Após 16 anos sob cárcere, mulher já sorri, dança e pede batom, diz assistente

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

  • Divulgação/Polícia Civil do Ceará

    Mulher foi mantida pelo irmão em um cômodo de 3x3 metros em Uruburetama

    Mulher foi mantida pelo irmão em um cômodo de 3x3 metros em Uruburetama

Cerca de 20 dias depois de seu resgate após 16 anos em cárcere privado, Maria Lúcia, 36, já não se preocupa apenas em pedir comida, nem pede para as pessoas saírem de perto. A fase inicial de agressividade também se foi. 

"Ela agora sorri, dança com as meninas e pede para colocar batom", afirmou Irene Braga, coordenadora do Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) de Uruburetama (a 114 km de Fortaleza) e que está acompanhando a mulher. 

Maria Lúcia foi resgatada no último dia 9 pela polícia, que recebeu denúncia anônima e foi até o sítio onde ela vivia, a 14 km da sede da cidade de Uruburetama. A mulher estava despida e suja de fezes, e em um cômodo de 9m², sem iluminação e com ventilação precária. O irmão dela foi preso na terça-feira (28) sob suspeita de ser o responsável pelo cárcere. Ele pode ser indiciado por maus tratos e cárcere privado.

Depois de anos de sofrimento, aos poucos, a rotina de Maria Lúcia está se aproximando de uma vida normal. "No momento, ela ainda não fala bem, fala pouquíssimas coisas. Mas no começo falava só 'vá embora', 'saia de perto', 'vou pra casa', 'quero comer'", disse Braga. "Hoje, não, a gente já chega pertinho, ela olha, sorri. Já se vê que ela mudou. Ela dança, pede para brincar; parece uma criança. Ela está feliz."

Uma das características que chamaram a atenção da equipe e da família que a acompanha foi o resgate da vaidade da mulher, que passou 16 anos trancafiada em um cômodo sujo e escuro.

"Ela agora diz muito: 'passar batom'. Ela adora agora pintar as unhas, fica olhando para elas. Também senta na calçada, fica na janela, gosta de olhar o pessoal da comunidade. Todos estão pertinho e ajudando a cuidar dela", disse.

Maria Lúcia está sob tutela de uma família da comunidade rural onde vivia sob cárcere privado. Passou a ser uma atração do local.

Próximos passos

A mulher está sendo assistida pelo Creas, que entrega alimentos e remédios. O próximo passo é garantir acompanhamento psiquiátrico e psicológico. O centro vai também buscar uma aposentadoria com base nos possíveis transtornos mentais adquiridos por ela no cárcere.

"Aposentada, vamos tentar que a família que a acolheu agora fique com a tutela dela. Queremos que ela fique na serra, onde sempre viveu. Voltar para os pais está descartado", diz.

"Os pais também estão sendo acompanhados. Fizemos uma visita, e eles estão preocupados com a situação. Eles não são pessoas más", disse.

Sobre o filho que Maria Lúcia gerou no cárcere, o Conselho Tutelar da cidade informou que já o localizou. Aos 16 anos, ele tem uma vida normal com a família que o registrou e o adotou. "Ele reside ali na localidade mesmo. Ele já foi ouvido na polícia e será visitado. Vamos analisar se ele precisa de um acompanhamento psicológico", afirmou Gilson Pereira, conselheiro tutelar do município.

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