Historiadores pedem que nome de "falsos inconfidentes" sejam lixados de estátua de BH

Carlos Eduardo Cherem

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

  • Carlos Eduardo Cherem/UOL

    Estátua de Apolo nu no Monumento à Terra Mineira, em BH

    Estátua de Apolo nu no Monumento à Terra Mineira, em BH

O Monumento à Terra Mineira, em Belo Horizonte, escultura que homenageia os bandeirantes paulistas que desbravaram o Estado e os inconfidentes mineiros, registra em bronze o nome de três pessoas que, de acordo com especialistas, não participaram do movimento contra a Coroa Portuguesa em 1792: o escravo Alexandre, Fernando José Ribeiro e José Martins Borges.

A obra é do escultor italiano Giulio Starace (1887-1952), instalada na esplanada da praça Rui Barbosa (da Estação), em frente ao Museu de Artes e Ofícios, na antiga Estação Ferroviária, área central de Belo Horizonte. O Monumento à Terra Mineira foi inaugurado, em julho de 1930, pelo então presidente do Estado --como eram chamados os governadores à época--, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (1870-1946).

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Placa de bronze registra o nome do escravo Alexandre como inconfidente
Esculpida em granito, com placas e relevos em bronze, a escultura representa o domínio do território mineiro pelos bandeirantes e a conquista da liberdade pelos mártires da Inconfidência Mineira. No alto do monumento, há a figura de um homem nu inspirada em Apolo, com bandeira em punho, representando o heroísmo dos mineiros.

Abaixo da imagem do deus greco-romano, uma placa de bronze registra a inscrição em latim montani semper liberti (a montanha sempre será livre). Na parte central do monumento, há uma figura alegórica de Minas Gerais. A face lateral direita retrata o martírio de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Na face lateral esquerda, está Felipe dos Santos e, na outra face, o bandeirante Fernão Dias Paes.

O monumento ainda traz quatro placas de bronze, relacionando os mártires mineiros no processo instalado pela Coroa Portuguesa contra os participantes do movimento do século 18. Numa delas, consta o nome do escravo Alexandre, em outra os nomes de Fernando José Ribeiro e José Martins Borges, que "nunca foram inconfidentes", segundo historiadores.

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Placa registra os nomes de Fernando José Ribeiro e José Martins Borges, que nunca foram inconfidentes, segundo historiadores
Críticas

"Esses três nomes não constam em nenhum lugar. Em nenhum registro. São 24 pessoas que foram condenadas no processo instalado contra os inconfidentes e eles [Alexandre, Ribeiro e Borges] não estão relacionados", diz o professor do Departamento de História da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Luiz Carlos Villalta, 54, especialista em Inconfidência Mineira, com diversos livros publicados e teses defendidas sobre o assunto.

O professor explica que, mesmo entre os inconfidentes que não foram nem sequer investigados e que, portanto, não participaram como réus no julgamento, a exemplo do naturalista e minerador José Vieira Couto e dos contratadores João Rodrigues de Macedo e Joaquim Silvério dos Reis, o delator da Inconfidência Mineira, não há qualquer registro ou conhecimento do nome dos três homenageados no monumento.

"O que eles [Alexandre, Ribeiro e Borges] fizeram não sei, mas não foram inconfidentes. De modo algum", afirmou Villalta. 

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Detalhe do Monumento à Terra Mineira que retrata o martírio de Tiradentes
Instituto do Patrimônio é questionado

"Há décadas estamos transmitindo uma informação histórica falsa", afirma o conselheiro do Instituto Estadual Histórico e Geográfico de Minas Gerais Adalberto Guimarães Menezes, 89. 

Tenente-coronel reformado do Exército, engenheiro, matemático e estudioso da história de Minas Gerais, Menezes ocupa a cadeira no instituto cujo patrono é Tiradentes e foi o primeiro a denunciar o "erro grosseiro" no monumento. Ele coordenou uma equipe de conselheiros da entidade que pesquisou a participação --ou a não participação-- dos três personagens na Inconfidência Mineira.

"O responsável por dar a lista [de participantes] ao artista [Giulio Starace] que fez a obra foi displicente", diz Menezes.

Ele explica que o Instituto Histórico e Geográfico encaminhou o estudo sobre o assunto com pedido ao Iepha (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais) para que o "erro histórico" nas placas fosse consertado.

"Mesmo tombado [o monumento foi considerado patrimônio cultural pelo Iepha, em 1988], é possível retirar o nome dessas três pessoas. A forma mais viável é lixar as letras até apagar a menção ao escravo Alexandre, a Fernando José Ribeiro e a José Martins Borges, que são falsos heróis."

"A relação de nomes que está lá não é obra de arte, não é criação do artista. A arte está no monumento, no material, na apresentação", afirma Menezes.

O Iepha, por sua vez, diz que não tem estudos sobre o "possível erro apontado". Por meio de nota, informou ainda que vai entrar em contato com o Instituto Histórico e Geográfico para solicitar os estudos feitos sobre o assunto. "Caso sejam necessárias correções, tomará as providencias cabíveis."

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