Saúde pública

Com hospital de R$ 2,7 mi parado, pacientes pegam 6h de estrada para tratar câncer

Colaboração para o UOL, em João Pessoa

"É uma viagem longa, cansativa, sem conforto, mas é a única opção que tenho de lutar pela vida". O desabafo é da dona de casa Edilene dos Santos, 46, que há oito meses descobriu um câncer no colo do útero. Desde então, viaja cerca de 350 quilômetros de Patos, no interior na Paraíba, até João Pessoa, capital do Estado, para fazer tratamento no Hospital Napoleão Laureano. Sofrimento que poderia ser minimizado caso o Hospital de Oncologia, no qual foram investidos R$ 2,7 milhões, estivesse em funcionamento. 

A unidade foi entregue em julho de 2016, segundo Simone Guimarães, que responde pela Superintendência de Obras do Plano de Desenvolvimento do Estado (Suplan). Contudo, está, até hoje, inutilizada. Faltam os equipamentos e a habilitação, responsabilidades que cabem ao Ministério da Saúde, segundo a superintendente. 
 
"Eu entrego obra, e a obra foi entregue. Para funcionar, depende do Ministério da Saúde (MS), que deve enviar os equipamentos", afirmou. A Secretaria de Saúde do Estado também afirmou que aguarda recursos do Ministério da Saúde para aquisição de equipamentos. 
 
Em Brasília, a versão é outra. Em nota, o MS informou que, até o momento, não recebeu oficialmente nenhuma solicitação de habilitação de unidade hospitalar no município de Patos.
 
"Para que um hospital receba recursos do MS para realizar tratamento de pacientes com câncer, é preciso que o mesmo seja habilitado em oncologia junto à pasta", esclareceu. Segundo o MS, a Paraíba possui quatro hospitais habilitados para tratamento de câncer (dois em João Pessoa e dois em Campina Grande), lista na qual o Hospital de Patos não está incluído.
 
Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, o hospital foi construído a partir de uma parceria com o Ministério da Saúde. No final de 2015, conforme a secretaria, foi solicitado ao Ministério da Saúde a liberação dos recursos, mas nenhuma resposta foi dada. Ainda de acordo com a secretaria, "com a troca de equipe no Governo Federal, foi feita uma nova solicitação, mas o governo ainda não sinalizou a liberação de recursos na ordem de R$ 50 milhões/ano".
 

Seis horas de estrada

Enquanto o MS e o governo da Paraíba discutem sobre as competências de cada um nesse processo, pacientes como Edilene continuam a peregrinação em busca de tratamento para o câncer bem longe de casa. Geralmente sem condições de pagar a passagem no ônibus convencional, os pacientes dependem de carros e vans das prefeituras para irem até a capital. Uma viagem longa, apertada e sofrida. De Patos até João Pessoa são aproximadamente seis horas na estrada. 
 
Segundo o diretor presidente da Fundação Napoleão Laureano, o médico Antônio Carneiro Arnaud, cerca de 50% dos pacientes atendidos no hospital são do interior da Paraíba, de um total de aproximadamente 20 mil habitantes por ano. No ano de 2015 foram atendidas 415 pessoas do município de Patos. O restante corresponde a pacientes da capital e da Região Metropolitana de João Pessoa, que compreende outras cinco cidades. 
 
No estacionamento da unidade, todos os dias, dezenas de pacientes vindos do interior, ficam sentados horas após serem atendidos esperando o carro da prefeitura voltar para a cidade de origem. A maioria chega sem tomar café. A sorte é o trabalho de voluntários da Rede Feminina de Combate ao Câncer, que distribui café, leite, biscoitos e pão diariamente no hospital. 
 
Quem fica até mais tarde – e essa é uma situação comum – geralmente só almoça quando volta para casa. "Não dá para comprar almoço, fica pesado", afirma Maria Betânia Costa, que acompanha o irmão, que recentemente descobriu um tumor na cabeça e teve de operar. Para driblar a fome, às vezes eles levam biscoitos. Devido ao longo tempo de viagem, poucos se arriscam a levar marmita, que pode facilmente estragar. 
 
O aposentado Abílio Ramos, 81, que mora em Tacima, a 150 quilômetros da capital, também só se alimenta quando volta para casa após a consulta com o urologista. Desde que descobriu o câncer de próstata, essa é a rotina que o aposentado vive uma vez por semana: acorda cedo, pega carona no carro da prefeitura, chega ao hospital sem tomar café, e retorna sem almoço. 
 

"O bolso não dá para comprar o remédio" 

O drama de Abílio Tamos também é vivido pela família de Hosane Fernandes, que luta contra um câncer de mama. Todo mês, a filha dela, Rosane Fernandes, sai de Guarabira (98 km da capital) para João Pessoa para pegar o remédio que a paciente não pode deixar de tomar. 
 
"O bolso não dá para comprar o remédio. É uma caixa por mês", afirma Hosane. Sem alternativa nem dinheiro para pagar uma passagem no ônibus interestadual, Rosane viaja uma vez por mês para João Pessoa e, depois de pegar o medicamento da mãe, espera pacientemente pela van da prefeitura, que geralmente demora de quatro a seis horas para voltar. 
 
"É cansativo, chega a ser desumano", diz Rosenilda de Sousa, que semanalmente leva os dois filhos pequenos de Patos para tratamento em João Pessoa. Os meninos são hemofílicos e estão sendo submetidos a mais exames - houve época em que chegaram a ir três vezes por semana. "Faço o esforço porque é para cuidar dos meninos, se fosse para mim acho que não teria coragem."
 

Campina Grande também oferece tratamento 

Na Paraíba, quem não vai até a capital em busca de atendimento, procura o Hospital da Fundação Assistencial da Paraíba (FAP), em Campina Grande, a 112 km da capital. Em novembro, o hospital recebeu um novo acelerador linear do Ministério da Saúde, que pode reduzir o tempo de espera na fila para o tratamento de radioterapia. 

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