Chuvas

Por que tantas árvores caem em São Paulo?

Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo

Moradores da cidade de São Paulo enfrentam transtornos com o grande número de quedas de árvore após a forte chuva da segunda-feira (16). A tempestade com rajadas de vento de mais de 50 km/h deixou uma pessoa morta e pelo menos oito feridas. O Corpo de Bombeiros registrou a queda de ao menos 177 árvores durante a tarde.

Mas por que tantas quedas? Especialistas consultados pelo UOL apontam os motivos que provocam tamanha destruição.

A combinação de chuva e vento fortes tem um potencial arrasador. "Ventos acima de 60 km por hora podem derrubar árvores boas e ruins", afirma o agrônomo Demóstenes Ferreira da Silva Filho, professor do Departamento de Ciências Florestais da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz - Universidade de São Paulo).

De acordo com o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), os ventos de ontem em São Paulo superaram, provavelmente, os 100 km/h.

Werther Santana/Estadão Conteúdo
O Corpo de Bombeiros registrou a queda de ao menos 177 árvores em SP

Sufoco nas calçadas

A ocupação do entorno das árvores também pode levar a quedas. Em grande parte dos casos, o espaço destinado às espécies nas calçadas é inadequado. É como se as espécies ficassem sufocadas, com dificuldades para respirar.

"Existem dificuldades de desenvolvimento das raízes nas calçadas. O solo abaixo das calçadas, seu substrato básico para nutrição e sustentação mecânica, não foi pensado para as árvores", afirma o professor Silva Filho.

Segundo o pesquisador, o desenvolvimento superficial deixa as árvores "suscetíveis ao ataque de fungos apodrecedores de madeira" por causa do acúmulo de umidade. "O apodrecimento ocorre de baixo para cima como um cone se formando dentro da base da árvore".

Desse modo, prossegue Silva Filho, as árvores plantadas na cidade se tornam menos resistentes que as que vivem nas florestas. É necessário, diz ele, planejar melhor as calçadas para torná-las menos hostis às espécies.

Adriano Moniz/UOL
Em grande parte dos casos, o espaço destinado às espécies nas calçadas é inadequado

Podas malfeitas e falta de diagnóstico

A poda é outra causa de quedas. O professor da USP classifica como "agressões" os cortes feitos de maneira equivocada. Uma poda malfeita tende a tirar o equilíbrio da árvore e a deixá-la vulnerável. É preciso conhecer a estrutura da espécie para fazer um corte correto.

"Existem normas para a poda de árvores", acrescenta o engenheiro agrônomo Joaquim Cavalcanti, diretor regional da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana e ex-diretor de parques como o Ibirapuera.

Se há árvores doentes ou desequilibradas e sujeitas a cair, é porque falta um bom trabalho de controle da floresta urbana. Eis, então, outro motivo de tantas quedas.

"A prefeitura deve investir em diagnóstico, cadastro e avaliação das árvores. A primeira medida é ter um sistema de informação geográfica para as árvores e contratar equipes para avaliar as árvores individualmente e abastecer o sistema com diagnósticos visuais. Após essa etapa, as piores árvores devem ser substituídas e as árvores com risco devem ser monitoradas por meio de equipamentos que mensuram ocos e problemas de raízes", diz Silva Filho.

"A árvore é um ser. Ela tem que ser examinada periodicamente. Dá para fazer o diagnóstico, com avaliação visual, passando de carro pelas ruas a 40 km/h. Quando se verifica um erro na árvore, aí entra a avaliação técnica, com equipamentos de última geração, que identificam as falhas", afirma Cavalcanti.

Em sua opinião, falta conhecimento sobre as árvores, e moradores da cidade podem e devem participar mais do trabalho de prevenção. "Há defeitos clássicos. Seria fácil a comunidade identificar visualmente."

Para isso, avalia Cavalcanti, é preciso investir em educação e no diálogo entre as comunidades e a administração pública.

Ele sugere a criação de programas para formar monitores que auxiliem a prefeitura a cuidar das árvores. "Associações de bairro e ativistas ambientais poderiam ter um papel importante. Não adianta deixar só para o governo. O governo não dá conta de tudo, não tem como", opina.

"A gente precisa fazer a árvore ser conhecida, falar dos seus benefícios. A árvore está sendo malvista, mas ela é benfeitora. A gente precisa da sombra, do microclima e do efeito de umidade que a árvore proporciona", diz Cavalcanti. "O asfalto sombreado [por árvores] exige menor custo de manutenção do que o asfalto a céu aberto", afirma Silva Filho.

Prefeitura diz que tem feito podas

Em texto publicado em seu site, a Prefeitura de São Paulo diz que, desde agosto de 2015, 13 equipes foram contratadas para Plano Intensivo de Manejo Arbóreo (PIMA).

"Essas equipes reforçam as ações de poda e remoção de árvores em oito subprefeituras onde o problema é mais sensível: Sé, Pinheiros, Vila Mariana, Santo Amaro, Ipiranga, Butantã, Lapa e Mooca", diz a nota.

Segundo a gestão de Fernando Haddad (PT), "esses locais respondem, juntos, por 62% das quedas registradas nos últimos dois anos e 44% das demandas do SAC".

"Somente em 2016 foram realizadas até o mês de abril, 31.760 podas de árvores, 5.601 remoções, e 3.339 novas espécies foram plantadas. Em 2015, foram realizadas 119.747 podas, 17.712 remoções, e 11.941 plantios", conclui o texto.

Como avisar a prefeitura

Se uma árvore caída interdita uma casa ou oferece riscos à população, o morador deve ligar para o número 199 e acionar a Defesa Civil. Quem quer pedir à prefeitura um serviço de manejo de árvores e áreas verdes pode usar o número 156, a página da administração municipal na internet ou ir pessoalmente à praça de atendimento da subprefeitura mais próxima.

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