Violência no Rio

Polícia detém 82 menores em Copacabana em um dia; entenda o que aconteceu

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

Correria, furtos, vidraças quebradas, pessoas caindo no chão... O fim de tarde na avenida Nossa Senhora de Copacabana, a um quarteirão da praia de Copacabana, na zona sul do Rio, foi marcado por cenas de violência na quarta-feira (14). Um arrastão terminou com 92 pessoas detidas para averiguação, das quais 82 eram menores --78 adolescentes e quatro crianças. Outros dez eram maiores. "Tivemos que fechar a porta da loja porque eles estavam quebrando tudo e jogando as pessoas no chão. Foi um pânico geral", afirmou Gabriela Souza, funcionária da loja Fissura.

O grupo que promoveu o arrastão foi perseguido por guardas municipais e militares do Exército alocados no esquema de segurança dos Jogos Paraolímpicos. Não houve troca de tiros nem feridos na confusão, de acordo com a polícia. O delegado presente na DRFA (Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis), Márcio Esteves, passou a madrugada desta quinta ouvindo depoimentos e registrando as ocorrências. O plantonista, porém, não informou ao UOL quantos permaneceram detidos, tampouco quantos acabaram liberados. A assessoria de comunicação da Polícia Civil foi procurada diversas vezes por telefone e por e-mail e não respondeu às solicitações da reportagem, informando apenas que o delegado responsável não falaria sobre o caso.

Tudo começou na "saída de praia", segundo relatos de lojistas, quando jovens em bando circulam pelas ruas de Copacabana para cometer pequenos delitos. Entre 15h30 e 18h, principalmente em dias de forte calor, muitos banhistas deixam a praia em direção a pontos de ônibus e estações de metrô. Gabriela relatou que a correria teve início em direção à rua Figueiredo Magalhães, no sentido Leme.

Ela disse ter visto pelo menos uma pessoa sendo roubada. "Eles vieram correndo entre os carros e nas calçadas. Um desespero generalizado. Nisso, eles derrubavam pedestres e entravam nas lojas para tentar se esconder. Todo mundo teve que agir rápido para baixar as portas", afirmou ela, referindo-se aos comerciantes.

Domingos Peixoto/Agência O Globo
Jovens são detidos após arrastão em Copacabana, na zona sul carioca

Na esquina da rua Bolívar, vimos de dentro da loja um bando de seis pivetes abordando uma pessoa que estava passando na hora. Eles pularam no pescoço dele para roubar um cordão. 

Gabriela Souza, comerciante

 

Antônia Siqueira, que trabalha nas Óticas Diniz, afirma que os arrastões na avenida Nossa Senhora costumam começar no mesmo ponto de ônibus, onde para o veículo da linha 474 (que vai de Copacabana ao bairro do Jacaré, na zona norte). "Eu trabalho bem perto do ponto do BRS-3, que é um dos mais complicados do bairro. Nesse horário de 'saída de praia', é comum ver esses meninos e meninas invadindo o ônibus 474. É dessa forma que começa a arruaça", disse.

Em relação à confusão de ontem, Antônia disse ter "dado sorte". "Percebi o desespero de todo mundo, mas felizmente estava almoçando nesse momento. Graças a Deus."

A lojista diz que crimes cometidos por jovens em bando têm ocorrido desde as Olimpíadas. Para ela, a presença do Exército nas ruas do bairro não assusta os criminosos. "A última vez que eu vi um arrastão foi durante a Rio-2016, quando policiais à paisana pararam um ônibus bem aqui em frente à loja. Um dos suspeitos foi tirado do ônibus, ele tinha roubado uma moça. O Exército pegou o cara, mas ele ficou um tempo acuado em frente ao McDonald's. As pessoas queriam linchá-lo."

Domingos Peixoto/Agência O Globo
Crianças e adolescentes correm em Copacabana durante arrastão que terminou com 92 detidos

Por conta do grande número de adolescentes e crianças, a polícia informou ter acionado a prefeitura para que os jovens recebessem apoio dos profissionais da Secretaria de Desenvolvimento Social. Procurada pelo UOL, a pasta afirmou que o Conselho Tutelar fez o atendimento das pessoas apreendidas. "Quatro crianças foram encaminhadas para um abrigo da prefeitura", informou.

Na delegacia, um dos adolescentes foi reconhecido por uma vítima como autor de um furto que, segundo informou a Polícia Civil, estaria cometendo em companhia de outros cinco jovens. Com base nas informações apuradas pela DRFA, seis mandados de apreensão foram expedidos contra o grupo.

"Baixou o sol, eles vêm"

Gabriela Souza também relatou ao UOL que a violência tem sido constante na avenida Nossa Senhora de Copacabana. "Está bem complicado. E é sempre nesse mesmo horário que as pessoas estão saindo da praia. Baixou o sol, eles vêm", declarou ela.

A comerciante afirmou que o funcionamento da Fissura está sendo prejudicado por conta da ação de criminosos nas ruas do bairro. Nos fins de semana, o segurança da filial vai embora por volta das 14h. Dessa forma, o expediente é encerrado quatro horas antes do habitual. "Normalmente, a gente trabalharia até 18h. Mas não dá para confiar sem o segurança aqui. O próprio gerente manda fechar."

Domingos Peixoto/Agência O Globo
Dos 92 detidos após arrastão em Copacabana, 84 eram menores: 78 adolescentes e quatro crianças

Dados do ISP (Instituto de Segurança Pública) mostram que, entre maio e julho, o número de roubos a transeunte mais que dobrou em Copacabana, de acordo com as ocorrências registradas na 12ª Delegacia de Polícia em comparação com o mesmo período do ano passado. Foram 28 casos, em 2015, e 73, neste ano. Também houve salto significativo no número de roubos em coletivos. No ano passado, o acumulado de maio a julho indicava apenas três ocorrências. Neste ano, foram 17.

PM e Guarda Municipal

A Polícia Militar informou ter atuado para localizar, identificar e conduziu à delegacia os jovens envolvidos na confusão desta quarta. Segundo a corporação, homens do 19º BPM (Copacabana) agiram após "reclamações da população de que os menores estariam assediando pedestres" e depois de "reclamações de furto". Somente em setembro, informou a PM, 21 adolescentes foram apreendidos nas ruas de Copacabana em situações semelhantes. A reportagem do UOL perguntou se o policiamento seria reforçado por conta do arrastão de ontem, mas não houve resposta.

A Guarda Municipal, por sua vez, destacou que a presença de profissionais da corporação é "permanente no bairro". Destacou, porém, que "tem como atribuição o ordenamento urbano e a fiscalização do trânsito e das posturas municipais, trabalho que é realizado por uma unidade de ordem pública exclusiva, além de ações do grupamento de praias, de trânsito e de apoio ao turista". "A corporação também apoia as forças policiais, responsáveis pela segurança pública, encaminhando flagrantes de pequenos delitos para as delegacias, como no caso de ontem."

Domingos Peixoto/Agência O Globo
Segundo lojistas, os arrastões costumam começar no ponto de ônibus da linha 474 (Jacaré-Copacabana)

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos