacia, é porque temos uma boa razão", diz. A Secretaria de Governo garante que os policiais da operação foram capacitados, inclusive em relação aos direitos dos adolescentes.

Natália, uma jovem negra de 18 anos que pediu para não ser identificada, teve a impressão oposta. Ela foi revistada no Aterro do Flamengo em dezembro, quando se dirigia a uma partida de futebol, logo depois de ter comentado com dois amigos, também negros, o funcionamento da Operação Aterro Presente diante dos policiais.

Os PMs revistaram sua bolsa e a dos seus amigos. Ao encontrarem um tablet, suspeitaram que fosse roubado e não acreditaram na sua explicação. "Perguntaram muitas coisas e me disseram que eu parecia com uma menina que rouba por aqui, mas não explicaram por que eu parecia com ela. Agora não sei se vou mais acompanhar o meu namorado para os jogos de futebol, se eu tenho esse perfil para os policiais…", conta.

Ao contrário do prometido no programa, os policiais não filmaram a sua abordagem. "Não sei se fui revistada por ter feito um comentário diante dos policiais ou por ser negra", diz Natália. O defensor público Rodrigo Azambuja, da Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, não se surpreende ao ouvir o relato. "Na maioria são negros", diz. Ele conta que foi informado da apreensão e posterior liberação de 17 adolescentes no dia 21 de dezembro pela equipe da Aterro Presente.

Um dos grandes problemas, diz Rodrigo, é a opacidade do financiamento. A coordenadoria entrou na Justiça em 27 de janeiro com pedido de busca e apreensão do convênio firmado entre o Estado, o município e a Fecomércio. O Estado ainda não mostrou o contrato, embora tenha sido intimado pela Justiça em dezembro do ano passado. "Como ainda não temos o convênio, é difícil comentar essa operação. Mas o que nos preocupa é ver que uma entidade privada pode escolher os lugares onde vai haver segurança. Não a partir dos índices de criminalidade, mas da necessidade do comércio", diz.

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