Vítimas de agressão doméstica apagam marcas em mutirão de cirurgias em SC

Aline Torres

Colaboração para o UOL, em Florianópolis

  • SBCP/SC

    Mulheres vítimas de violência doméstica mostram cicatrizes; projeto em SC faz mutirão gratuito de cirurgias plásticas

    Mulheres vítimas de violência doméstica mostram cicatrizes; projeto em SC faz mutirão gratuito de cirurgias plásticas

Maria* viveu 20 anos com o companheiro. Juntos, tiveram uma filha. Ele ficava violento quando bebia ou usava drogas. Maria pegava a menina e fugia. Só voltava quando não havia mais risco. Mas, no primeiro dia deste ano, não houve tempo suficiente.

Pouco depois do meio-dia, eles discutiram. Ele disse para ela largar o emprego, porque tinha ciúmes. Maria é artesã. Confecciona cestas em uma pequena cooperativa em Lages, na serra catarinense. Ela se recusou.

Ele se levantou e pegou uma faca na cozinha. Ela saiu correndo para a rua, gritando por ajuda, mas tropeçou e caiu no asfalto. Ele deu três facadas. Perfurou o pulmão, o intestino e o pâncreas da mulher. Ela ainda conseguiu se levantar. Correu. E novamente caiu. Dessa vez, ele acertou seu rosto e a mão direita. O dedo médio ficou dependurado. Maria ficou um mês internada entre a vida e a morte no hospital.

Ela conta que das dores que carrega, físicas e emocionais, a pior foi tentar mexer a mão sem resposta. A facada comprometeu os movimentos. "Entrei em desespero, porque preciso trabalhar", disse a artesã.

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Maria* teve o dedo decepado pelo marido, com quem viveu por 20 anos
Felizmente, seu tendão foi reconstruído. Na última quarta-feira (13), todos os pontos foram retirados e ela já consegue mexer os dedos.

Maria está entre as mulheres que foram operadas em um projeto proposto pelo núcleo catarinense da SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica), que faz cirurgias reparadoras gratuitamente. O projeto tradicionalmente ocorre em outubro, atendendo, sem custos, pessoas que tiveram câncer de mama, mas um novo "braço" foi criado para mulheres, crianças e homens vítimas de violência.

Até agora, 30 pessoas aceitaram participar do voluntariado, entre cirurgiões plásticos, anestesistas, enfermeiros e técnicos. A iniciativa vai durar no mínimo um ano. Santa Catarina é o Estado idealizador do projeto, mas a SBCP pretende estendê-lo para todo o Brasil.

A primeira ação foi realizada no dia 2 de julho. Sete mulheres foram operadas no Estado e três passaram por uma avaliação. Elas também foram acompanhadas no pós-cirúrgico e nesta semana serão liberadas.

SBCP/SC
Marcas de violência nas costas de uma das mulheres atendidas no mutirão em SC

O coordenador da campanha, dr. Zulmar Accioli, disse que o único jeito que os cirurgiões têm de ajudar é "tirar as marcas que existem no físico". "Nós também gostaríamos de chamar atenção para o problema. Praticamente, todos os dias leio notícias sobre a violência doméstica no Estado", completou.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina, a cada hora cinco mulheres são agredidas no Estado. Seis são violentadas por dia.

Rosângela* foi uma delas. Foi estuprada diversas vezes pelo avô. No mutirão em Santa Catarina, fez uma ninfoplastia, cirurgia que reverte a dilatação dos lábios vaginais. Ela não queria as marcas do agressor no seu corpo. Mas não consegue falar sobre o assunto.

Marta* já está na fila de espera. Ela conviveu a vida inteira com a violência. Primeiro do pai e dos irmãos, depois do companheiro.

Na última vez em que foi espancada pelo marido, teve todos os ossos da face quebrados. Segurando-a pelos cabelos, ele bateu seu rosto contra a parede tantas vezes que não foi possível limpar as marcas de sangue. Seu olho direito ficou deformado.

Marta fala pouco e sempre com medo. No meio da conversa com a reportagem, inventa nomes falsos, nega sua identidade, depois a reafirma. Seu depoimento é narrado entre desconexões e uma frase repetida com frequência: "Ele vai terminar o que começou. Um dia vai me matar".

Interessadas no auxílio devem entrar em contato com a funcionária da SBCP Susana de Oliveira pelo telefone (48) 9154-6537 para marcar uma entrevista. No dia da conversa, é preciso levar o boletim de ocorrência com o registro da agressão.

* As mulheres que contaram suas histórias optaram pelo uso de um nome fictício. Como muitas vítimas da violência, elas carregam o estigma da vergonha.

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