Violência no Rio

Pesquisa: população em favelas do Rio teme mais a polícia do que traficantes

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL em Maceió

  • Daniel Marenco/Folhapress

    Denize Moraes teve seu filho de 20 anos assassinado em 2014 no Complexo do Alemão. Testemunhas dizem que ele foi morto pelo tiro de um policial da UPP

    Denize Moraes teve seu filho de 20 anos assassinado em 2014 no Complexo do Alemão. Testemunhas dizem que ele foi morto pelo tiro de um policial da UPP

A população que vive em favelas no Rio de Janeiro teme mais a presença da polícia que a de traficantes no local onde mora. Essa é uma das conclusões da "Pesquisa Internacional sobre Homens e Equidade de Gênero", feita pelo Instituto Promundo, que ouviu 1.151 pessoas, de 15 a 59 anos, nas zonas sul e norte da cidade. No entanto, na zona norte, área marcada pelas taxas de homicídio mais elevadas, a diferença é pequena.

A pesquisa dividiu os resultados pelas duas áreas. Na zona norte, 59% disseram ter medo da polícia, enquanto 52,9% dos entrevistados da zona sul relataram o mesmo medo. Os percentuais são maiores que os que apontam medo de traficantes nas duas áreas: 58,4% na zona norte e 42% na sul.

O medo da polícia nessas comunidades também é superior ao de milícias. Na zona norte, 53,3% dos entrevistados relataram medo das milícias; na zona sul foram 43,8%. O medo da polícia só não é maior que o de assaltantes na zona sul, onde 72,8% afirmaram temê-los. Já na zona norte, esse índice cai para 46,7%, abaixo do medo da polícia.

 

Resultado esperado

Tatiana Moura, diretora executiva do Instituto Promundo e coordenadora da pesquisa, acredita que o alto índice de medo da polícia explicitado na pesquisa é "natural" pelo contexto em que vivem essas comunidades.

"Atribuímos isso à presença violenta da polícia ao longo das décadas nas comunidades. A verdade é triste, porque a presença do Estado ao longo da história tem sido mais violenta que pacífica. É uma força da autoridade, que entra muitas vezes para lançar medo, e é responsável por grande parte do homicídios", afirmou.

Para Tatiana, o menor medo de traficantes pode ser explicado porque, muitas vezes, são jovens da própria comunidade que ocuparam espaços sociais vazios. "Essa é uma das justificativas, mas não podemos generalizar. A verdade é que o tráfico está no dia a dia, e a polícia é esporádica", disse.

Violência doméstica

O foco principal da pesquisa foi revelar que fatores influenciam na violência do homem contra as mulheres parceiras dentro de casa. O medo da polícia, por exemplo, é um dos fatores que contribuiriam para aumentar o risco de o homem ser violento em casa.

"As pessoas que votaram ter medo de polícia e de milícias têm maior probabilidade de usar a violência contra a parceira íntima. Percebemos que isso gera estresse, trauma e se transforma em outras formas de violência. Estar exposto à violência em espaços públicos, porém, é o que mais influencia a violência em espaço privado", afirmou Tatiana. "O terceiro fator que identificamos é que quem foi testemunha de caso de violência na infância também tem maior probabilidade."

O relatório aponta que 82,8% dos homens em comunidades pobres viveram ou testemunharam pelo menos duas das seguintes situações antes dos 18 anos: agressão grave, abordagem violenta por parte da polícia, espancamento, troca de tiros, casa ou o local de trabalho atingido por balas, ameaças de morte e lesão por disparo de arma de fogo. "A exposição à violência fora do lar está profundamente relacionada com a violência em casa", explica o estudo.

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