Comerciante irá deixar país após ter restaurante destruído por traficantes

Rafael Moro Martins

Colaboração para o UOL, em Curitiba

  • Divulgação/prefeitura de Curitiba

    Inauguração da Praça de Bolso do Ciclista, em 2014, que iniciou o processo de revitalização da rua São Francisco (à direita)

    Inauguração da Praça de Bolso do Ciclista, em 2014, que iniciou o processo de revitalização da rua São Francisco (à direita)

Dias após ter o restaurante destruído, à luz do dia, em uma rua do centro histórico de Curitiba, por suspeitos de tráfico de drogas que denunciara à polícia, o comerciante Raphael Viana, 31, decidiu sair do Brasil por ter "muito medo do que pode acontecer".

"Estou indo, só com uma mochila, computador, passaporte e a roupa do corpo. Mexi com quem não devia e estou indo", desabafou ao UOL. O caso de Viana --que, antes de ter seu comércio depredado, havia sido ameaçado de morte por um suspeito de tráfico, com um revólver apontado contra a cabeça-- é apenas mais um ocorrido no primeiro quarteirão da rua São Francisco.

Espécie de "baixo Augusta" curitibana, a rua, que começa a meia quadra do prédio histórico da UFPR (Universidade Federal do Paraná), onde às terças-feiras dá aulas o juiz federal Sergio Moro, ícone da Operação Lava Jato, fica a um quarteirão da sede da guarda municipal, a dois quilômetros do Centro Cívico --local em que estão prefeitura, governo do Estado, Assembleia Legislativa e Tribunal de Justiça. A menos três quilômetros, noutra direção, está o quartel-general da polícia militar.

Apesar disso, a São Francisco --especialmente em seu primeiro quarteirão, onde ficava o restaurante de Viana-- é uma terra sem lei. A reportagem passou pela rua diversas vezes por ali nos últimos dias. Em todas, jovens fumavam maconha tranquilamente. Em dias mais cheios, outros anunciam drogas à venda a quem passa por eles. Tudo isso acontece em frente a uma espécie de totem, com câmeras, instalado pela guarda municipal para oferecer "sensação de segurança", nas palavras de seu diretor, inspetor Vanderson Lima Cubas.

"[Viana] fez algo que não devia, mas que todos aqui gostariam de fazer e não fazem por medo", disse um comerciante que trabalha na São Francisco.

Como todos os ouvidos pela reportagem, pede para ter o nome mantido em sigilo --sentem medo de passar pelo que ocorreu a Viana. Segundo o relato, ele apontou a policiais que revistavam suspeitos onde estariam escondidas drogas para venda. Foi o que detonou a ameaça de morte, na última quarta-feira (7), e a depredação, na quinta (8).

"Não tenho mais clientes, eles têm medo", relatou o comerciante. "Faz dois dias que não vendo nada", falou, na sexta-feira. Como tantos outros, ele foi atraído à São Francisco após a revitalização da rua, que começou não por iniciativa do poder público, mas de um grupo de ciclistas que transformaram, por conta própria, um terreno baldio numa praça --hoje, conhecida como "Praça de Bolso do Ciclista". Até então, a rua, principalmente na primeira quadra, era erma, frequentada principalmente por viciados em crack.

A praça fez proliferarem cafés, bares e lojas na outrora deserta primeira quadra da São Francisco. A clientela veio, e tomou --literalmente-- a rua estreita, com espaço para passagem de apenas um carro por vez. Desde o início, percebia-se o consumo de drogas nas calçadas. Com o tempo, chegaram os traficantes.

"Eles dizem que a rua é deles. E é mesmo", desabafa outro comerciante. Um terceiro teme falar mesmo sob a promessa de ter a identidade mantida em sigilo. "Não vou me pronunciar de jeito nenhum. Fico calada pra eu e meus funcionários podermos seguir trabalhando", disse.

O que diz a polícia

Questionada sobre a situação da rSão Franciscoua , a secretaria estadual da Segurança Pública respondeu por nota. Diz o seguinte: "as polícias civil e militar estão trabalhando em conjunto para identificar e prender os suspeitos de ameaçar o dono de um restaurante no bairro São Francisco, em Curitiba. Um adulto foi preso em flagrante na quinta-feira e um adolescente apreendido minutos depois de depredar o referido estabelecimento. Eles foram reconhecidos pela vítima."

"A secretaria forneceu toda a estrutura necessária para atender o comerciante e reforçou o policiamento preventivo e ostensivo no local. O caso está sendo investigado. Também foi oferecida a possibilidade do empresário ingressar no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas", prossegue o texto.

Viana confirmou a oferta, que disse ter recusado. "Estarei mais seguro e terei uma vida melhor fora [do Brasil]", justificou.

A polícia militar acrescentou que "o policiamento preventivo está sendo feito diariamente na região central de Curitiba por meio da radiopatrulha e policiamento a pé". Mas, durante as horas que a reportagem passou na rua, se veem apenas policiais passando pelo local, a intervalos que chegam às vezes a 30 minutos, em motos ou carros. Não há policiais estacionados na quadra --o que, na visão dos comerciantes, ajudaria a coibir a venda e consumo de drogas.

"Sei mais ou menos do fato [a depredação do restaurante]", disse, na  na sexta-feira (9), 24 horas após a ocorrência, o diretor da guarda municipal, inspetor Vanderson Lima Cubas --o local de trabalho dele está a uma quadra dali. Apesar de dizer que a corporação "não está se omitindo", Cubas afirmou que "combater o tráfico é uma atribuição da PM, da [secretaria da Segurança Pública]."

Enquanto isso, quem trabalha na outrora revitalizada rua São Francisco pensa em deixá-la. "Estou fazendo as contas. Se eu puder, vou embora. Já morei em Pinhais (município da região metropolitana), ao lado de uma favela. Me sentia mais seguro do que aqui."

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